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Após declaração racista, agressiva e preconceituosa do coordenador DSEI/Araguaia lideranças indígenas exigem sua saída

Após declaração racista, agressiva e preconceituosa do coordenador DSEI/Araguaia lideranças indígenas exigem sua saída


29/11/2021

Após áudio vazado nas redes sociais, onde o coordenador do Distrito de Saúde Especial Indígena (DSEI) do Ministério da Saúde na região do Araguaia, o suboficial reformado da Marinha Ronalde de Barros Ramos, em São Félix do Araguaia - MT, a 1.150 km de Cuiabá, em tom agressivo disse em uma conversa ocorrida no dia 23 de novembro, na sede da instituição no município, ao agente de combate a endemias do DSEI e educador indígena Luiz Flávio Juanahu Karajá, que também é membro do Conselho Regional de Saúde Indígena (CONSIDI), o cuja função é fiscalizar os gastos no setor, que indígenas não produzem nada e "têm que trabalhar”.

Indígenas de várias etnias se reuniram em frente do DSEI em São Félix do Araguaia - MT, na tarde do dia 26 de novembro (sexta-feira), para pedir a saída coordenador Barros. Indígenas reclamam da atual gestão. Com pinturas, adereços, armas artesanais e borduna, considerada a arma de guerra da etnia Karajá os manifestantes fecharam a entrada do prédio e exigem a saída imediata do coordenador. Além da troca do coordenador, os indígenas reivindicam melhorias no atendimento a saúde indígena que, segundo eles, passa por grande descaso, principalmente na falta de estrutura como transporte, medicamentos e profissionais qualificados para o atendimento da população. A ocupação foi pacífica, porém, os indígenas prometem radicalizar se o pedido não for atendido pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI). O DSEI até então, coordenado por Barros é responsável pelo atendimento de saúde a 43 aldeias de 16 etnias diferentes, com mais de 5,8 mil indígenas.

As maiorias das lideranças indígenas afirmaram em suas falas que não aceitam mais militar para coordenar o DSEI/Araguaia, que os indígenas devam ser incluídos no processo de escolha dos coordenadores dos DSEIS, eles não costumam ser consultados sobre quem vai atuar em seus territórios. É notório que a fala do atual coordenador é de autoritarismo com intuito de amedrontar os indígenas. Sua arrogância e prepotência não respeita os esforços empreendidos pelos povos e pelo movimento indígena que resultou na conquista do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena no Estado e no Brasil. Se não bastasse o currículo do gestor, que não tem experiência com saúde pública e atuação com os povos indígenas, o mesmo tem desrespeitado a autonomia dos povos indígenas em seus territórios. Isso tem sido traduzido, quando impõe sua gestão centralizadora e desconsidera o controle social da saúde indígena, uma das maiores conquistas da Política Nacional de Saúde Indígena no Brasil, impondo métodos que afasta o direito de consulta aos nossos povos.

Insatisfeitos com a maneira que o coordenador vem tratando lideranças indígenas questionam a legitimidade da indicação que ocorre sem diálogo a comunidade. Alegam também que a nomeação do militar que não conhece a realidade local é inadmissível. Os índios estão morrendo à mingua por falta de assistência nas aldeias. Por unanimidade lideranças afirma que o coordenador não faz nada pela comunidade. Não está preocupado em atendê-los. Frisaram também nos discursos que irão brigar até o fim. De acordo com as lideranças, é uma falta de respeito. Não avisar e colocar uma pessoa que não é preparada para assumir a coordenadoria. Não irão aceitar nenhuma indicação militar.

O Jornal “O Repórter do Araguaia” teve acesso à gravação, de 6min57s. Barros, que foi nomeado para o cargo no segundo ano do governo Bolsonaro, em janeiro de 2020, disse o seguinte a Juanahu: "Vocês não sabem porra nenhuma. Nada. Nem trabalhar vocês sabem. Um monte de terra, ninguém produz nada. Querem só ficar vivendo de miséria do povo, do governo. Vocês têm que ter vergonha na cara e trabalhar, pô. É isso que vocês têm que fazer. Aprender a trabalhar com 'tootori' [referência a não indígenas]. É isso que vocês têm que aprender. Nós temos que aprender, porque eu também sou índio. Eu sou índio, o senhor sabe disso. Eu sou mestiço. E aprendi a trabalhar. Eu nem preciso trabalhar mais, eu sou aposentado, eu ganho 12 mil reais da Marinha. E tenho mais duas casas alugadas. Eu trabalho dia e noite, quando eu sair daqui eu vou trabalhar lá fora. É isso que vocês, o nosso povo, tem que aprender a fazer, é trabalhar. Coisa que não fazemos. Há 500 anos nós fomos descobertos e nós não conseguimos trabalhar, aprender com 'tootori' [não indígena] a produzir. Vocês não eram para precisar de saúde indígena, de saúde de merreca de governo, nosso povo era para ser milionário pela terra que nós temos. O que falta para nós é disposição para o trabalho, é isso que está faltando pro nosso povo".

De acordo a conselheira do CONDISI do Araguaia Eliana Karajá a fala do coordenador tem cunho racista, agressivo e preconceituoso e que se sentiu "ofendida e discriminada" pela fala de Barros. "Ele não sabe da vida de todo mundo, ele não sabe o que ele está falando. Depois da pandemia, todo mundo parou, agora que está retomando devagar. Ele conheceu meu povo em plena pandemia, não pode julgar pelo alto, falando isso. Então podemos julgar o trabalho dele. O que ele fez para melhorar essa situação? Se você julgar uma pessoa, você tem que se julgar primeiro. Nós não fazemos agronegócio, fazer plantação com soja, isso ele não vai ver, não é de nossa índole. O Rio Formoso aqui está praticamente morto. É um absurdo. Ele não atingiu só um indígena, ele pegou todo mundo, ele falou sobre os povos indígenas. Ele fala que nós não produzimos. Ele produz alguma coisa?".

Apesar de Barros alegar, na gravação, que também é indígena "mestiço" e falar em "nosso povo", as lideranças indígenas da região disseram desconhecer qualquer laço familiar dele com indígenas do Araguaia. Ele não era conhecido pelos indígenas da região antes de ser nomeado, em janeiro de 2020.

Em resposta ao protesto dos indígenas pela saída do coordenador Barros, a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) em Brasília, que é dirigida também por um militar, Robson Santos da Silva, saiu em defesa de Barros, ao dizer que ele chefia o DSEI "com qualidade técnica". Disse ainda que as palavras de Barros se referiam a "uma situação pontual" (veja a íntegra da nota do ministério ao final deste texto).

Veja abaixo na integra transcrição do áudio entre Barros e o servidor Juanahu:

Barros diz que o servidor do DSEI, Juanahu, tem que jogar do seu lado. O servidor questionou sobre os gastos com combustíveis para atendimento nas aldeias. O karajá esclareceu: "Não estou acusando o senhor em nenhum momento, eu estou falando do distrito, DSEI, sem nome, já teve corrupção [no passado]". Ele lembrou a Barros que o coordenador o havia ameaçado de demissão. "Você falou para mim uma coisa, você vai me mandar embora, [pedir] a minha cabeça. Eu sou um conselheiro, então você vai mandar embora todos os conselheiros", disse Juanahu.

Barros retrucou que "você só joga contra nós, cara". "Você tem que escolher, você quer ser liderança, falar merda, ou você quer trabalhar pra gente? Você pode ser liderança e continuar falando a merda que cê quiser, mas você não pode jogar contra o DSEI, pô. Você é funcionário do DSEI, cara", disse o militar reformado da Marinha.

O servidor karajá explicou que a maioria dos conselheiros do Condisi é formada por funcionários da Sesai. "Agora você esclareceu para mim. Ninguém vai falar nada", disse Juanahu. "Quando você trabalha para nós você tem que jogar do nosso lado", respondeu o militar. Juanahu lembrou a Barros que sua mãe karajá, de 57 anos, morrera por falta de transporte, sem combustível.

A gravação gerou forte reação entre indígenas em grupos de discussão. O vereador Reginaldo Tapirapé (PP), de Confresa (MT), disse em áudio que o diálogo foi "bastante agressivo, bastante destruidor e preconceituoso". Ele disse que conhecia Juanahu "há muitos anos", é "um companheiro de luta, é trabalhador na saúde indígena", que "tem feito um papel importante nesse processo de [combate a] endemia".

Uma indígena afirmou em áudio que "foi muito difícil quando a gente ouviu o áudio". "É um absurdo tudo que a gente ouviu, o tom da voz, tudo. É muito preocupante. Nós conselheiros não podemos abrir a boca para falar nada, parece que tem uma ditadura. [...] Toda essa retaliação com Juanahu foi porque ele respondeu o que o Luma tava falando aqui e ele deu a opinião dele e aconteceu tudo isso, essas humilhações, abuso de poder. [...] É muito triste, nós temos mesmo que tomar uma atitude.".

Em nota de repúdio, a Asiva (Associação Indígena do Vale do Araguaia) e o Coletivo de Mulheres Iny afirmaram que o áudio tem "cunho racista, agressivo e preconceituoso contra os povos indígenas e o profissional indígena que atua no distrito Araguaia".

"Lutaremos para que estes atos não ecoam de forma a que não encontrem respaldo. Solicitamos o apoio dos povos indígenas do Brasil e defensores da causa indígena, ao Ministério Público para investigação e providências. O áudio foi gravado pelo profissional e conselheiro distrital de saúde indígena. Os relatos dos nossos parentes e que não é a primeira vez que o coordenador usa sua autoridade para humilha os funcionários indígenas", diz a nota.

O presidente do Condisi Araguaia, Cleidson Ima'arawy Tapirapé, e o vice-presidente da entidade, Rodrigo Vasconcelos da Costa, enviaram um ofício nesta quarta-feira (24) ao secretário especial de Saúde Indígena, Robson Santos da Silva, para "solicitar providências urgentes para resolução do fato ocorrido".

O ofício diz que o coordenador "acabou envolvendo todos os indígenas, relatando que o povo indígena não trabalha, não produz e vive de merrecas vindas do Governo. Falou ainda que o profissional que é prestador de serviços deve jogar do lado do DSEI, deixando a entender por parte da grande maioria de nossas lideranças que os conselheiros que atuam [em] alguma atividade dentro do DSEI não podem exercer o papel de fiscal".

Secretaria vê "tentativa de desmoralizar o coordenador"

Em nota enviada à coluna, a Sesai do Ministério da Saúde saiu em defesa de Rolande Barros, ao dizer que ele trabalha "com qualidade técnica" e que seria alvo de "tentativa de desmoralização". A coluna também indagou qual a experiência de Barros com populações indígenas antes de sua nomeação, em janeiro de 2020. Indagou também sobre a formação educacional de Barros. Não houve resposta às duas perguntas.

A Sesai afirmou em nota, na íntegra:

"A Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) informa que o Coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Araguaia, Ronalde de Barros Ramos, vem exercendo a coordenação do distrito com qualidade técnica de modo a manter a assistência de saúde dos indígenas da região, com apoio dos profissionais do DSEI e do controle social.

"Conforme explicações dadas pelo coordenador, as palavras proferidas não se referem à população indígena atendida pelo distrito, mas sim a uma situação pontual envolvendo um indígena e outros colaboradores que trabalham no distrito e, há tempos, não vêm desempenhando suas atividades a contento sendo que, quando cobrados, acabam não corrigindo as falhas identificadas.

"A parte da conversa que foi gravada não apresenta a totalidade do diálogo, omitindo parte importante da conversa já em andamento”. A gravação, feita sem conhecimento do coordenador, possibilitou que o contexto da conversa fosse colocado de acordo com os interesses do profissional, numa clara tentativa de desmoralizar o coordenador.

"O Distrito informa que trabalha em harmonia com o controle social, composto por conselheiros, e que o Conselho Distrital está acompanhando a apuração dos fatos".

Ouça o áudio do coordenador Barros com o servidor Juanahu

Segue os vídeos das falas das lideranças indígenas durante o  protesto em frente do DSEI em São Félix do Araguaia – MT.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                     

Vanessa Lima/O Repórter do Araguaia

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Parabéns Coordenador. Você tem o nosso apoio. Fora bandidos! Chega de atrapalhar o serviço do militar que só falou a verdade. Esses conselheiros são todos uns fofoqueiros que só querem confusão e emprego no Distrito.

Parabéns Coordenador. Você tem o nosso apoio. Fora bandidos! Chega de atrapalhar o serviço do militar que só falou a verdade. Esses conselheiros são todos uns fofoqueiros que só querem confusão e emprego no Distrito.

ESSA MULHER DESSE TAL SAMUEL OUTRO QUE NAO FAZ NADA E TEM UM SALARIO ALTA, TEM QUASE DOIS ANOS QUE NAOI APARECE PRA TRABALHAR, E QUANDO APARECE NAO SABE FAZER NADA E GANHA UM SUPER SALARIO, TEM QUE ACABAR COM ESSA MAMATA, COODENADOR NAO PODE DA MOLESA SENAO ELES MUNTA ENCIMA, AGORA QUE TEM UM QUE PEITA ELES, SO ASSIM PRA RESPEITAR, MANDA ESSES PRIGUISOSÇOS TRABALHAR, RODRIGO VAI CASSAR O QUE FAZER RAPAZ VC NAO DA CONTA SER ADMINISTRAR ESSE DISEI,

Esse Rodrigo Vasconcelos da Costa, quer ser coordenador há mto tempo.

Esses índios são uma espécie de quadrilha, que agem em bando e com violência para conseguir vantagens indevidas.

ta na hora de da um basta nesses indios preguiçosos que ganha dinheiro sem trabalhar, esse Jhanaru, nao faz nada so que saber de passear, esta proibido de entrar na CASAI em goiania, querem tudo na mao e facilidades, e so querem defender seus interreses pessoais, e nao da comunidade vao trabalhar cambada.

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