01/06/2015 - Cadê o dinheiro que tava aqui: Repórter secreto visita cidade de Goiás que não consegue se livrar da corrupção

01/06/2015 - Cadê o dinheiro que tava aqui: Repórter secreto visita cidade de Goiás que não consegue se livrar da corrupção

O repórter secreto do Fantástico chega a Santo Antônio do Descoberto, em Goiás. Há poucos anos, essa cidade viveu cenas de guerra por conta da indignação do povo, que queria saber, e continua querendo:  cadê o dinheiro que tava aqui?

Santo Antônio do Descoberto fica em Goiás, pertinho de Brasília. É uma cidade de gente religiosa, como se vê no pedestal: um trecho do famoso salmo 23 de Davi. "O senhor é meu pastor, nada me faltará."

Bem, estão faltando letras no próprio pedestal. Foram arrancadas. Também falta a imagem do padroeiro, Santo Antônio, que ficava lá. Alguém roubou.

E falta mais:

“Tá faltando remédio hipertensivo, diabético. Isso também falta demais também”, conta o enfermeiro Sebastião Cândido de Oliveira.

“Nem exame de sangue a gente consegue”, diz uma cidadã.

“É o dinheiro público que tá faltando para tapar os buracos aqui da cidade, pra comprar carteiras, a merenda escolar”, comenta o vereador Mateus Antônio, do Solidariedade.

O Ministério Público investiga as contas da prefeitura de Santo Antônio. A oposição e o Sindicato dos Funcionários Públicos estão sentando a mamona no prefeito Itamar Lemes Prado, do PDT.

Clenilda Melquíades dos Santos, presidente do Sindicato dos Funcionários Públicos de Santo Antônio do Descoberto: O que for necessário fazer pra que ele consiga dinheiro, ele faz, não importa quem ele vai atingir.
Mateus Antônio, vereador de Santo Antônio do Descoberto: Santo Antônio se instalou a prática da corrupção nos desvios de verbas públicas.

E o prefeito diz o quê? 

Itamar Lemes Prado, prefeito de Santo Antônio do Descoberto: Eu acho que eu sou o único prefeito que não precisa de roubar, que o meu patrimônio, ele é razoável.

É por essas e por outras que o repórter Eduardo Faustini foi até Santo Antônio do Descoberto para saber: Cadê o dinheiro que tava aqui?

Não é de hoje que a cidade está cheia de problemas. As imagens no vídeo acima são de 2011, quando um protesto da população contra o abandono virou cena de guerra. Até o padre se meteu na confusão. Pois bem. De lá pra cá mudou alguma coisa?

“Eu posso dizer pro senhor que não houve nenhuma melhoria. Então estamos jogados nas mãos de Deus”, diz um padre.

Pelo amor de Deus. A cidade está cheia de buracos.

“É uma buraqueira, uma poeira muito grande. Quando muito, tapa com terra”, diz Clenilda Melquíades dos Santos.

A coisa está muito feia em uma escola municipal. Aula de reforço debaixo da árvore, porque a sala está lotada: duas turmas ao mesmo tempo. O posto de saúde está caindo aos pedaços. Caindo mesmo.

Sebastião Cândido de Oliveira: Aqui caiu aqui também a calha também, aí inundou a sala de curativo. Não tem luz, muitas das vezes prejudica também. Material de curativo, luva, essas coisas está em falta. A gente não pode omitir isso.
Fantástico: E remédios?
Sebastião Cândido de Oliveira: Remédio também sempre falta.

“Não sei nem há quantos anos não nasce um santo-antoniense aqui na cidade, no hospital municipal, porque não se faz um parto, não faz cirurgia, não faz exames laboratoriais, não faz ressonância, não faz tomografia, não faz um gesso”, afirma Clenilda Melquíades dos Santos.

A população tem que aproveitar quando aparece na cidade um ônibus equipado com aparelhos de exames médicos. É uma iniciativa particular de uma deputada de Goiás.

“Exame para saber de quantos meses eu estou não tem aqui no Santo Antônio gratuito. Então a gente tem que aproveitar”, diz uma moradora.

O vereador da oposição diz que o prefeito é culpado pela situação na cidade. E ele diz mais: a prefeitura usa empresas fantasmas para desviar dinheiro público.

“Já fiz a denúncia no Ministério Público Federal, na CGU e Polícia Federal”, disse o vereador Mateus Antônio.

O repórter Eduardo Faustini procurou a sede de uma empresa que recebeu R$ 2 milhões para fornecer material de limpeza para a prefeitura. Mas olha só o que ele encontrou nos endereços declarados pelo dono da empresa.

Homem: Amor, nós mudamos pra cá quando foi? Junho do ano passado, né? É, vai fazer um ano, junho do ano passado.
Fantástico: Mas aqui nunca funcionou essa empresa?
Homem: Eu não sei. Comigo aqui, não.

Ainda segundo o vereador, existem contratos suspeitos com pelos mais 6 empresas. O que seria a sede de uma delas fica a 175 quilômetros de lá. Na casa de um homem, que por acaso é vice-prefeito de uma outra cidade, que também se chama Santo Antônio: Santo Antônio de Goiás.

“Aqui nunca funcionou empresa, de espécie nenhuma. Eu nunca aluguei, e nunca morou outra pessoa aqui a não ser eu. Eu e minha família”, afirma Marildo Vaz Machado, vice-prefeito de Santo Antônio de Goiás.

O vice-prefeito diz que registrou o caso na polícia. Nas contas do vereador, os negócios fraudulentos da prefeitura de Santo Antônio do Descoberto chegam a R$ 30 milhões.

“Trinta milhões em fraude”, diz Mateus Antônio.

Tem mais.

“Fui pega de surpresa agora em janeiro de 2015 com um contrato de terceirização da saúde do município. Eu consegui a documentação, analisei a documentação que me foi entregue, e para minha surpresa ela era toda falsa”, relembra Clenilda Melquíades dos Santos.

Contrato para uma associação administrar toda a saúde do município. De quanto?

Fantástico: Qual era o valor do contrato?
Clenilda Melquíades dos Santos: O valor do contrato? R$ 133 milhões
Fantástico: Por quantos anos?
Clenilda Melquíades dos Santos: Por quatro anos.

Como é que é?

“R$ 133 milhões, que é um absurdo pra um município do nosso porte aqui”, ressalta Clenilda Melquíades dos Santos.

Dá quase R$ 3 milhões por mês. Diz o prefeito que a cidade arrecada R$ 6,2 milhões por mês e gasta R$ 5,7 milhões só com salários.

“Por isso que a cidade está aí toda cheia de buraco, cheia de problema”, diz o prefeito. 

A Justiça concedeu liminar suspendendo o contrato de R$ 133 milhões com a Organização Social Associação de Proteção e Saúde. O repórter Eduardo Faustini foi até a sede da empresa, que ficaria em um prédio numa área nobre do Rio. Não encontrou nada. A administração do edifício afirma que desconhece a associação.

O repórter foi então à casa do suposto presidente da associação, Alexandre Evangelista Dias e falou com ele pelo telefone. Alexandre disse que a associação existe, sim, naquele endereço nobre. Para provar o que disse, marcou de se encontrar com o repórter na tal sede. Pergunta se ele apareceu.

O prefeito afirma que fiscalizar empresa é um negócio meio difícil. “Não tem como a gente ir lá e verificar se ela, se ela existe no local ou não”.

Ele afirma também que pediu ajuda aos vereadores.

Fantástico: O senhor tem a sua consciência tranquila? O senhor deita e dorme tranquilo?
Itamar Lemes Prado, prefeito: Sim, com certeza. Eu estou aguardando a resposta da Câmara de Vereador, eu mandei um ofício para ela pra eles convocarem todas essas empresas ir lá que eu não tenho nada a esconder.

O Ministério Público informa que existem pelo menos 31 procedimentos investigatórios sobre lesões ao patrimônio público e à moralidade administrativa - desde 2013, o ano em que Itamar assumiu. Entre os investigados pelo Ministério Público está justamente quem? O chefe do poder executivo, ou seja, o prefeito.

Por isso, senhor Itamar Lemes Prado, o repórter secreto quer saber: cadê o dinheiro que tava aqui?

 

Ver o vídeo da reportagem AQUI

 

 

Escrito por Fantástico

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