02/02/2015 - “Vamos mudar a lógica da coisa pública na área da Cultura em MT”

O maestro Leandro Carvalho, reconhecido nacionalmente e no exterior, suspendeu temporariamente sua carreira para assumir a Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer. Para ele, é a oportunidade de deixar de lado as críticas pela inoperância no setor, arregaçar as mangas e colaborar para que as mudanças necessárias aconteçam.  

E o desafio é grande.  Em apenas um mês no comando da recém-fundida secretaria, ele já é obrigado a lidar com o baixo orçamento. 

"A Cultura tem apenas 0,16% do Orçamento do Estado. São R$ 24 milhões por ano. Um valor irrisório a ser destinado, também, com folha de pagamento e custeio. Isso é nada. Não dá nem para começar", disse, em uma entrevista.

 

Otimista, Carvalho tem como prioridade organizar uma estrutura adequada para atender as demandas do setor, com foco na transparência e democratização dos recursos. 

"O que precisa ser modificado é a lógica da coisa pública. Precisamos acabar com a política do favor. O dinheiro da Cultura é dinheiro público. Os processos precisam ser transparentes. A seleção, o acompanhamento das execuções, a prestação de contas, tudo isso precisa ser transparente", disse.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista:

MidiaNews -  O senhor é um maestro consagrado, com um carreira sólida, como foi aceitar o convite para assumir a secretaria?


Leandro Carvalho - Quando você aceita um desafio como esse, tem consciência de que vai abrir mão de muita coisa no campo pessoal. Eu vou ter que abrir mão da minha carreira no Brasil e no exterior. Isso é uma realidade. Convites que eu tenho que negar, que postergar, com exceção da Orquestra de Mato Grosso que é um projeto de vida, que é um projeto muito importante e que eu não poderia nem abrir mão, nem pelo compromisso com a orquestra, nem pelo compromisso com o público, e nem pelo compromisso com minha saúde mental e espiritual. É uma válvula de escape. Eu não posso 'matar' o artista. Tem que ter um momento que eu possa manter essa chama acesa, ainda que pequena. Mas o que me motiva, nesse desafio, é a vontade de transformar o Mato Grosso. Quem me conhece, sabe disso. É um idealismo muito real. É muito presente na minha vida. Sempre fui apaixonado pelo Brasil. Sempre convivi com pessoas e sempre fui atraído por pessoas que eram apaixonados pelo Brasil. E quero ver o meu Estado dando certo. Eu sempre fico indignado com os desmandos absurdos que nós vivemos nesse país, aí, de repente, você tem a chance de mudar, de colaborar e fazer algo de diferente. Então, movido pela admiração que eu tenho pelo governador Pedro Taques, por sua trajetória na vida pública, decidi aceitar. Outro fato que me motivou foi ver o nível do seu secretariado. 

MidiaNews - O senhor titubeou quando o governador lhe fez o convite?

Leandro Carvalho - Não, porque nós já vínhamos conversando sobre o perfil do novo gestor. Mas eu não acreditava que pudesse ser convidado. Eu estava ali, tranquilo, de férias com meu filho na praia. E isso não estava no meu radar. Tinha outros planos, mil coisas, até coisas que já estavam fechadas há muito tempo. Era uma vida em andamento e eu tenho claro isso: que eu estou secretário e vou dar minha contribuição por um período, que pode ser maior ou menor, e depois eu volto para a orquestra, para minha vida de músico, que é o que eu sou.

MidiaNews -  Considerando seu repertório, as referências, os estudos e contatos com políticas públicas culturais que deram certo, o que o senhor pretende fazer na área da Cultura em Mato Grosso?

Leandro Carvalho  -  O que precisa ser modificado é a lógica da coisa pública. Precisamos acabar com a política do favor. O dinheiro da Cultura é dinheiro público. Os processos precisam ser transparentes. A seleção, o acompanhamento das execuções, a prestação de contas, tudo isso precisa ser transparente. As pessoas que avaliam os projetos também. Essa lógica precisa ser implantada.

MidiaNews - O senhor está se referindo ao Proac, que destina recursos aos artistas mediante a apresentação de projetos?

Leandro Carvalho - Eu estou me referindo à criação de uma política pública para a Cultura, e ao Programa de Apoio a Cultura, o Proac, que é apenas uma ferramenta de uma política mais ampla. O Proac é uma possibilidade para atender as demandas da sociedade. As pessoas têm ideias e projetos e, ali, elas têm uma ferramenta de desenvolvimento, de apoio. É uma ferramenta que existe em diversas áreas, mas além dela, é preciso criar uma política, um programa com editais que tragam uma ideia de descentralização e democratização, de apoio a determinadas segmentos que precisam mais de priorizações. Você tem iniciativas do próprio Governo que são realizadas em parceria com a sociedade, mas que são iniciativas do Governo. Você tem ferramentas de fomento, através dos editais e programas, e tem o programa de apoio específico que atende a essa demanda. Em todos esses processos é importante que uma nova lógica comece. Então, qualquer coisa que se faça, que seja de forma aberta. Não é aquela coisa de se beneficiar alguém por causa da política, porque eu ou outro gestor goste mais de você. Não. É um programa. Você convida, as propostas são apresentadas e câmaras temáticas selecionam os projetos. Se é uma área do audiovisual, é colocado um especialista, se é da dança, outro especialista. O secretário acompanha, organiza, prioriza, define, mas você tem que dar transparência na seleção. Essa lógica que tem que começar.

MidiaNews - O senhor diria que, até agora, essa lógica sempre foi distorcida, com verbas sendo empregadas sem critério técnico?

Leandro Carvalho - É exagerado dizer isso. Nós tivemos, nos últimos anos, diversos momentos no setor cultural de Mato Grosso. Momentos em que as coisas aconteceram de forma mais transparente, e momentos em que as coisas aconteceram de forma menos transparente. Nós estamos fazendo um diagnóstico de como está a secretaria e acho que o governo, de forma geral, tem apresentado à sociedade o que está encontrando. Lentamente, os diagnósticos estão sendo concluídos e estão sendo apresentados à sociedade.

MidiaNews - E qual o diagnóstico da Cultura?

Leandro Carvalho - Nós encontramos um orçamento de 0,16% do Estado, cerca de R$ 24 milhões. Um orçamento irrisório a ser destinado com folha de pagamento e custeio. Isso é quase nada. O que você consegue fazer em uma secretaria de Estado que tem que atender do patrimônio histórico do Estado? Quantos prédios, quantas bibliotecas, quantos museus, as áreas de produção, da economia da Cultura, da economia criativa, da capacitação... Então, é impossível. Não dá nem para começar. Mas vamos construir outra realidade. Tenho convicção de que o governador Pedro Taques tem consciência plena da importância da Cultura na vida do cidadão. Tenho confiança e certeza disso, assim como tenho certeza de que esse orçamento vai ser revisto à medida em que as contas do Estado sejam equacionadas, sejam melhoradas, sejam corrigidas. Hoje, nós temos problemas muito graves na área da Saúde, da Educação e da Segura Pública. Elas são prioridades e eu entendo. 

MidiaNews - Diante disso, qual o foco prioritário?

Leandro Carvalho - Estamos em um primeiro momento, focando a energia em uma reestruturação interna, na fusão das pastas, de transferir a secretaria para um novo local, como vai funcionar com todo mundo até porque não cabe todo mundo nem aqui e nem no Esportes. Vamos para um local maior onde a secretaria podem funcionar como uma unidade, definir programas e, no primeiro momento, buscar parcerias. As mais diversas instituições se afastaram do Governo e nós estamos buscando uma reaproximação. Buscaremos parceirias com o Sebrae, a Fiemt, o Sesi, enfim, com parcerias temos um potencial de crescimento, de geração de oportunidades. Outra prioridade é buscarmos recursos provenientes dos mais diversos ministérios, especialmente o Ministério da Cultura, que estão disponíveis ali, esperando a contrapartida. Então, existem inúmeros caminhos que você pode triplicar o recurso que você tem direcionando esses recursos para as contrapartidas dos programas federais. Isso é  uma prioridade neste momento de escassez de recursos. 

MidiaNews - A secretaria possui equipe capacitada para a elaboração desses projetos?

Leandro Carvalho - Hoje, não. Eu ainda estou formando as equipes e até formá-las, recompor os quadros, isso não é de um dia para o outro. É difícil agora? É. Mas nós estamos começando a construir uma secretaria para o futuro. Faz parte da filosofia do atual governo a valorização do servidor. Aqui tinha muitos servidores efetivos capacitados que estavam subaproveitados. Temos um historiador, com mestrado, aqui na biblioteca, fazendo cópias de documentos, por exemplo. Então, essa recomposição e quadro está sendo feita com muito cuidado, buscando os melhores quadros, das mais diversas secretarias, os servidores efetivos que tem alguma ligação coma cultura, que tem algum expertise, algum conhecimento que possa contribuir, porque são esses servidores que vão permanecer. Então, a ideia é construção, é de um novo momento de transformação. Recompor os quadros, trazer todo mundo para uma filosofia nova de trabalho.

MidiaNews - É possível colocar a Cultura como uma ferramenta de fomento da inclusão social?

Leandro Carvalho - A Cultura tem uma capacidade de transversalidade que deve ser muito explorada neste governo. A cultura está em tudo, e está em todos. Nós podemos construir diversas parcerias e programas em várias áreas do governo. A Cultura ela é um setor da economia onde existe trabalho, renda e emprego, a  carteira assinada. Nós estamos falando de uma cadeia muito ampla que inclui gastronomia, design e todas as manifestações possíveis. Em 2004, por exemplo, no curto período em que trabalhei no Fórum Cultura Brasil Central, que reuniu as secretarias do Centro-Oeste e Tocantins, nós tivemos um estande na maior feira de indústria fonográfica do mundo, o Midem, que acontece em Cannes, no Sul da França. Fizemos uma série de ferramentas de promoção dos artistas, dos músicos, dos grupos, das mais diversas manifestações musicais desses Estados. Materiais promocionais e folhetos, muito na lógica de grandes feiras dos mais diversos segmentos. No primeiro dia, estava lá o Ministro da Indústria e Comércio do Reino Unido. A indústria fonográfica do Reino Unido gera muitos empregos, renda e tributos que leva a cultura britânica para todo mundo. Você tem o lado material, efetivo, esse da indústria, e um lado intangível do significado simbólico que faz parte da nossa vida. E fica até difícil calcular o impacto financeiro e econômico que isso tem. 

MidiaNews - Trazendo esse exemplo para Mato Grosso, essa lógica da Cultura agregando valor a outras cadeias, como a indústria, é praticamente incipiente. 

Leandro Carvalho - Sim. Mas eu já venho conversando, por exemplo, com o secretário de Desenvolvimento Econômico, Seneri Paludo. Nós temos vários projetos e programas, especialmente voltados à economia criativa. Aqui na secretaria tem uma semente do MT Criativo, com um núcleo de atividades voltadas para o fortalecimento da economia da Cultura, e nós queremos ampliar isso, investir não só pelo viés da capacitação de gestores e produtores, mas como fomento, dentro de política específica, para determinados segmentos. Por exemplo, o design, a gastronomia e tantos outros que tenham a interface com o Turismo. Então, a Cultura faz parte da vida das pessoas de uma forma tão abrangente que é até difícil separar. As pessoas acabam tentando rotular, e acaba simplificando o conceito de Cultura como manifestações populares e festas tradicionais. O fortalecimento da Secretaria de Cultura, como fomentadora dos mais diferentes segmentos, naturalmente vai trazer uma nova visão. Imagina, se nós pensarmos em todo esse patrimônio histórico material, mas ainda existe o imaterial. Os nossos valores, conceitos, escritores, grandes poetas, os músicos, compositores, os mestres da cultura popular. Tudo isso é de uma riqueza tão grande que faz com que nós tenhamos um sentimento de pertencimento - e a noção do que é ser mato-grossense e brasileiro. Você se define pela sua Cultura, então, para pra pensar a importância que tem isso na construção da nossa identidade como individuo. Você sai daqui e vai para outro lugar e aí perguntam sobre quem você é. O que tem no seu Estado? Quem vocês são? O que vocês comem? Sabe, é um negócio muito sério e profundo. Então, a secretaria tem que voltar a ter um vigor, uma presença central na política pública do Estado; e eu sinto que o governador tem esse objetivo. Ele tem essa visão da Cultura como uma força estratégica no Estado para construção de novas políticas. 

MidiaNews - Ainda falando sobre Cultura como economia, vários artistas receberam dinheiro da secretaria, nos últimos anos, para realizar seus projetos e ainda não prestaram contas. O senhor já notificou essas pessoas?

Leandro Carvalho - Sim. Os processos estão correndo. Nós determinamos o encaminhamento de mais de 200 projetos que não prestaram contas. São processos de 1999 até 2006. Nós entramos em contrato com todos os proponentes. Mais uma vez, pedimos que eles viessem à secretaria para tomar conhecimento do procedimento de prestação de contas. Nos próximos dias, vamos publicar a lista dos nomes daqueles que não prestaram contas para convidar as pessoas a se regularizarem, porque queremos que as pessoas fiquem habilitadas e não se inviabilizem. Queremos que os produtores estejam em dia com a secretaria para que possam continuar trabalhando. Assim, vamos encaminhar todos esses processos à Controladoria Geral do Estado para que as providências sejam tomadas.

MidiaNews - Essa falta de efetividade na prestação de contas por parte dos beneficiados revela, também, a maneira pelo qual a Cultura estava sendo tratada? 

Leandro Carvalho - As pessoas precisam ter a consciência da responsabilidade que é trabalhar com a cultura, com recursos públicos. Precisam entender que há regras a ser cumpridas. É preciso a mudança de mentalidade. Por outro lado, a secretaria precisa dar suporte técnico para que as pessoas executem os procedimentos necessários. Muitas vezes não existe má fé, existe desconhecimento. Há artistas de muito valor que não têm a prática de executar um projeto e, por esse desconhecimento e por não ter a dimensão das consequências, que ele pode ter por aplicar mal os recursos, acaba criando essa situação que vivemos hoje.

MidiaNews - São quantos inadimplentes, atualmente? 

Leandro Carvalho - Hoje, são quase mil proponentes inabilitados, que prestaram contas, mas que ainda têm alguma pendência, e 264 projetos sem prestação de contas. Daqui pra frente, não queremos que isso aconteça mais. Que a pessoa receba o recurso e tenha condições de executar da melhor forma possível, tanto do ponto de vista jurídico como de conteúdo. 

MidiaNews - Como está a situação do secretário de Estado de Cidades, Eduardo Chilleto, e da secretária adjunta da Casa Civil, Paola Reis, que receberam verbas da Cultura, mas não prestaram contas?

Leandro Carvalho - O secretário Chiletto já apresentou a documentação, que foi encaminhada para o Conselho Estadual de Cultura. Já o projeto da secretária Paolla não estava mais aqui, na secretaria. Ele estava no âmbito do Tribunal de Contas do Estado. Então, saiu da nossa esfera. 

MidiaNews - Atualmente, o senhor concorda que um cidadão que mora na periferia da Capital, ou em uma cidade do Interior, está totalmente excluído das políticas públicas de Cultura, como em relação ao acesso a essas verbas do Fundo de Fomento? 

Leandro Carvalho - Na gestão, vamos usar o princípio da democratização de todas as ações. Então, para tudo o que fizermos, será pensando no Estado. Como? Prevendo desde já uma distribuição mais equânime de recursos aos municípios, e estimulando-os e convidando-os a participar das ações. E a participação vai acontecer naturalmente. Como o tempo é curto e os recursos são poucos, temos que, desde já, colocar na agenda e nos preocupar, por exemplo, com a renovação do acervo das bibliotecas municipais – como a Cáceres, que está em fase de conclusão de reforma, em parceria com o Iphan. Todos os municípios têm ações que devem estar na nossa agenda. Além disso, buscar o aperfeiçoamento de mecanismos que deem maior capilaridade na distribuição dos recursos. Temos que seguir um sistema que é o Plano Estadual de Cultura e estimular os municípios a criarem os seus próprios sistemas. Muitos não têm nem secretaria de Cultura. Rondonópolis criou sua secretaria há apenas dois anos. Em resumo, teremos uma postura de manter as portas abertas para os gestores municipais e precisamos ser criativos na distribuição dos recursos, organizando, por exemplo, ações que abarquem toda uma região. Logo a sociedade vai começar a perceber, na prática, que a democratização e a descentralização das ações são filosofias da nossa gestão. 

MidiaNews -  Um dos símbolos da Cultura em Cuiabá, o Cine Teatro, está fechado. O que está acontecendo? 

Leandro Carvalho - Nós suspendemos o edital que escolherá a empresa para gerenciar o Cine Teatro por consideramos que ele era inadequado, no valor, na proposta, na contrapartida... Tudo estava inadequado. Isso não é uma opinião só da secretaria, mas também dos gestores do teatro que lutaram e investiram recursos próprios nos últimos anos. Eu sempre fui, e continuo sendo, usuário do teatro. Então, sei quais eram as agruras e dificuldades. O local ficará fechado até a revisão desse chamamento público. Acredito que até o final do mês de fevereiro consigamos concluir o edital e convidar instituições do terceiro setor para apresentarem propostas. Se lançarmos no final de fevereiro, acredito que em abril o Cine Teatro já esteja aberto novamente.

MidiaNews - Qual a postura do senhor em relação à polêmica envolvendo grafiteiros de Cuiabá, que usaram espaços públicos sem autorização, conforme prevê a lei?

Leandro Carvalho - Em primeiro lugar, precisamos entender que o grafite é uma arte. Em inúmeras cidades do mundo essa arte é difundida, há grafites espetaculares, que preenchem os mais diversos espaços vazios da paisagem urbana. Em Cuiabá, isso não é novidade. Já houve, em outros momentos, ações mais ou menos organizadas no sentido de agregar valor ao patrimônio público. Mas, como secretário, eu devo dizer que é preciso respeitar as leis, ninguém pode querer estar acima das leis. Por isso, estamos criando um programa de fomento ao grafite e às artes urbanas. Basicamente, nós vamos acolher projetos artísticos – e se eles vierem com as autorizações municipais, tanto melhor -, que serão avaliados por uma câmara temática especializada em grafite. Nós vamos, inclusive, buscar as autorizações, dar apoio jurídico, para que tudo seja feito do jeito que tem que ser. Não se trata de “enquadrar” o artista, pelo contrário, é uma forma de estimulá-lo e de estar junto com ele, de dialogar e construir junto uma forma de ele expressar sua arte.

MidiaNews - Em sua opinião, a ação dos grafiteiros na trincheira Jurumirim, em Cuiabá, foi inadequada?

Leandro Carvalho - Sim, porque fugiu do princípio de obediência às leis. Eu entendi o protesto, e entendo também que a arte – e o grafite em especial - tem um papel provocador. Sempre haverá um grafiteiro, um pichador, "fora da lei", pois se trata de uma arte subversiva por natureza. Então, o como artista que sou, tenho uma identificação muito grande com essa função provocadora da arte. Eu sei qual o sentimento do artista que se sente excluído, que lança mão das ferramentas mais diversas para "existir"; e a pichação pode ser isso, uma maneira de dizer “eu existe, eu sou cidadão”. Então, isso sempre vai existir, faz parte. E nós não podemos achar que vamos mudar essa realidade em uma semana. Eu fiquei feliz porque não houve nenhum incidente grave, nenhuma violência. Mas, do ponto de vista oficial, eu não posso concordar com a quebra da lei. 

MidiaNews - Uma outra questão que gerou polêmica foi a fusão das pastas de Cultura e de Esportes e Lazer. Como o senhor está lidando com isso?

Leandro Carvalho - Estamos trabalhando para que nenhuma dessas áreas tenha prejuízo com a fusão. Porque existe, realmente, um ganho, uma economia de recursos administrativos. Com um bom núcleo sistêmico, você pode atender tranquilamente as duas pastas. Isso gera economia. Os recursos destinados a cada área estão mantidos. E eu tenho o privilégio de ter como secretário adjunto de Esportes, e como gestor, uma pessoa reconhecida internacionalmente, que é o Pedro Sinohara. Ele tem um currículo admirável e domina a área, sabe do que o Esporte precisa. Nós já traçamos um Plano de Metas. Já temos definida, por exemplo, a revisão do Bolsa-Atleta. Já encaminhamos para a Controladoria Geral as informações sobre os últimos três anos da bolsa, que não foram pagos. Nós vamos aguardar um parecer para saber o que fazer em relação a isso, mas já estamos trabalhando em uma reformulação do Bolsa-Atleta. 

Também já cumprimos nossa primeira meta na área de Esportes ao assinar um termo de cooperação com a Secretaria de Educação para a realização de um grande Jogos Estudantis. E já realizamos dois grandes eventos esportivos neste mês de janeiro. Um deles foi o torneio de vôlei feminino, com os maiores nomes do vôlei brasileiro, inclusive com a vinda do técnico Bernadinho, da Seleção Brasileira, e a Corrida de Reis, uma corrida de rua reconhecida em todo o Brasil. E agora somos parceiros no Campeonato Sul-americano de Beisebol. 

MidiaNews - E em relação ao futebol? Era comum a Secretaria colaborar com recursos para os times.

Leandro Carvalho - Isso está sendo revisto. Vários contratos, convênios, programas e acordos estão sendo revistos. Nós temos participado de reuniões que envolvem a Arena Pantanal, apesar da Arena estar no âmbito do Gabinete de Projetos Estratégicos. Nós tivemos a interdição do ginásio Aecim Tocantins, que já é responsabilidade da nossa pasta. Nós temos ali uma situação aonde a infraestrutura precisa ser reavaliada de modo a termos certeza de que não há nenhum risco, e o ginásio possa ser utilizado. Nós temos um laudo técnico apontando pela interdição, e a empresa responsável está fazendo obras de manutenção enquanto estamos providenciando um laudo técnico pericial para a realização de uma análise da infraestrutura.

MidiaNews - A Arena será administrada pela secretaria ou vai haver a concessão do estádio?

Leandro Carvalho - Nós estamos conversando. O foco foi o preparo para que os jogos de abertura do Campeonato Mato-grossense acontecessem, sendo realizadas ações emergenciais. Enquanto isso, estamos dialogando com vários profissionais especializados na área de concessão de outros estádios pelo Brasil, e estamos preparando estudos para que o governador possa tomar essa decisão de uma forma muito tranquila, para que o melhor destino seja dado a Arena. O fato é que a Arena tem um custo muito elevado de manutenção e o Estado não tem capacidade de administrar uma estrutura daquela. O Estado pode ser parceiro, ajudar e colaborar, mas nós precisamos dar um destino com o secretário de Projetos Estratégicos. 

MidiaNews -  E sobre o setor de lazer, que faz parte da pasta e que quase nunca teve feitos concretos. Quais os planos?

Leandro Carvalho - O lazer nunca teve ações efetivas, mas nós queremos dar uma atenção especial ao lazer que é o ponto de intersecção da área da Cultura com o Esporte - e tem ações muito bacanas de resultado imediato para a população. Algumas ações foram esquecidas, como as ações para a melhor idade, para os cidadãos com necessidades especiais. Enfim, existem várias ações e atividades que eram sempre previstos, mas nunca realizados. A ideia é abrir o leque do esporte e do lazer. Além dos jogos que fazem parte do calendário, há eventos que ainda estamos planejando.

MidiaNews - Quais setores receberão atenção especial agora, no início da gestão?

Leandro Carvalho - Vários setores precisam dessa priorização. Temos que reformar, por exemplo, a cobertura das ruínas de Vila Bela da Santíssima Trindade. Quando chove e venta, as lâminas se soltam, a água está caindo em cima das ruínas, que estão derretendo. O patrimônio histórico está acabando. A demanda é muito grande. Para cada lugar que você olha, tem uma deficiência. É muita demanda. São bibliotecas, museus, patrimônios históricos materiais espalhados pelo Estado, e não tem recurso para atender essa demanda. Nós vamos atrás de parceria. Tem muita coisa que vamos conseguir, eu tenho certeza, mas estamos em um cenário muito difícil. Empresários que investiam muito em Esporte e Cultura, hoje estão tirando o pé do acelerador. Eu quero deixar claro que existe toda vontade, força e articulação para realizar tudo isso.

MidiaNews - Qual a personalidade mato-grossense que, na sua opinião, é um destaque cultural, cujos feitos irão permanecer por gerações?

Leandro Carvalho - Eu acho que é a figura do Marechal Cândido Rondon. Esse foi um dos grandes mato-grossenses de todos os tempos. Quanto mais sabemos dos feitos dele, mas encantados ficamos com a grandeza. Ele é uma figura central que precisa ser trazida de modo mais efetivo à sociedade. Ele não é devidamente valorizado, justamente pelo desconhecimento que a sociedade tem do que ele fez. Nesta semana que passou, nós participamos de uma reunião no Palácio da Instrução, com vários secretários e vários representantes da sociedade para dar o pontapé inicial das atividades que vão fazer parte dos 150 anos de Rondon. Então, o governador Pedro Taques entende a importância central de Marechal Cândido Rondon na nossa cultura. E na cultura brasileira, em um âmbito muito amplo: na ciência, na cartografia, na geografia, na antropologia, na demarcação das terras brasileiras. Enfim, é extraordinária a importância que ele tem para o mundo. Tem a consciência de como ele foi reconhecido, valorizado e respeitado. Não só por ter sido indicado ao prêmio Nobel da Paz, em 1957. Nos 150 anos de nascimento dele, nossas comemorações precisam estar à altura. Então vai ser publicado um decreto, falando do Ano Rondon 2015 e uma série de ações institucionais, e a conclusão da obra do Memorial Rondon, em Mimoso, com recursos do Prodetur.

Hoje temos um governador com uma visão muito especial da Cultura, que vê a sua importância na vida dos cidadãos. E eu gostaria que este Ano de Rondon fosse o primeiro passo de uma série de atividades, e que esse momento ensejasse a criação de políticas permanentes dentro dos mais diversos âmbitos, inclusive do livro e da leitura. Essas são discussões que vamos realizar ao longo do ano.

 

 

Karine Miranda 

Da Redação

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