03/10/2015 - Silval chama delator da Arqueiro de "bandido" e "estelionatário"

Interceptações telefônicas feitas pelo Gaeco, com autorização da Justiça, revelam o descontentamento do ex-governador Silval Barbosa (PMDB) contra o empresário Paulo Lemes, delator do esquema de desvio de dinheiro público na Setas (Secretaria de Estado de Trabalho e Assistência Social), investigado pela Operação Arqueiro.

 

A operação culminou na prisão da ex-primeira-dama Roseli Barbosa, e outras três pessoas, no dia 20 de agosto passado. Todos foram soltos dias depois.

Nas conversas mantidas com familiares e amigos, obtidas com exclusividade pelo MidiaNews, Silval classificou Lemes como “marginal”, “estelionatário” e “bandido”.

 

Segundo o ex-governador, que está preso desde o dia 17 de setembro em razão de outra operação, a Sodoma, o empresário - que também é réu na Justiça - teria mentido ao Ministério Público Estadual (MPE) e feito uma “delação forçada” sobre os desvios na Setas, no intuito de preservar seus bens e não ir para a prisão.

 

Lemes é dono dos institutos que ganhou contratos por meio de fraudes na secretaria, segundo as investigações.

 

Em uma das conversas, com sua mãe, Silval disse que o MPE pressionou o empresário, falando que “se ele não jogasse a culpa em alguém, iria tomar tudo o que é dele, que ia pegar uma cadeia muito grande”.

 

“O cara faz uma delação, provavelmente deve ter feito um monte de rolo e, para se livrar, para ficar com dinheiro, para roubar, jogou a culpa nela [Roseli]. Vamos mostrar que esse rapaz está mentindo”, disse Silval.

 

Silval Barbosa voltou a atacar o delator do esquema no dia 24 de agosto, quando recebeu a ligação de um amigo - que  disse que a prisão de Roseli foi "absurda".

 

Silval xinga o delator de “bandido”, “marginal” e “estelionatário”.

 

Na mesma data, em conversa com um advogado chamado “Luis”, Silval Barbosa reiterou que a delação de Paulo Lemes teria sido "forçada", uma vez que o próprio empresário havia dito, em ocasião anterior, que Roseli Barbosa não estava envolvida com qualquer esquema.

 

 O ex-governador também reclamou da imprensa e disse que era vítima de “terrorismo”.

 

“Desde o começo do ano, todo dia falam que vão me prender. É um terrorismo que você nem imagina [...] Essa figura de delação, um criminoso, estelionário, vira vítima. Faz sacanagem, coloca nas costas de todo mundo. A Roseli mora aqui, não oferece risco nenhum, e está presa”.

 

Delator: Roseli recebeu R$ 471 mil

 

Segundo a delação premiada de Lemes, a ex-primeira-dama teria ficado com pelo menos R$ 478,1 mil em propinas. E que as fraudes em convênios foram cometidas em 2012 e 2013, por meio de contratos com o Instituto Concluir e o Instituto de Desenvolvimento Humano.

 

Ele contou ao Gaeco, no dia 29 de junho passado, que as fraudes ocorreram nos convênios dos cursos Copa em Ação Fase II, em Cuiabá e Várzea Grande; e Qualifica Mato Grosso.


Antes de fechar os contratos, Paulo Lemes relatou que era feita uma reunião, na sala de Roseli Barbosa, em que eram apresentadas as planilhas com detalhes sobre os valores que cada membro do esquema iria lucrar.

“Em todas as vezes, o Rodrigo de Marchi [assessor de Roseli, também preso pelo Gaeco] estava junto. Não andava nada lá na Setas, se Roseli Barbosa não desse um visto. Nessas oportunidades, eu apresentava para a Roseli a planilha de cada curso com os valores previstos, os cursos reais e a previsão do valor da sobra, ou seja, do lucro”, revelou o empresário.

Segundo ele, habitualmente o lucro obtido com os desvios era repartido da seguinte maneira: 40% para Roseli Barbosa, 36% para ele e os 24% restantes eram divididos entre o assessor de Roseli, Rodrigo de Marchi, e o empresário Nilson da Costa e Faria.

Das supostas fraudes descritas na delação, as com os maiores valores desviados foram as relativas aos convênios do programa de capacitação profissional “Qualifica Mato Grosso”.

Um dos convênios, fixado em R$ 5,5 milhões, na verdade teria um gasto real de R$ 3,6 milhões, gerando "lucro" de R$ 1,5 milhão aos integrantes do esquema.

Todavia, de acordo com o delator, o lucro real obtido com este convênio foi de R$ 979,9 mil.

“Esse valor foi dividido exatamente naquela proporção combinada com Roseli, ou seja, 40% para ela, correspondente a R$ 391.984,00; R$ 24% para Nilson e Rodrigo, correspondente a R$ 235.190,00 e 36% para o interrogando, correspondente a R$ 352.785,00”, relatou.

O outro convênio do programa tinha valor de R$ 3,4 milhões, sendo que o desvio acordado foi fixado em R$ 754,5 mil.

Como Paulo Lemes havia feito um empréstimo de R$ 418 mil a Silvio Araújo, então chefe de gabinete do ex-governador Silval Barbosa (PMDB), o empresário exigiu uma fatia maior do lucro.

Segundo o delator, Silvio Araújo convenceu Roseli Barbosa a abrir mão dos 40%, que corresponderia a R$ 300 mil, em favor de Paulo Lemes, no intuito de quitar o empréstimo – segundo ele usado para financiar a campanha de Lúdio Cabral à Prefeitura de Cuiabá, em 2012.

Paulo Lemes contou que a então secretária-adjunta da Setas, Vanessa Rosin Figueiredo, também participou da tratativa e, a princípio, exigiu R$ 200 mil. Ele diz que “chorou” para diminuir o valor e acertou o pagamento de R$ 50 mil.

 

 
 

Desta forma, a repartição do lucro final ficou em R$ 50 mil para Vanessa Rosin, R$ 150 mil para Silvio Araújo, R$ 30 mil a ser dividido entre Nilson e Rodrigo e R$ 474,5 mil a Paulo Lemes.

Outros R$ 50 mil seriam destinados a outra pessoa chamada “Dalva”, mas o assessor Rodrigo Marchi pediu que não dessem nada a ela e repartissem o dinheiro entre si. Com isso, foram repassados mais R$ 20 mil a Rodrigo Marchi, R$ 12 mil a Nilson faria e R$ 18 mil ao delator.

Copa em Ação

As fraudes também ocorreram, segundo Paulo Lemes, durante a execução dos convênios do programa “Copa em Ação Fase II”, que, em tese, deveria ter o intuito de capacitar e qualificar cerca de 10 mil pessoas nas áreas de turismo, hotelaria, construção civil, comércio e serviços.

Em um desses convênios realizados na Capital, ficou acertado que o lucro total obtido com as fraudes seria de R$ 50,2 mil.

Desta forma, seguindo o percentual dos acordos, R$ 20,1 mil ficaram com Roseli Barbosa - R$ 12 mil foram divididos entre Nilson Faria e Rodrigo de Marchi, e Paulo Lemes recebeu R$ 18,1 mil.

Porém, uma nova atualização dos lucros foi feita e o valor do lucro subiu para R$ 65,2 mil. Assim, a Roseli ganhou mais R$ 6 mil, Nilson e Rodrigo dividiram outros R$ 3,6 mil e Paulo Lemes abocanhou mais R$ 5,4 mil.

No “Copa em Ação” desenvolvido em Várzea Grande, o lucro foi um pouco maior, de R$ 66, 5 mil. O montante foi fatiado com R$ 26,6 mil para Roseli, R$ 15,9 mil para Nilson e Rodrigo e R$ 23,9 mil para Paulo Lemes.

Outro convênio não especificado na delação, cujo lucro foi de R$ 86 mil, seguiu o mesmo molde: R$ 34,4 mil a Roseli, R$ 20,6 mil para Nilson e Rodrigo e R$ 30,9 mil para Paulo Lemes.

Confira os valores obtidos pelos membros do esquema, segundo Paulo Lemes:

Roseli Barbosa: R$ 478,1 mil

Paulo Lemes: R$ 931,5 mil - descontado o empréstimo recebeu R$ 513,5 mil

Vanessa Rosin Figueiredo (secretária-adjunta da Setas): R$ 50 mil

Karen Rubn (advogada): R$ 26 mil

Jesus Onofre (contador): R$ 26 mil

Nilson Faria (empresário): R$ 172,4 mil

Rodrigo de Marchi (assessor de Roseli): R$ 180,4 mil

Total: R$ 1,86 milhão

 

 

 

Lucas Rodrigues 

Da Redação

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