04/05/2015 - Depressão na Terceira Idade aumenta os riscos de suicídio

04/05/2015 - Depressão na Terceira Idade aumenta os riscos de suicídio

O suposto suicídio de uma idosa de mais de 90 anos, no bairro Duque de Caxias, em Cuiabá, na semana passada, levantou a discussão sobre a depressão na Terceira Idade e as responsabilidades das famílias sobre os idosos. 

De acordo com a psicóloga Akheda Andrim, o estado depressivo é caracterizado principalmente pela melancolia, humor deprimido e apatia crônica. Isso aumenta os riscos de morte - principalmente, da prática de suicídio.

A população dessa faixa etária tem crescido consideravelmente no país, juntamente com o aumento da expectativa de vida dos brasileiros.

A depressão é a principal doença mental da Terceira Idade. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), publicados em 2009, só no Brasil existem cerca de 13 milhões de depressivos – o que indica a importância de as pessoas se alertarem para as causas e sintomas, em especial na redução considerável da qualidade de vida, o que aumenta muito os riscos de um suicídio.

De acordo com a 34º Promotoria de Justiça, com atribuições relativas à pessoa idosa e com deficiência, a responsabilidade do idoso é da família, mais precisamente dos filhos. 

No caso da configuração de abandono ou descaso, o familiar pode até ser responsabilizado criminalmente e preso, principalmente se já houver um diagnóstico médico de depressão.

Mal do século

A depressão é um dos mais importantes sintomas psicológicos que atingem as pessoas na idade adulta, não só por sua grande frequência, mas também por suas consequências sobre todo o organismo. É uma situação que pode se confundir com uma série de doenças.

De acordo com a psicóloga Akheda Andrim, o estado depressivo é caracterizado principalmente pela melancolia, humor deprimido e apatia crônica. 

Na idade adulta, o estresse é uma das principais causas da depressão. A solidão, a inatividade, as perdas de entes queridos estão entre as principais causas de depressão na Terceira Idade.

“A grande dificuldade no diagnóstico está também nos muitos fatores e doenças diversas que estão na Terceira Idade, como o Mal de Alzheimer e o Mal de Parkinson, que tem como um dos sintomas a depressão. A melhor maneira de fazer um diagnóstico correto é o atendimento multidisciplinar”, diz a profissional.

Além disso, segundo a psicóloga, a depressão também pode se manifestar através de agitação ou agressividade. A insônia é mais um importante sintoma da doença.

Conforme Akheda Andrim, o estado depressivo frequentemente é acompanhado de ansiedade e de tensão muscular, podendo ocorrer dores musculares que se situam em geral nas costas ou na nuca. 

Frequentemente, ocorrem dores de cabeça. O deprimido pode, ainda, ter tremores nas mãos, palpitações e sudorese, o que pode confundir-se com outras situações médicas.

Para Andrim, a utilização de medicamentos, em especial os de uso prolongado, como tranquilizantes, tende a estimular o aparecimento de sintomas depressivos, perda de memória e desânimo.

Apoio familiar

A solidão e a diminuição de tarefas na Terceira Idade e, principalmente, a perda de parentes próximos são consideradas os principais fatores da depressão.

Para contrapor o quadro, os profissionais alegam que o apoio familiar é a principal saída nestes casos.

Dona Lourdes Secatto, de 72 anos, é um bom exemplo desta realidade. Após 52 anos casada, ela perdeu seu marido e teve que reconfigurar a vida.

“No começo, é um baque muito forte, principalmente porque nós tínhamos uma vida muito ativa juntos, sempre saíamos para dançar, comer fora e viajar. De repente, você se depara sozinha, sem o companheiro de uma vida. As coisas ficam bem difíceis”, relata a dona de casa.

Hoje, ela mora com a filha e uma neta, mas passa a maior parte do dia sozinha. Porém, isso não é um grande problema para ela, que garante que o tempo com os familiares é muito bem aproveitado.

“Eu fico sozinha muitas horas, mas quando minha filha chega é ótimo. Fazemos muitas coisas juntas, mas eu também continuo costurando, cuidando das plantas e da casa. É muito bom me sentir útil e ativa, sou muito feliz com isso”, afirmou.

Auxílio voluntário

Além da ajuda familiar, o Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza um importante trabalho, dando apoio às pessoas que necessitam de uma palavra amiga.

De acordo com a coordenadora regional do CVV, Isaura Titon, não há um registro formal nos atendimentos justamente por conta da manutenção do sigilo, mas há uma percepção dos voluntários no aumento do número de ligações de pessoas mais velhas.

“Nós não fazemos nenhum registro, mas sabemos que a depressão está cada vez mais acometendo pessoas mais velhas. Por isso, é tão importante a atenção que nós damos”, diz a coordenadora.

Ela ainda destaca que o atendimento diferenciado da instituição zela pelo não julgamento, com apoio emocional voltado à prevenção do suicídio.

“A conversa é direcionada para a pessoa se sentir compreendida; então, a gente a ajuda. Também quero lembrar que o CVV funciona 24 horas por telefone, tem o atendimento pessoal das 08 às 18h, de segunda a sexta”, lembra Isaura.

Acolhimento e cuidados

Para aqueles idosos que realmente não têm família ou são negligenciados, o Lar dos Idosos na Capital faz um importante trabalho de acolhimento. 

A casa de repouso, mantida por parcerias e doações, admite moradores encaminhados pela Justiça.

De acordo com a diretora do lar, Ana Maria Bezerra, muitos idosos chegam ao local muito debilitados emocionalmente.

“Há cinco anos, nós tínhamos um sentimento geral de apatia na casa, e tivemos que fazer um trabalho muito forte para mudar esta realidade. Atualmente, temos 105 idosos na casa. Destes, 40 estão em tratamento constante contra doenças mentais e depressão”, conta a coordenadora.

A direção da casa implantou aulas de pintura, artesanato, horta, dança e uma infinidade de atividades para a mudança de sentimento.

“Foi um pouco difícil de fazer estes diagnóstico, porque alguns idosos têm varias doenças combinadas, mas nós conseguimos e hoje temos outra realidade”, afirma Ana Maria.

Morador da casa há 14 anos, Severino Antônio Farias, de 74 anos, chegou no lar para morar e trabalhar. Ele conta que, apesar de ter um filho que mora em Campo Grande (MS), prefere estar no Lar dos Idosos.

“Aqui eu sou muito mais feliz. Antes, ficava sozinho em casa, e eu gosto muito de conversar”, diz.

Já Pedro Muller, de 68 anos, relata que, às vezes, sente uma tristeza por estar sozinho, longe da família, mas também garante que prefere estar no Lar do que com os familiares.

“Não é muito fácil envelhecer. Antes, eu era muito independente, viajava este Brasil, mas com a idade não deu mais. Melhor do que dar trabalho para a família é estar entre amigos”, desabafa.

Após a perda de uma filha para o câncer, dona Francisca Barbosa dos Santos, 86 anos, foi morar no Lar dos Idosos, mas para ela não há problemas, e garante que ainda sabe fazer uma boa festa.

“Gosto muito de danças, costurar e conversar, então ficar aqui é muito bom para mim. Aqui tem bastante gente, não fico sozinha. Eu ainda tenho muita coisa para viver”, diz ela, com um sorriso no rosto.

Outro morador conhecido pelo bom trato e sorriso fácil é Daniel Lino da Silva, 80 anos. Ele foi acolhido há dois anos após ficar na cadeira de rodas e a família não ter estrutura para cuidar dele. A nova moradia não desanimou Daniel.

“Eu estou aqui para ficar bom logo e voltar para casa, mas não estou com pressa de ir não. Na verdade eu gosto muito daqui, tenho bons amigos”, afirma.

Em 2050, o Brasil terá 1,8 milhão de idosos

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2000, 30% dos brasileiros tinha de zero a 14 anos, e os maiores de 65 representavam 5% da população. 

Em 2050, esses dois grupos etários se igualarão: cada um deles representará 18% da população brasileira.

Tais números revelam a importância cada vez maior das políticas públicas relativas à previdência, diante do crescente número de indivíduos aposentados, em relação àqueles em atividade. 

Também se tornam cada vez mais importantes as políticas de saúde voltadas para a terceira idade: se em 2000, o Brasil tinha 1,8 milhão de pessoas com 80 anos ou mais, em 2050 esse contingente poderá ser de 13,7 milhões.

Ainda de acordo com o estudo em 2050, seremos 259,8 milhões de brasileiros e nossa expectativa de vida, ao nascer, será de 81,3 anos, a mesma dos japoneses, hoje. 

Mas o envelhecimento da população está se acentuando: em 2000, o grupo de 0 a 14 anos representava 30% da população brasileira, enquanto os maiores de 65 anos eram apenas 5%; em 2050, os dois grupos se igualarão em 18%. 

E mais: pela Revisão 2004 da Projeção de População do IBGE, em 2062, o número de brasileiros vai parar de aumentar.

 

 

Mayla Miranda 
Da Redação

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