04/07/2016 - Em 2 meses, 30 áreas são ocupadas irregularmente

04/07/2016 - Em 2 meses, 30 áreas são ocupadas irregularmente

Nos últimos dois meses cerca de 30 áreas foram ocupadas de maneira irregular em Cuiabá. Só em três destas ocupações somam-se um total de aproximadamente 600 famílias. Enquanto as pessoas que invadem as áreas alegam falta de condições de comprar a casa própria, a Prefeitura de Cuiabá afirma que essas invasões têm prejuízos ambientais e sociais para a população de forma em geral e que já está providenciando a retirada dos chamados “grileiros”.

Uma das áreas ocupadas há cerca de um mês está localizada no bairro Altos do Coxipó. Os moradores do local afirmam que existem cerca de 240 famílias instaladas na região. “Moro de aluguel, trabalho como vigia e o salário é pouco para conseguir comprar uma casa própria. Esta área está servindo como depósito de lixo e animais mortos, esconderijo de bandidos e até mesmo casos de estupros. Estamos fazendo um favor ao ocupar”, diz um dos “grileiros”, Geneci Luiz Fagundys, 52.

Sob o sol forte, ele usa uma inchada para limpar a área, onde já começou a construir um barraco, que está isolado por fitas plásticas. “Eu trabalho uma noite sim e outra não. Quando não estou aqui, meu filho cuida para mim. Ele também separou um lote para ele, pois está na mesma situação que eu”.

Também moradora da área ocupada no Altos do Coxipó, Fabiane Ataíde, 32, está afastada do trabalho após sofrer um acidente e sobrevive com um salário pago via Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). “A prefeitura e a Secretaria de Meio Ambiente já nos tiraram daqui uma vez. Mas voltamos há cerca de um mês e, desde então, nunca mais apareceram”.

Segundo Fabiane, o Executivo Municipal alegou que na região existe uma nascente e, por isso, a área não pode ser ocupada e deve ser preservada. “Nascente só se for de esgoto, porque por aqui só passam dejetos. Fora o lixo que todos os dias é jogado aqui. Antes de nos instalarmos, aqui parecia um lixão”. Atualmente, na casa improvisada, mora ela, o marido e três crianças.

Vizinha de Fabiane está a família de Joacir Maria Tavares. Ele a esposa Raquel Vieira de Lima Tavares, a filha Rayane de Lima Tavares, 12, e mais um filho, moram em uma casa construída com a ajuda de toda a família. Na acomodação, existem camas, geladeira e fogão. Para garantir o sustento da mulher e dos filhos, Joacir diz que faz de tudo um pouco. “Planto abóbora, melancia e alguns temperos verdes. Quando estão no ponto de colheita eu vendo e faço um dinheiro até legal. Mas, enquanto isso, corro atrás de alguns bicos, como carpir um quintal, fazer frete ou qualquer outra coisa que gere dinheiro. O importante é ter o que por na mesa”.

A vendedora Sol Aparecida da Cruz, 42, mora de aluguel no bairro Altos do Coxipó e viu na ocupação a oportunidade de finalmente ter a casa própria. Com a ajuda dos demais grileiros construiu um barraco em uma área de esquina. “Como trabalho o dia todo, conto com a ajuda dos meus amigos para cuidar do meu lote. Mas a nossa expectativa é que a prefeitura enxergue que a ocupação é o melhor caminho para esta área. Já limpamos tudo, tiramos várias caçambas de lixo e animais mortos daqui. E mesmo com a gente morando aqui, se não vermos, ainda existem pessoas que encostam o carro aqui e sujam tudo de novo”.

Outra área que foi ocupada irregularmente há cerca de um mês em Cuiabá está localizada no bairro Jardim das Palmeiras. Porém, no local o número de moradores é bem menor e não chega a 30 famílias. Mas, segundo os ocupantes, a região não possui dono. “Estamos com uma assessoria jurídica e já realizamos o levantamento da área. A terra não pertence nem ao Município, nem ao Estado e muito menos a um dono privado. Não somos bandidos, estamos aqui porque precisamos, mas se provarem que existe um proprietário sairemos tranquilamente”, diz o desempregado Anderson Camargo da Silva, 36.

Enquanto sua mulher trabalha, ele fica com o filho cuidando da área que foi isolada por ele e onde, futuramente, será construído o seu barraco. “Nossa situação financeira está tão complicada que não tenho nem como comprar a madeira e compensado para fazer a nossa casinha improvisada. Sai pedindo e consegui apenas algumas tábuas”, relata Anderson.

Ele explica que a invasão da área se deu após uma briga entre dois homens que se diziam proprietários da terra. “Um construiu um muro, o outro veio e derrubou. Ambos possuem uma documentação de áreas próximas a essa, mas não dessa propriamente dita. Então, fomos atrás e descobrimos que não tem dono e nos apropriamos da terra”.

Na mesma região, duas mulheres que possuem terrenos decidiram se mudar para eles, mesmo não tendo uma estrutura construída para as abrigarem. Segundo elas, as pessoas já estavam invadindo o local, achando que também não tinham donos. “Mesmo com a gente dormindo aqui, com frequência param carros e descem homens com foice e fitas, querendo entrar. A situação está fora de controle”, conta Janaina Melo, 39, uma das proprietárias dos terrenos.

Também afastada do trabalho após sofrer um acidente automobilístico, Marluce Souza, 29, juntamente com o irmão, a cunhada, sobrinhos e filhos construíram uma casa improvisada para proteger o terreno que comprou há pouco mais de dez anos. “A gente trabalha tanto para adquirir um bem e daí vem os outros querendo se apropriar ilegalmente. Vamos ficar aqui até que essa situação se resolva, não podemos correr o risco de perder nosso terreno”.

Outro lado
Secretário de Ordem Pública, Henrique Souza diz é impressionante como nos últimos dois meses houve uma explosão de ocupações irregulares na capital. “Acreditamos que esse cenário está ligado ao fato deste ser um ano eleitoral e as pessoas estarem com expectativa de conseguir o apoio de algum candidato político. Mas não permitiremos a manutenção dessas invasões e já estamos tomando as devidas providências”.

O secretário diz ainda que essas invasões são fomentadas por “grileiros profissionais”, que providenciam advogado e que têm uma estrutura administrativa toda montada para respaldar os demais invasores. “Quase sempre são pessoas de má fé, porque sequer necessitam de uma moradia. Se legalizada a área para habitação, eles vendem os terrenos”.

De acordo com Souza, já somam-se cerca de 30 ocupações irregulares em Cuiabá, sendo as maiores localizadas nos bairros Altos do Coxipó, Passaredo e Sucuri. “Já nos reunimos com a Procuradoria Geral do Município e as secretarias de Assistência Social e Meio Ambiente para traçar as ações para retirada dessas pessoas das áreas”.

 

 

Elayne Mendes, repórter de A Gazeta

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