05/05/2015 - Marãiwatsédé - Indígena explica sobre reocupação e defende indenização aos desalojados

O clima na região de Marãiwatsédé ainda está abalado devido à desintrução ocorrida em 2012, mas que teve conflitos reincidentes com a inconformidade de quem precisou deixar a terra com uma mão na frente outra atrás. Apesar da situação, a etnia Xavante, que teve suas terras de volta 40 anos depois de serem retirados da área, está feliz e recomeçando.

Quem conta é o indígena Tsumeywa Tserenhib/ro, neto do cacique Damião Paridzané, principal manifestante para ter as terras de volta. Segundo ele, o local mudou muito, mas não existe só área limpa, desmatada. “Ainda tem lugar que tem mato, alguma coisa que dá para ‘quebrar o galho’”, aponta. Além do mais, atualmente a Funai, segundo ele, providenciou projetos, alguns já em ação, com anuência do governo federal, para o reflorestamento. “É como se fosse um mundo novo, vai nascer tudo de novo, mas com a permanência dos povos tradicionais”.

Para ele, a posição do governo federal em devolver o local aos indígenas foi nada mais do que cumprir convenção 169 da OIT, que assegura direitos indígenas em âmbito internacional, e também lei aprovada ainda na gestão do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso (PSDB), na qual terras que tenham vestígios encontrados de que etnias indígenas tenham habitado no local, após comprovação por meio de estudos de antropólogos, devem ser entregues a geração existente da etnia. “Indiscutivelmente a Funai, o Ministério da Justiça, têm a obrigação de demarcar para aqueles descendentes, sem discutir. Não é deslocar de um lugar porque ele não está servindo. Aquela terra tem que ser daquele povo, isso vale para quilombola, ribeirinho, que são vistos no mundo atual como diferentes”, avalia Tsumeywa.

Ele questiona que sem a terra os indígenas não têm como viver, como garantir a existência do povo Xavante naquelas localidades. A terra garante lugar fixo para as novas gerações e não só para a atualidade. "E também ganhamos respeito nas nossas terras. Fora da aldeia nós não ganhamos respeito. Não temos autoridade que praticamos dentro do nosso território”.

Pontua que a cultura indígena também tem mudado e hoje muitos sobrevivem com trabalho junto aos não-índios. “Eu mesmo sou agente de saúde da minha aldeia e convivo com os dois lados. Trabalhando com o não-indígena e vivendo na minha aldeia. Então nós estamos nos equilibrando”, argumenta.

Segundo Tsumeywa, na aldeia não se fala português, tanto que teve dificuldade em lembrar o nome do avô na língua não Xavante. E faz questão de lembrar sobre a bravura de Damião pela luta para conseguir voltar à Marãiwatsédé. “Ele moveu tudo, é um conquistador de terras tradicionais e símbolo da luta do povo indígena Xavante especificamente. Ele é um pai, avô, tio, minha inspiração de vida tanto na paz quanto na guerra, na felicidade ou na tristeza. Um ídolo pra mim”.

Culpa de quem?

Tsumeywa Tserenhib/ro lamenta o fato de ainda sofrerem a repressão e revolta dos que habitavam na área recentemente, mas, para ele, todos os envolvidos hoje no caso de Marãiwatsédé são inocentes vivendo as consequências pela história do Brasil. “O erro não é nosso, não é dos que já moravam, o erro também não é do governo federal. O erro foi da Missão Salesiana. Foi ela que deu conhecimento para que aquelas terras fossem vendidas para multinacionais e depois devolvesse ao governo brasileiro”.

Com o auxílio de aviões da Força Aérea Brasileira (FAB), cerca de 300 índios foram levados à revelia para a Missão Salesiana São Marcos, a 400 km de Marãiwatsédé. Dessa forma, para ele, o povo que vivia lá até 2012 não teve culpa de ter comprado a terra sem saber da realidade, por isso defende, inclusive, que o governo deveria indenizá-los dentro da  capacidade do erário. “E nós também não temos culpa de a missão Salesiana ter removido nossos antepassados, esvaziado aquelas terras. Contando mentirinhas, falando coisas bonitas para os antepassados que se quer faziam noção da realidade, deslocando para outra terra”, avalia.

O contato com a etnia Xavante de Marãiwatsédé sempre foi blindado pela Funai para que a equipe do Rdnews pudesse ouvir o outro lado. Diante de evento indígena que aconteceu no Museu de Pré-história Casa Dom Bom, nesta semana, a equipe viu oportunidade de ouvir os indígenas sobre este e outros fatos, que têm colocado a relação índios e não-índios em evidência.

 

 

 

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