05/12/2012 - Arcanjo governava MT e detinha o comando de todo aparato político, afirma Julier

Titular da 1ª Vara Federal em Mato Grosso, o juiz Julier Sebastião da Silva - responsável por decretar a prisão do ex-policial João Arcanjo Ribeiro, há dez anos, quando foi deflagrada a Operação Arca de Noé - considera a ação das instituições (MPF, MPE, Sejusp etc) que atuaram no caso como um "marco histórico" na segurança pública.  Sem vacilar, Julier sustenta que, na época, o comendador era quem governava o Estado e detinha o comando de todo o aparato político mato-grossense. 

"É fato que a organização criminosa tinha toda uma ramificação entre o estado, os agentes públicos, a mídia, polícia, parlamentares e entes políticos. Nós tínhamos de fato um governador do Estado que não era o governador de direito. Quem mandava era o comendador", asseverou Julier, durante entrevista exclusiva ao Olhar Jurídico.

Ele conta que recebeu o pedido do Ministério Público Federal (MPF) para que fosse decretada a prisão preventiva do comendador no domingo anterior ao dia 5 de dezembro de 2002, quando foi deflagrada a operação. Segundo Julier, havia provas suficientes para expedição do mandado.

Após autorizar a prisão de Arcanjo, o juiz recebeu outros pedidos encaminhados tanto pela Polícia Federal, quanto pelo MPF. Ele lembra que o fato de a organização criminosa comandada pelo ex-bicheiro possuir diversas ramificações dificultava o trabalho, mas não impediu a ação. 

"Tínhamos uma organização de natureza internacional, que financiava todo o aparato político do estado e comandava esse aparato. Era comandado com o manuseio da violência. Envolvendo políticos, paraísos fiscais, bancos no exterior e sonegação fiscal", relembra.

Apesar de saber da 'força' que Arcanjo possuía em Mato Grosso, Julier afirmou que em nenhum momento se deixou intimidar. "Juiz é para decidir", sentencia. 

O magistrado era responsável por todos os processos quando a operação foi deflagrada, mas após os trabalhos iniciais sob sua responsabilidade ficaram apenas os crimes financeiros, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Os demais foram remetidos a 2ª e 3ª Vara Federal.

Apesar de todas os cuidados e sigilos, a operação vazou e Arcanjo fugiu. Foragido, o comendador foi preso em 2003 no Uruguai pela Interpol e, no mesmo ano ,Julier Sebastião prolatou sentença nos processos que ficaram na 1ª Vara. Na esfera da Justiça Federal, o juiz esclarece ainda que dez anos depois não há mais processos envolvendo o ex-policial na primeira e segunda instância, apenas recursos no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e Supremo Tribunal Federal (STF).

Questionado sobre uma possível atuação do comendador mesmo estando preso há 9 anos - atualmente no Presídio Federal de Mato Grosso do Sul - Julier é taxativo: "Existe uma realidade concreta, o estado é outro diferente do que existia há 10 anos".

"Foi uma mudança significativa na história do Estado e na segurança pública uma das maiores revoluções. Hoje a população de Mato Grosso goza de uma liberdade que não existia. O que você tinha há 10 anos eram corpos espalhados pelo chão a luz do dia ou a noite. Esse cenário não existe mais", pondera.

 

Da Redação - Julia Munhoz