06/03/2015 - Médium vem a Cuiabá e mobiliza centenas de pessoas que buscam contato com espíritos

06/03/2015 - Médium vem a Cuiabá e mobiliza centenas de pessoas que buscam contato com espíritos

Sueli Figueiredo tem 53 anos e só deu a luz a dois filhos. Os dois estão mortos. O primogênito faleceu aos 31anos vítima de um problema cardíaco e a caçula foi envenenada pelo companheiro aos 29. Mas não é com tristeza que ela se lembra das perdas ao conversar com Olhar Direto, na tarde desta quinta-feira (5), em uma sala do Centro Espírita Irmã Carmelita de Jesus, localizado na periferia de Cuiabá. Seus olhos transbordam esperança. Ela está na fila para tentar receber uma mensagem psicografada pelo médium Alaor Borges Júnior, que está na capital desde quarta-feira (4) atendendo pessoas que acreditam em vida após a morte e querem um contato com entes que já partiram. Na sexta-feira (6), Alaor continuará o trabalho no Centro Espírita Wantuil de Freitas. 

Este será o segundo contato de Sueli com seus filhos, caso consiga receber as mensagens. Foi o próprio Alaor Borges que intermediou a primeira carta, psicografada em uma visita feita a Cuiabá em 2013. “Quando eu recebi e li, eu não consegui nem dormir. Eu dormia acordava, ia na cozinha, bebia água, lia de novo e de novo e de novo... foi uma emoção muito grande e me ajudou muito como aceitação”, lembra a estudante da doutrina kardecista. “Estou na expectativa, é uma fé muito grande. É uma fé inabalável. Eu não acredito que nós morremos, após passar todo esse tempo aqui, e simplesmente acabou”, declara, já com sua senha na mão. Foram distribuídas 150 fichas numeradas para aqueles que esperam contato com os mortos. Cada um pode fazer dois pedidos.



Sueli Figueiredo perdeu os dois filhos, mas conseguiu contato por meio de carta psicografada. Foto: Olhar Direto

O próprio médium é quem explica que, apesar da grande lista de pedidos, a média de cartas psicografadas neste tipo de situação orbita entre cinco e sete por dia. Semelhante, segundo ele, aos números de Chico Xavier, o mais célebre médium brasileiro, falecido em 2002. Mas sua mediunidade é diferente. “Existe a mediunidade de caráter missionário, que a gente coloca alguns, entre eles Chico Xavier, mas existe essa mediunidade de resgate, mediunidade de prova, que é a maioria que os médiuns têm e eu me incluo ai”.

Alaor explica que existem diferentes tipos de psicografia. Uma delas é a “mecânica”, quando o espírito se “apossa” do braço do médium por inteiro e o receptor geralmente não tem consciência do que ele está escrevendo. Na “semi-mecânica”, o médium participa de ambos os estados. Ele sente que metade do braço sofre uma certa impulsão e geralmente vai tomando consciência do que está escrevendo. Tem ainda os chamados intuitivos, que ouvem os pensamentos dos espíritos e transcrevem para a folha e os inspirados, que escrevem bem devagar, captam imagens e vão colocando descrições no papel.

Desde a fase da incredulidade até hoje, Alaor passou por varas etapas de mediunidade. “No princípio, quando nós começamos a psicografar, nós psicografávamos e não havia a necessidade de uma pessoa para auxiliar a retirada das folhas e ela foi passando por um processo evolutivo até que hoje podemos dizer que ela é uma psicografia ‘semi-mecânica’. No momento em que estamos recebendo as páginas, temos consciência do que se está falando, do que se está escrevendo, embora existam algumas circunstancias que a gente acaba de escrever e naquele momento já vem um processo de inconsciência instantâneo. No começo quando nos tornamos espíritas, quando começamos o primeiro exercício da psicografia de maneira espontânea, nós tivemos algumas experiências de mediunidade de psicografia mecânica , mas hoje em dia predomina a semi-mecânica”, explica. “Existe um certo desgaste físico, um certo cansaço, mas bem discreto. Não é nada exaustivo não”, conta ele. 

O médium lembra que começou a sofrer as primeiras manifestações quando tinha entre 16 e 17 anos, em 1981. “Na realidade, nós não éramos espíritas, éramos católicos e um irmão meu consangüíneo teve determinados problemas de ordem mediúnica e ele começou frequentar determinada casa espírita e começou a desenvolver. Não éramos espíritas, eram incrédulos, começamos a zombar desse novo caminho que ele estava seguindo e em uma determinada noite [tive] muma manifestação, o princípio de uma manifestação mediúnica e foi ai que começou a surgir a mediunidade. A princípio surgiu a mediunidade de psicofonia, deu um tempo e ela deu uma afastada e de repente começaram a surgir vozes e depois a própria psicografia. Foi a partir desse momento, quando começamos a freqüentar uma casa espírita e começamos a estudar, começamos a trabalhar de maneira regular e até hoje não paramos com o exercício da psicografia”, narra 34 anos depois.



Para Borges, a mediunidade é um instrumento de progresso espiritual, uma ferramenta que possibilita o trabalho em prol de uma causa mais ampla, pela humanidade. E cita como exemplo os mais de 400 livros psicografados por Chico Xavier. Além disso, é um dom que ajuda no conforto de famílias com dificuldades em lidar com perdas e na orientação para um caminho de luz, em momentos conturbados. A mediunidade proporciona tudo isso e ao mesmo tempo esse consolo, esse conforto, pregando ensinamentos de que a vida continua.”, explica. “Muitas pessoas que recebem essas cartas e elas se transformam seu ponto de vista moral, de instrução, de conhecimento e elas passam a aderir ao movimento espírita, abraçam trabalhos sociais de extrema importância e passam a acreditar que a vida continua”, completa.

E foi isso o que aconteceu com Miriam Jaqueline Pereira, 35 anos. Quem a vê sorridente com o pequeno Arthur de cinco meses no colo não imagina o drama enfrentado recentemente. Ela, recém casada, perdeu sua primeira filha, Maria Valentina, no terceiro mês de vida. Sua filha nunca deixou o hospital, após uma gravidez conturbada com a descoberta de um tumor, a superação do problema, e a subseqüente informação de que a filha tinha uma doença rara.

Apesar da morte prematura, Miriam conseguiu no ano passado um contato com a filha. O intermediário também foi Alaor. “Ela faleceu em agosto de 2013 e eu recebi dia 18 de janeiro de 2014 e a carta é linda”, se emociona. A prova cabal para ela de que existe vida após a morte e que sua filha se manifestou sim por meio da mensagem, é o conteúdo da carta. “Ela na carta falava que tão breve eu receberia um irmãozinho pra ela e a dia 30 de janeiro eu engravidei de um menino”, diz. “Ai eu digo, quando as pessoas não acreditam, é só pegar aquela carta. Como não acreditar? Eu não estava grávida ainda e ela me falava com tanta segurança, mãezinha fica calma porque pais tão amorosos como você e o papai precisam transmitir esse amor”, relembra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Além disso, a carta tinha informações que só o casal que perdeu a filha dispunha. Como as conversas sobre quem pegaria o bebê e detalhes do quarto. “Por exemplo, na UTI, eu chegava e eu esquecia do meu marido e do resto do mundo. Eu ficava só abraçado com ela e ai um dia ele falou ‘deixa eu chegar um pouco perto dela’. Ai a gente chegou a desentender por conta disso. Só nós dois. Ai chegamos em casa e fomos conversar. Ele pediu para ir sozinho a noite porque ele não conseguia aproveitar ela. Ele foi dois, três dias a noite e depois eu fui com ele. Ela citou isso na carta, ‘quantas vezes vocês dois discutiram, disputando quem iria me pegar’, eram coisas que só nós dois sabíamos, era muito íntimo”, conta. “E ela era muito carinhosa e muito cuidadosa na hora de falar com a gente [na carta]”.

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