07/02/2014 - Reproduzindo mentiras

Com 30 anos de profissão, sempre atuando como repórter, nas ruas, gabinetes e nos mais diversos lugares, quero aqui compartilhar um sentimento do qual não me orgulho nem um pouco.

Estou cansada! Não de exercitar o jornalismo sob chuva ou sol, mas de reproduzir mentiras. De noticiar projetos, emendas, ações e obras que nunca passaram de promessas políticas ou mecanismos de corrupção, meios para desviar verbas públicas.

No Brasil, acredito que em outros países também, o jornalista promove e notícia iniciativas de algozes, falsos cidadãos de bem e honestos que por trás das câmeras são capazes de roubar desde a merenda das crianças das escolas até o medicamento dos doentes terminais.

O pior, entendo assim, não é noticiar algo que depois se transforma em escândalo, como o projeto “MT 100% Equipado”, a história das 700 máquinas agrícolas superfaturadas; ou a construção do Hospital Central de Cuiabá, parado há 30 anos, com registro de desvio de mais de R$ 15 milhões.

 

Não temos detector de falcatruas ou bola de cristal para ver o futuro. Pior mesmo é continuar noticiando as intermináveis apurações dos atos de corrupção, que nunca chegam ao final e raramente resultam em prisão e devolução do dinheiro roubado.

O Brasil é o 72ª colocado no ranking mundial de combate à corrupção, entre 177 países, conforme pesquisa de 2013, realizada pela ONG Transparência Internacional.

Essa classificação leva em conta o acesso à informação pública, regras de comportamentos de servidores e gestores públicos, prestação de contas dos recursos e a eficácia de órgãos.

O jornalismo social e comunitário, aquele que resulta em benefício à pessoa ou comunidade quase que imediatamente, esse sim é prazeroso. Tanto quanto contar histórias de superação de seres humanos que não apenas falam, praticam ética e preservam valores que não incluem constituir fortuna a qualquer custo, inclusive do suor alheio.

Usar nossa força de trabalho para ajudar ao próximo nos revigora, indica que devemos continuar na lida. Pelo menos é isso que acontece comigo.

Além, é claro, de exercitar a cidadania fiscalizando e denunciado os atos daqueles que se aproveitam do cargo para praticar corrupção. Pelo menos assim minimizo o sentimento de tristeza por promover, e até ajudar a plantar ‘ervas daninhas’ na administração pública.

 

 

"Pior mesmo é continuar noticiando as intermináveis apurações dos atos de corrupção, que nunca chegam ao final e raramente resultam em prisão e devolução do dinheiro roubado"

 

ALECY ALVES é jornalista em Mato Grosso

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