07/03/2015 - A crise do setor energético brasileiro e os apagões diários do Araguaia

Não há um só dia que não falte energia elétrica no Vale do Araguaia, região nordeste de Mato Grosso. Às vezes são apenas alguns instantes, outras vezes são horas. Os prejuízos são incontáveis: a comida da geladeira estraga, se perdem os ovos da chocadeira, o comércio fica paralisado e a cidade sofre para dormir, devido ao calor e aos pernilongos.

Os boatos correm rápido: “foi uma torre que caiu em Querência, foi em Nova Xavantina, foi a chuva de ontem, foi um acidente de carro que derrubou um poste na estrada… Dizem que a energia voltará às 16 horas. Não, voltará às 18h. Ih, ouvi dizer que só volta amanhã cedo. Daqui a pouquinho. Jazinho. Tem estoque de vela em casa? Acabou a pilha da lanterna. Amanhã vamos ter que assar essa carne para não perder”.

No dia 23 de fevereiro 86 mil unidades consumidoras do Araguaia ficaram sem energia elétrica, sendo que 54 mil ficaram assim durante 16 horas. Foram afetados 24 municípios: Nova Xavantina, Nova Nazaré, Alto Boa Vista, Ribeirão Cascalheira, Serra Nova Dourada, Novo Santo Antônio, Santa Cruz do Xingu, São José do Xingu, Confresa, Vila Rica, Bom Jesus do Araguaia, Luciara, São Félix do Araguaia, Canabrava do Norte, Santa Terezinha, Porto Alegre do Norte, Água Boa, Canarana, Campinápolis, Cocalinho, Gaúcha do Norte, Novo São Joaquim, Querência e Santo Antônio do Leste.

Foi então que um novo rumor começou a correr as ruas. Estaríamos nós, “doando” energia elétrica para outras regiões do país? Afinal, se falta energia em São Paulo, a revolta da população chega rapidamente à mídia, e com nós aqui nesse “fim de mundo”, quem se importa?

Confirmou-se depois que de fato quatro torres haviam caído entre Nova Xavantina e Barra do Garças. A assessoria da Energisa esclareceu que toda a região do Araguaia é atendida por uma linha de alta tensão (138 kV), com mais de mil quilômetros de extensão, contando com somente um ponto de suprimento de energia, em Ribeirãozinho.

O sistema elétrico brasileiro se caracteriza por ser extremamente extenso e praticamente todo interligado. O entrevista a revista Unisinos, Célio Bermann, doutor em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Unicamp, afirmou que “o corte no fornecimento de energia é seletivo. Cada concessionária procede ao desligamento seletivo dentro da sua área de concessão, desligando as pontas do sistema, isto é, as regiões periféricas, o que acentua o caráter da distribuição desigual de renda, pois as pontas do sistema, via-de-regra abrigam as populações de BAIXA RENDA”.

Ou seja, sim, é possível que uma região fique sem energia para que outra seja abastecida. Mas também é possível que o problema seja apenas de manutenção de sistema. “Temos um sistema energético que não investe como o desejável na manutenção. Os sucessivos ‘apagões’ que estão ocorrendo é uma evidência da manutenção inadequada do sistema”, diz Célio.

Energia para quem?

Os dados oficiais do Balanço Energético Nacional (MME, 2014) indicam que apenas cerca de 25% da energia elétrica vai para os domicílios e 50% é consumida pelo setor industrial. A metade do consumo industrial corresponde a apenas seis setores: cimento, produção de aço, alumínio (metais não-ferrosos), ferro-ligas (ramo da metalurgia), petroquímica e, por último, o setor de papel/celulose. Esse grupo é responsável pelo consumo de ¼ da energia produzida no Brasil e seu principal objetivo é produzir produtos para o mercado internacional, através da exportação com alto conteúdo energético.

Enquanto isso, a mídia tem se esforçado para responsabilizar os cidadãos. Dizem para tomar banho mais rápido, para tirar o micro-ondas da tomada, para ser rápido ao abrir a geladeira. Só não dizem para a gente deixar de assistir TV, porque o jornal nos mantém (supostamente) informados e a novela nos mantém distraídos.

Por isso, Célio Bermann diz que “quando a gente encontra dizeres de que a Usina Hidrelétrica de São Luis do Tapajós (Pará) tem capacidade de gerar energia para mais de 14 milhões de moradores, nós estamos recebendo uma informação falsa, que apenas alimenta a propaganda e a obsessão em se construir usinas hidrelétricas no país”. Esse marketing, segundo o especialista, “pega a potência instalada do projeto, faz um cálculo de quantos domicílios poderiam ser atendidos, dando a falsa ilusão de que tantos domicílios da população brasileira é que vão consumir a energia elétrica, com a falsa impressão que isso vai melhorar a qualidade de vida da população, e que isso também vai ser importante para o crescimento econômico”. Ou seja, traz ao público a necessidade da construção de mais usinas hidrelétricas.

A conta que se deveria fazer, de acordo com o especialista, é o consumo de quilowatts/hora gastos para a produção de uma tonelada de alumínio, e então compará-lo ao consumo médio dos domicílios. Ficou curioso? Chegamos ao resultado de que se a tonelada de alumínio consome 15.000-16.000 quilowatts/hora e uma família consome, em média 1.840 quilowatts/hora por ano, a produção anual de alumínio primário no país é de 24 bilhões de quilowatts/hora, equivalente ao consumo médio anual de 13 milhões de domicílios.

É evidente que não se trata de todos os brasileiros tomarem banho mais rápido. Trata-se de definir prioridades para o atendimento. O governo está priorizando o atendimento para a produção industrial eletrointensiva, com consequências desfavoráveis para a economia do país, pois se tratam de produtos de baixo valor agregado e alto conteúdo energético.

“Várias destas indústrias eletro-intensivas são de capital transnacional. Várias destas fábricas produzem, única e exclusivamente, para a venda de seus produtos no mercado externo. Isso diz respeito a algo importantíssimo, que venho chamando atenção há tempo, que é a necessidade de discutirmos política energética e política industrial, coisas, estas, que não são separadas. A forma como o governo, mas não somente o atual, todos os anteriores também, conduz a política energética é como uma caixa preta, em que a população não tem acesso aos processos decisórios, onde as decisões atendem a interesses de poucos. Via de regra as construções de grandes hidrelétricas atendem aos interesses das empreiteiras e o exemplo mais evidente deste tipo de orientação é a usina de Belo Monte”, diz Célio Bermann.

Saindo do nosso bolso

Desde janeiro está em vigor em quase todos os estados brasileiros, incluindo Mato Grosso, a bandeira tarifária vermelha, que permite o acréscimo de R$3,00 a cada 100 kWh consumidos. A tarifa brasileira já é, comparativamente a de outros países, uma das mais caras do mundo. Contraditoriamente, ¾ da energia brasileira é gerada a partir de usinas hidrelétricas, que é considerada a forma mais barata de se obter energia.

A justificativa da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) é que o volume de água nos reservatórios está menor. Para Célio Bermann “é muito fácil para um governo que tem demonstrado absoluta incompetência na gestão energética, que relegue a ‘São Pedro’ seus problemas. Isso faz com que a população acabe entendendo que são problemas da natureza, que fogem do nosso controle. É verdade que uma estiagem prolongada como essa que está acontecendo gera problemas. Embora o nível de reservatórios seja agora constantemente publicizado, as informações disponibilizadas não são possíveis de serem aferidas e confirmadas”.

Para o especialista, o cerne da questão é que temos há décadas um governo submetido aos interesses do capital internacional. “A desejável discussão do modelo nacional de desenvolvimento nunca foi feita em nosso país, nem por esses governos, nem pelos anteriores, que apenas reforçam este caráter de submissão.”.

Infelizmente, apesar da crise energética, hídrica e moral, o Brasil continua apostado na expansão dos setores eletro-intensivos. “Não adianta ficar pensando em energia eólica, energia solar, biomassa, como alternativas tecnológicas para suprir a demanda energética. Se a demanda continuar a subir da forma como está hoje estabelecida não tem jeito. Não há como, do ponto de vista tecnológico, cobrir esta demanda sem grandes blocos de produção de energia”.

A solução, conclui Célio, é redimensionar a demanda e reconsiderar nosso modo de consumo, tendo como questão de fundo o tipo de sociedade que a humanidade quer constituir e consolidar para as gerações futuras.

 

 

Vila Rica News
Lilian Brandt

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