08/07/2014 - “O Pronto-Socorro de Cuiabá é uma máquina de matar gente”

Falta de vontade política, de gestão eficiente, de medicamentos e de insumos básicos, assim como falta de médicos e estrutura decente, fazem do Pronto-Socorro de Cuiabá um local de horror. 

Essa é a opinião do médico Osvaldo César Pinto Mendes, cirurgião-pediátrico do Pronto-Socorro, que há 33 anos atua na área pública. 

"Infelizmente, o Pronto-Socorro de Cuiabá se transformou em uma máquina de matar gente. Hoje, o Pronto-socorro é uma verdadeira máquina de moer gente. Falo isso com tristeza e pesar. Infelizmente essa é a realidade", desabafou, em entrevista exclusiva ao MidiaNews.

O mais trágico, segundo ele, é que o PS da Capital é um local de referência. "Seja rico ou pobre, se o cidadão sofrer um acidente, um trauma, por exemplo, vai ser levado para lá. Sinceramente, eu nunca vi o Pronto-Socorro do jeito que está. A piora foi absurda neste anos. Isso é algo absurdo e lamentável”, reclamou.

Segundo ele, falta sensibilidade e competência do prefeito Mauro Mendes (PSB) para controlar o caos na unidade hospitalar.

"Falo sem medo de errar: todos os dias morrem pessoas no Pronto-Socorro por falta de atendimento adequado, por falta de medicamentos, por falta de profissionais. É lamentável. Aliás, o mais lamentável é vermos a inércia do poder público", disse.

Formado no Rio de Janeiro, ele relatou dois casos típicos, que exemplifica o drama e a impotência de quem depende do hospital.

"Na última quinta-feira (3), uma cirurgia de amputação de perna foi suspensa, porque não tinha a serra. A cirurgia não foi feita e colocou em risco a vida do paciente. Semana passada, uma criança com apendicite teve que esperar três dias para ser operada, por falta de médico no plantão. Aí, temos que entregar nas mãos de Deus", afirmou.

De acordo com o médico, a situação é tão "vergonhosa" que, a cada dia, tem um relação afixada na parede com um "cardápio" de medicamentos.

"Ontem, por exemplo, tínhamos a lista dos medicamentos disponíveis. Parece um cardápio. Quando chegamos para trabalhar, tem uma lista: 'hoje só temos os seguintes antibióticos'. E é assim que está a situação. Cada dia falta uma coisa", criticou

Confira os principais trechos da entrevista:

MidiaNews – Qual a realidade do Pronto-Socorro de Cuiabá?

Osvaldo –
 
É uma realidade triste. Falta tudo no Pronto-Socorro de Cuiabá. Primeiro, faltam médicos, depois, faltam medicamentos básicos, falta material para cirurgias, falta anestesia, falta estrutura. Não há leitos. Vivemos de macas. Parece um campo de batalha, uma cena de guerra. Por isso, nós, médicos, chamamos o PS de Haiti. A única coisa que a Prefeitura de Cuiabá tem feito é comprar macas, macas e mais macas. 

MidiaNews – E, obviamente, o atendimento é precário.

Osvaldo – Precário é que leva à morte. Na última quinta-feira, fui fazer uma traqueostomia em uma criança. Foi um horror. Não tinha material básico, uma vergonha. Teve outro menino que chegou no PS na sexta-feira (27), com uma apendicite que já tinha três dias. E ele teve esperar o meu plantão, na segunda-feira seguinte, para poder fazer a cirurgia, porque não tinha médico disponível nos dias anteriores. Quando foi para a mesa de operação, já estava em uma fase purulenta. E e a criança está lá até hoje. O detalhe é que apendicite é uma doença que, se você faz um diagnóstico precoce, e a cirurgia em seguida, as complicações são menores. Assim como a alta médica é rápida, os gastos são menores e a recuperação é melhor. Já teve um caso de uma criança baleada que chegou para ser atendida e não tinha anestésico. É uma coisa tão simples e básica, mas que falta no PS.

MidiaNews – No caso da traqueostomia, o que estava faltando? 

Osvaldo –
 Não tinha material instrumental cirúrgico adequado, anestésico, aplicativo para monitorar o batimento da criança. São coisas básicas. Daí a gente tem que ‘se virar nos trinta’. Tem que entregar para Deus, deixar nas mãos de Deus... Não tem jeito de atuar sem material, porque se você improvisar, está colocando a vida em risco. Se não atuar, mesmo no improviso, coloca a vida em risco, do mesmo jeito. Ontem, por exemplo, tínhamos a lista dos medicamentos disponíveis, parecendo um cardápio. Quando chegamos lá, tinha a lista falando: “hoje só temos os seguintes antibióticos”. E é assim que está a situação. Cada dia falta uma coisa. E, aí me aparece um rapaz, da Secretaria de Saúde, dando entrevista e falando que isso é uma realidade de todo o Brasil, não só de Cuiabá. Isso não é verdade.

MidiaNews - O senhor concorda com a afirmação de que pessoas morrem no PS por falta de atendimento adequado, como denunciou um médico ao Fantástico, da Rede Globo?

Osvaldo – Com certeza. Todo dia morre gente por falta de atendimento adequado no PS de Cuiabá. Estão morrendo por falta de remédio, de estrutura, de atendimento adequado. É só você checar no Serviço de Verificação de Óbito do Estado. Você vai ver que morrem cinco, seis, sete pessoas por dia por essas razões. Fora os que morrem por causas externas, como acidentes, violência. Infelizmente, o Pronto-Socorro de Cuiabá se transformou em uma máquina de matar gente. Hoje, o Pronto-socorro é uma verdadeira máquina de moer gente. Falo isso com tristeza e pesar. Infelizmente essa é a realidade

MidiaNews – Quando a situação começou a ficar crítica e caótica no PS?

Osvaldo –
 A coisa já estava ruim mas, de uns quatro meses para cá, piorou muito. Eu já tinha presenciado situações graves, mas não dessa forma, como agora. Os absurdos se tornaram comuns. Para você ter uma noção, há um risco muito grande, hoje, de pacientes estarem recebendo medicações erradas. Os técnicos de enfermagem fazem a medicação, mas as macas não têm numeração. Geralmente, o medicamento tem que ser levado a uma maca número 3, por exemplo. Mas, que maca 3? Elas não são sequer numeradas. 

MidiaNews – Sabemos que os médicos se referem ao PS de um maneira pejorativa, por causa de situações como essa. 

Osvaldo –
 
O Pronto-Socorro de Cuiabá chamamos de “Haiti”, porque você só vê maca, gente no chão. É um absurdo. O Pronto-Socorro de Várzea Grande chamamos de “Faixa de Gaza”, porque é como se fosse uma zona de guerra.

MidiaNews – Quantos cirurgiões-pediátricos atuam hoje em Cuiabá?

Osvaldo –
  Hoje estão atuando, na rede pública e privada, 12 profissionais, dos quais cinco estão saindo. Isso é muito pouco. Sou funcionário municipal e, hoje, eu sou o único cirurgião-pediátrico do Pronto-Socorro de Cuiabá, para cobrir 24 horas. É um absurdo. Eu dou plantão na segunda-feira e na quinta-feira à noite. O resto da semana fica descoberto. Os pediatras acabaram de fazer um abaixo-assinado ao Conselho Regional de Medicina (CRM), ao secretário de Saúde e ao Sindicato dos Médicos, para que eles tomem uma providência. Hoje, se tiver alguma criança que precisar de atendimento, vai morrer, porque as pessoas que estão intervindo na cirurgia pediátrica não são qualificadas para isso. 

MidiaNews – Isso está ocorrendo desde quando?

Osvaldo –
 Pelo menos há um mês, porque o Pronto-Socorro tinha um acordo com uma empresa de cirurgia pediátrica que foi rompido porque a empresa estava há quatro meses sem receber. Eu, obviamente, não faço parte da empresa porque sou funcionário público. Agora, assinaram contrato e mandaram retomar as cirurgias, mas há um atraso constante no pagamento. Atraso esse que também existe no Pronto-Socorro de Várzea Grande, porque tem UTI lá. Outros hospitais, como Santa Rosa e Jardim Cuiabá, também não têm cirurgião pediátrico. Os únicos hospitais que tem cirurgiões pediátricos de plantão são a Santa Casa, Femina e São Matheus, sendo esses últimos privados. No caso do Pronto-Socorro de Cuiabá, antes contavam com os 12 cirurgiões pediátricos, por meio da empresa, mas agora sou só eu. As pessoas estão desistindo até desse segmento porque estão optando por coisas que os façam ganhar vida. Hoje somos praticamente só sete, porque cinco estão saindo para trabalhar em outras áreas, porque não recebem. Isso não acontece só na cirurgia pediátrica, mas nas outras especialidades também, como neurocirurgia, ortopedia, tudo.

MidiaNews – Como o senhor, que estudou e atua para salvar vidas, se sente diante de uma situação dessas?

Osvaldo –
 Sinto uma tristeza muito grande, porque eu vejo que a Saúde não tem prioridade em Cuiabá e em todo o Brasil. Eu respondo para você citando Bob Marley, de quem sou fã: “Difícil não é lutar por aquilo que se quer, mas desistir daquilo que se mais ama. Eu desisti, mas não pense que foi por não ter coragem de lutar, mas sim por não ter mais condições de sofrer”. É esse meu espírito hoje. Desisti de lutar, porque já fui subsecretário de Saúde de Cuiabá e diretor do Pronto-Socorro por duas vezes. E nunca vi o hospital desse jeito. E a coisa só está se deteriorando. E não tem justificativa para isso. Se tiver um acidente grave de trânsito, aqui em Cuiabá, vai morrer muita gente.

MidiaNews – Ao que, exatamente, o senhor atribui uma situação tão grave como a atual? 

Osvaldo –
 O prefeito Mauro Mendes, quando assumiu a prefeitura, falou que o problema era gestão. Temos falta de espaço, de serviços, de leitos. É preciso pagar, ter uma remuneração hospitalar melhor. Isso tudo passa pela gestão. Eu acho que o prefeito  está perdido na questão da saúde. Ele não sabe de muita coisa que acontece. E ele tem horror à imprensa. Quando algum veículo denuncia, ele age de imediato. Quando houve aquela denúncia no Fantástico (da Rede Globo), de que não havia plantonista na UTI, e que pessoas estão morrendo, ele foi lá no PS fazer uma reunião. Na ocasião, eu falei que ele não tinha condições de administrar aquilo ali. Ele puxou a responsabilidade para ele, mas eu expliquei que, de boa vontade, o mundo está cheio. Não é assim que as coisas funcionam. 

MidiaNews - E como funcionam?

Osvaldo - 
Eu acho que ele não admite seus erros... E isso atrapalha tudo. Ele não admite que há uma falha de gestão, e isso é concreto, está aí, na cara de todo mundo. Ele poderia escutar mais, ele está muito mal assessorado. Primeiro, que ele desfez uma coisa que a gente lutou para conseguir, que foi descentralizar a Saúde, criar um fundo municipal. Ele pegou e centralizou tudo para ele. A burocratização faz com que as licitações demorem, mas a Saúde não espera, o paciente não espera. Se você falar para mim que faltam certos medicamentos em todo o país, como disse um membro do governo essa semana, você está mentindo, porque se você for em qualquer hospital particular, vai ver que há esse medicamento, que ele diz não ter no país. O problema, também, continua sendo uma gestão eficiente. Se ninguém der uma sacudida, vai continuar morrendo gente.

MidiaNews – Depois daquela reportagem feita pelo Fantástico, melhorou alguma coisa no Pronto-Socorro de Cuiabá?

Osvaldo – 
Nada. Não mudou nada. O prefeito abriu uma sindicância, mas não sei o que foi decidido. Sei que houve uma reunião e eles fizeram uma readequação da escala, porque era um absurdo uma UTI ficar descoberta. Mas, se não der os insumos e as condições necessárias, a presença do profissional na sala de UTI não influencia em muita coisa.

MidiaNews – O senhor acredita que, com os mesmo recursos disponíveis hoje, na Secretaria de Saíde, seria possível melhorar a situação do Pronto-Socorro?

Osvaldo –
 Sim, basta ter empenho, força política e mudar essa gestão, acabar com essa centralização que a Prefeitura de Cuiabá fez. Eu já falei para o Mauro Mendes que isso era um erro. Porque você tira todo o poder de mando do secretário. Ninguém escuta, pelo jeito...

MidiaNews – Pelo andar das coisas, o que o senhor espera para o Pronto-Socorro de Cuiabá, daqui para a frente?

Osvaldo –
 Eu acho que se o prefeito Mauro Mendes não der uma sacudida, não tiver a humildade de descer do 7º andar do Palácio Alencastro, e conversar, efetivamente, com todos os médicos, os profissionais, com as pessoas, ele vai perder muito. Ele tem que escutar a voz rouca das ruas. Porque hoje, infelizmente, o Pronto-Socorro de Cuiabá é uma máquina de matar gente. Infelizmente. Eu nunca vi o Pronto-Socorro em uma situação tão drasticamente ruim, tão lamentável do jeito que está. A piora foi absurda nos últimos anos, o que é algo lamentável. Eu faço esse alerta e esse apelo: quem detém o poder nas mãos, precisa agir; agir urgentemente. Do contrário, muitos continuarão a morrer pela incompetência, pela insensibilidade e pela falta de humildade.

 

 

LISLAINE DOS ANJOS
DA REDAÇÃO

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