08/12/2012 - Choro, revolta e frustração marcam desocupação em Suiá Missu

 

Frustração, tristeza e indignação são sentimentos que se misturam no distrito de Posto da Mata, primeiro dia após o prazo para a desocupação voluntária da área de mais de 165 mil hectares remanescentes da antiga fazenda Suiá Missu, território em disputa por produtores rurais e a Funai, representando o povo Xavante.

   Algumas lideranças dos moradores não-índios da área em conflito se reuniram com o comando da operação de desintrusão - que conta com a Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Força Nacional de Segurança e Exército Brasileiro - na manhã de hoje. Enquanto isso, um grupo de produtores rurais cercava o advogado Patrick Ferreira, presidente da comissão de Direitos Humanos da OAB de Itumbiara (GO), em uma panificadora em Alto Boa Vista, em busca de respostas para muitas dúvidas.

-- Mesmo Patrick repetindo que o melhor é deixar o local, muitos não aceitam

Mesmo Patrick repetindo que o melhor é deixar o local, muitos não aceitam

   As forças policiais poderiam tomar os bens de dentro das propriedades? Os animais poderiam ser confiscados? E os veículos? Quem deseja sair deveria proceder como? E quem pretende resistir, até onde poderia ir sem ser preso ou agredido? A maioria das respostas não foi as que eles almejavam. Patrick recomendou a todos tirarem todos os bens móveis de dentro da região, para evitar perder tudo o que tinham e, aqueles com a vontade de resistir, voltar depois de terem retirados todas as coisas e fazerem um movimento pacífico.

   “Esse patrimônio pode ser usado para refazer a vida. Perder todas as coisas que se tem é um prejuízo incalculável e muitas pessoas podem não ter mais forças para se levantar. Não significa que não devam fazer um protesto, mas tirem primeiro todas as coisas porque eles (as forças policiais) têm autorização judicial para confiscar tudo, dar perdimento”, explicou o advogado, repetidas vezes, aos produtores que pareciam não querer acreditar naquelas palavras.

   O produtor Nikifor Kanugin, 48, que um pouco antes lamentava ter vendido as terras que possuía em Motividio (GO) para vir a Suiá Missu, há 10 anos, não escondia a preocupação de como tentaria salvar suas posses. “Agora me dizem que já podem tomar tudo que eu tenho, mesmo se eu estiver saindo. Como eu faço agora?”, disse, andando de um lado para o outro, repetindo para si mesmo que as terras de onde veio agora valem milhões. “Agora eu perdi tudo, tudo, tudo”.

   Outra moradora da área demorou conseguir falar, devido ao choro, e perguntar ao advogado como proceder na sua situação: As chuvas praticamente destruíram as estradas até sua terra e nenhum veículo chega ao local, impossibilitando assim a retirada dos pertences. Mais emocionada ficou ainda quando lembrou daquilo que ouviu, segundo ela, de representantes do Incra, na área.

-- Antonia Paz, moradora há 30 anos na gleba, demonstra indignação

Antonia Paz, moradora há 30 anos na gleba, demonstra indignação

   “Eles falaram que vão dar uma lona para nós. Que é pra nós pegarmos nossas próprias madeiras para fazer o cercado pros nossos bichos, pros porcos, pras galinhas. Vão oferecer um plástico e nem tem para onde mandar a gente”, afirmou Antonia Paz de Azevedo, 47, que desde 1981 possui 17 alqueires de terra na área hoje demarcada como Marãiwatsédé, onde mora com o esposo e um irmão.

   Quando já eram quase 11h e os líderes locais voltaram da reunião com as forças policiais, realizada dentro da base montado pelo Exército na Escola Agrícola de Alto Boa Vista, onde nenhum jornalista tem acesso, deu-se início a uma nova reunião, desta vez entre as lideranças dos produtores com o advogado Patrick Ferreira, na Câmara Municipal.

-- Produtores permanecem com o bloqueio da MT-242 e BR-158, como protesto

Produtores permanecem com o bloqueio da MT-242 e BR-158, como protesto

   Alguns dos líderes presentes na primeira reunião, Paulo Gonçalves, associado da Aprosum, a irmã Irene Rocha, vereadora e vice-prefeito eleita de Alto Boa Vista, que falaram com a reportagem, afirmaram ter acontecido pouco avanço nas discussões com as autoridades. Segundo Irene, o comando da operação só aceitara conversar se o bloqueio das rodovias MT-242 e BR-158 for suspenso em definitivo. O cerco chegou a ser aberto no dia anterior para passar quem já estava a mais de dois dias preso na estrada, mas foi retomado algumas horas mais tarde.

   Apesar de Patrick repetir o discurso de retirada todas as posses o mais rápido possível, a ideia não foi bem recebida pelas lideranças presentes na nova reunião, dentre elas a pastora evangélica Sandra Rocha. "Não me peça para fazer algo em que eu não acredito. Se tirarmos nossas coisas vamos entregar nossas terras. Se preciso vou deitar no chão, vou protestar. E não falo só em meu nome, muita gente lá pensa como eu e não vai tirar as coisas de lá. Se preciso vamos de novo a Brasília, vamos fazer barulho, queremos ser ouvidos”, disse.

   Sandra é reflexo dos moradores da área que mantém o bloqueio das rodovias. Passando noites em claro para permanecer a barricada, armados com sucatas de carros, os manifestantes afirmam ter investido toda vida nestas terras. Alguns deles falam em sair apenas mortos, outros, menos irritadiços, dizem que só vão resistir enquanto puder.

   Um novo protesto em Brasília também é cogitado. Enquanto isso, muitos trabalham no corte de fitas negras para serem espalhadas nos veículos e nas barricadas, símbolos do luto em que o povoado se encontra. Algumas prefeituras da região, como a de Alto Boa Vista, São Felix do Araguaia e Ribeirão Cascalheira, já entraram em clima de luto. Na sede da administração municipal de Alto Boa Vista, por exemplo, um tecido negro simboliza o pesar. Mais fácil ainda é percebê-lo no olhar dos moradores de Posto da Mata.

 

Escrito por Jardel Arruda / RDnews