10/08/2015 - LINCHAMENTO: Morte de inocente destruiu uma família

10/08/2015 - LINCHAMENTO: Morte de inocente destruiu uma família

O provérbio ‘Nada está tão ruim que não possa piorar’ pode até parecer exagerado para muitos, mas não no caso da família da dona de casa Zerlinda Maria da Silva, 64 anos.

Sem moradia e renda fixa, Zerlinda não conhece abundância, mas vivia resignadamente até uma semana atrás, quando a tragédia bateu à porta de sua casa. Ao lado do marido, seu companheiro por três décadas, estava conformada em ter o dinheiro do aluguel (R$ 200), da luz e da água todos os meses e, claro, comida no prato diariamente. Não que tivesse abandonado o sonho da casa própria.

A renda que mantinha a família, menos de um salário mínimo, vinha dos pequenos e eventuais consertos que o marido fazia em máquinas de lavar roupas no quintal de casa, na periferia de Várzea Grande.

Assistindo ao esforço do marido, ela costumava auxiliá-lo lavando os parafusos e as peças dos eletrodomésticos que chegavam à oficina improvisada.

Mas um sentimento oposto, de revolta, invadiu a mente e o coração da dona de casa desde a morte do marido, Roberto Luiz dos Santos, 58 anos, conhecido por Tarzan, no último domingo(2).

Roberto, ou Tarzan, é o homem que foi linchado, espancado até a morte, no bairro Terra Nova, em Várzea Grande. Supostamente confundido com um estuprador, ele teve a cabeça esmagada, as duas pernas e os braços quebrados, o tórax afundado, entre outros ferimentos.

“As imagens da cabeça esmagada, o rosto afundado, e braços e pernas quebrados não saem da minha cabeça. Ele estava deformado, irreconhecível. É como se eu estivesse assistindo àquela cena de horror o tempo todo”, desabafa dona Zerlinda.

Tarzan não era um homem agressivo ou criminoso procurado, garante a esposa. E mesmo que fosse não justificaria tamanha crueldade, entende a mulher.

Dona Zerlinda não acredita que ele tenha praticado qualquer crime, muito menos o de estupro. Ela diz que o defeito do marido era um só: “beber cachaça”. Bebia muito e ficava até dois dias fora de casa, principalmente nos finais de semana.

Moradora do Jardim Imperial, a dona de casa sabia que Tarzan “hospedava-se” na casa de uns amigos no bairro vizinho, mas ela preferia não ir atrás. Aguardava seu retorno em casa, sem brigas.

“É uma grande covardia. O que fizeram com ele não se faz nem com um cachorro”, desabafa. Desde o dia em que viu o marido morto dona Zerlinda não consegue dormir ou se alimentar adequadamente.

“Se pego no sono logo salto assustada, como se o corpo dele, deformado e irreconhecível, estivesse ali, na minha frente”, descreve.

Não bastasse o sofrimento da perda, da violência, ela não sabe o que vai ser da vida sem o marido provedor. Não tem conhecimento técnico para fazer o trabalho dele, o próximo aluguel está por vencer e ela está sem dinheiro para as despesas mais elementares.

Ao contrário do que se divulgou inicialmente, Tarzan não era maranhense recém-chegado a Várzea Grande em busca de emprego. É natural de Itabuna (BA) e conheceu dona Zerlinda em Cuiabá, enquanto caminhava em uma rua no bairro do Porto. Viveram juntos aqui por alguns. Depois seguiram para Manaus, capital do Estado do Amazonas, onde moraram por quase 20 anos.

De volta a Mato Grosso há quatro anos, eles passaram a morar em Várzea Grande. O casal tem dois filhos, Jaqueline, que mora em Manaus, e Jackson, em Várzea Grande.

Em tempo: a família não tinha nem dinheiro para o funeral e teve de recorrer aos serviços da prefeitura para o enterro, tanto para a cova, quanto para o caixão.

 

 

ALECY ALVES

Diário de Cuiabá

 

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