11/05/2015 - As frutas de São Félix que trazem saúde e mantém o pequeno agricultor no campo

11/05/2015 - As frutas de São Félix que trazem saúde e mantém o pequeno agricultor no campo

A iniciativa da ANSA Araguaia Polpa de Frutas, em São Félix do Araguaia no Mato Grosso, fortaleceu a agricultura familiar na região Norte Araguaia incentivando os assentados a permanecerem no campo. Seus produtos, além de gerarem renda para os agricultores, promovem o consumo de sucos de fruta natural, beneficiando a saúde de toda a população do município.

O sonho de milhares de famílias é ter um pedaço de chão. Para aqueles que já conquistaram este sonho, o desafio em uma propriedade da agricultura familiar é manter um modo de vida que alie a produção de alimentos para toda a família, o cultivo de espécies para o comércio local e a conservação do entorno natural, em contraste com a pressão econômica da monocultura, que produz riquezas a curto prazo, mas que destrói a biodiversidade e pressiona o agricultor familiar para leva-lo à cidade.

O Projeto de Assentamento Dom Pedro, em São Félix do Araguaia, a cerca de 130 km da cidade, é uma homenagem ao bispo catalão Pedro Casaldáliga, que há décadas luta em defesa dos agricultores na região Norte Araguaia. Criado em 1994, o P. A. assentou 482 famílias ligadas à terra, vindas de vários estados brasileiros em busca de lote para viver. Cada lote varia entre 55 e 70 hectares.

Passados 20 anos, muitos lotes foram vendidos ou abandonados. A rotatividade é grande e alguns pedaços estão ocupados pela terceira geração de famílias. A ANSA (Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção) estima que já houve uma diminuição de 100 famílias residentes no assentamento; e que mais de 200 tenham atividades ligadas a monoculturas, como a soja.

A monocultura de grãos, antes restrita às grandes fazendas na região Araguaia-Xingu, começou a se expandir nos assentamentos. O lobby econômico, aliado com a falta de alternativas de renda em curto prazo e com a escassez de políticas públicas voltadas à Agricultura Familiar, tem pesado na decisão dos agricultores familiares em negociarem o seu pedaço de chão para fazendeiros, mesmo que isso seja ilegal.

Com o que recebem da venda dos lotes, os antes assentados acabam indo para as cidades, aumentando os problemas sociais e de infraestrutura. Mais do que trocar o campo pela cidade, eles trocam o seu modo de vida, perdendo, mais do que a terra, a sua cultura.

Os primeiros financiamentos aos assentados eram voltados para a criação de gado, o que se mostrou insuficiente economicamente. A ANSA tem percebido essa debilidade e está trabalhando com os parceiros para diversificar as atividades nos assentamentos, entendendo que esta é uma alternativa que contribui para o assentado permanecer em sua terra.

A ideia da fábrica

No ano de 2000, a ANSA iniciou as atividades de planejamento, pesquisa e implementação de uma fábrica para o beneficiamento de frutas, que existem em abundância e de diversas variedades na região. Em 2002 a fábrica entrou em funcionamento.

Conforme nos conta o promotor de compras e de vendas, Genésio Alves, no começo a fruta mais processada era a manga, que tinha em praticamente todo quintal de casa em São Félix. “Mas quem iria comprar polpa de manga, que todo mundo tinha no quintal de casa?”, disse Genésio sobre a dificuldade em vender o produto na cidade.

Ana Lucia Silva Souza, coordenadora do Eixo SócioAmbiental da ANSA, acrescentou que a população local também tinha o costume de comer a fruta e não tomar o suco dela. “Para tomar se comprava suco em pó no mercado”, explicou. Os sucos das frutas da região não eram apreciados pela população. Era preciso incentivar o consumo para que a polpa natural conquistasse o paladar da população.

Diante dos desafios, foram tomadas algumas medidas. Uma delas foi a propaganda, com divulgação em rádio, entrega de panfletos, e a ida às escolas e eventos públicos onde o suco era preparado e entregue para que a população apreciasse. “As pessoas não gostavam porque nunca tinham experimentado”, disse Maria Aparecida Ribeiro Arruda, responsável de produção da fábrica.

A outra medida foi a produção de polpa de outras frutas, antes restrita basicamente à manga. Para isso, a ideia foi incentivar a produção de várias espécies no P. A. Dom Pedro. Em 2005, a ANSA desenvolveu um projeto chamado de Desenvolvimento Rural Sustentável (DRS), em parceria com a CPT (Comissão Pastoral da Terra), núcleo de Porto Alegre do Norte no Mato Grosso. A ANSA entrou com as mudas das árvores e irrigação; e a CPT com a formação, capacitação e acompanhamento dos assentados.

Em 2006, a fábrica já começou a receber outras frutas para a produção de polpas. Atualmente as seis mais vendidas, na ordem, é a polpa de maracujá, abacaxi, acerola, caju, cajá e murici. No ano passado, a fábrica recebeu 38 toneladas de frutas. Toda a polpa é vendida em São Félix e nas cidades vizinhas, em mercados, restaurantes, pit-dogs, escolas, creches e para a população em geral. Além de sucos, a polpa é utilizada para sorvetes, mousses e outros.

Genésio Alves diz que a fábrica tem capacidade de produzir 60 toneladas de polpa por ano. Ela operou em 2014 abaixo de sua capacidade por falta de frutas, que teve uma produção abaixo do esperado no ano passado. Um dos motivos da baixa produtividade são os incêndios, que destroem também as árvores frutíferas no assentamento. Segundo Genésio, hoje a fábrica não consegue atender a demanda de consumo da cidade e há mercado para expansão.

A fábrica Araguaia Polpa de Frutas é a única de toda a região. Nas outras cidades, a maioria da população continua tomando suco de saquinhos ou ingerindo refrigerante. A mudança de habito da população de São Félix do Araguaia trouxe benefícios para a saúde delas. “Antes de trabalhar na fábrica eu bebia muita refrigerante. Hoje só tomo suco de polpa, que é natural e muito mais saudável. Minha saúde melhorou muito depois disso”, disse Maria Aparecida.

Ana Lúcia relata que o consumo de suco natural trouxe melhorias para a saúde da população da cidade e também para os assentados. Além de produzir frutas para a fábrica, hoje as famílias dos agricultores familiares têm frutas para consumir, melhorando o seu cardápio e a sua saúde.

Mais uma alternativa

Cerca de 60 famílias de assentados do P. A. Dom Pedro vendem frutas para a fábrica atualmente. A renda média anual das famílias com as frutas varia entre dois a três mil reais. Não é o suficiente para mantê-los, mas serve como complemento. Depois que as famílias plantaram árvores frutíferas para produzir frutas, elas também se tornaram coletoras de sementes, que são entregues para a Associação Rede de Sementes do Xingu, com sede em Canarana no Mato Grosso, acrescentando mais um complemento à renda familiar.

Ana Lucia acredita que se não fosse essa iniciativa, talvez o P. A. Dom Pedro tivesse hoje 60 famílias a menos em seus lotes. A ideia é que as famílias obtenham renda em várias atividades que estejam ligadas à biodiversidade da região. A produção de frutas e sementes faz parte desse sistema chamado de ‘casadão’, onde a mesma área alia produção de frutas e sementes, agricultura para alimentação das famílias e criação de pequenos animais.

A ideia é ter mais famílias produzindo frutas e sementes no P. A. Dom Pedro e iniciar o trabalho em outros assentamentos da região. Levando em consideração que só São Félix do Araguaia tem fábrica de polpas, há um vasto mercado na região para aumentar a produção, o que beneficia a população com a melhora da alimentação, além de ajudar o assentado com alternativas de cultivo e de renda para garantir seu modo de vida e, assim, mantê-lo em seu pedaço de chão.

“A produção de frutas e de sementes traz resultados a médio e longo prazo. Esse é um desafio, plantar no presente e esperar para colher no futuro”, disse Ana Lúcia.

O ciclo se completa

As sementes são separadas da polpa na fábrica e levadas para o Viveiro Araguaia, também localizado em São Felix do Araguaia e pertencente à ANSA. Ele tem uma área de cinco hectares. Parte das sementes vira muda de árvore, que são entregues aos agricultores familiares do P. A. Dom Pedro para plantarem em seus lotes. A outra parte das sementes é entregue para a Rede de Sementes do Xingu.

Conforme o técnico do Viveiro, Jonair Souza Parente, no ano passado foram produzidas 8 mil mudas de diferentes espécies. Neste ano o local passará por uma reforma para melhorar as instalações. “Aqui o ciclo se completa. Os assentados produzem frutas que abastecem a fábrica. Nós recebemos da fábrica as sementes e o bagaço, que serve como adubo. Produzimos mudas que são doadas aos assentados para aumentar a produção de frutas”, explicou Jonair.

 

 

 

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