11/11/2014 - Dei um beijo na testa dele e disse: vai lá e destrói”, conta professor que ajudou cadeirante

Protagonista de uma das cenas mais emocionantes dos dois dias de realização das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em Cuiabá, o professor de história, Carlos Benjoino, carinhosamente chamado de ‘Bidu’ pelos alunos, afirmou que ajudar o próximo é uma missão de sua vida. No último sábado (08), ele carregou o cadeirante Carlos Eduardo Lemos para dentro da Universidade de Cuiabá (Unic) nos segundos finais para o fechamento do portão, comovendo todos os presentes. O registro rodou o País com veiculação em programas da Rede Globo como o Jornal Nacional e Encontro com Fátima Bernardes.

Em entrevista ao Olhar direto, Bidu lembrou de sua história de vida e dos auxílios que recebeu para estudar ao comentar sua ação. “Eu fui muito ajudado quando era criança, adolescente, estudei em função da ajuda de muitas pessoas, meus pais, tios, meus professores. Se eu puder ajudar um pouquinho as pessoas para que elas possam realizar os seus sonhos como eu realizei os meus vai ser sempre um prazer”, contou o professor.
 
Professor do Colégio Master, Benjoino contou que todos os anos vai para a frente da Unic dar apoio moral aos alunos que vão prestar o vestibular, só que esse ano o apoio foi além do esperado. “Todos os anos combino com os alunos de nos encontrarmos antes da prova, eu moro perto da Unic, eles vão para minha casa, nós descontraímos e vamos para a prova juntos. Esse ano eu estava lá quando rapaz chegou. Faltava pouco tempo para fechar o portão”, disse o professor.
 
Foi a namorada que mostrou a Bidu as dificuldades do cadeirante logo quando os inspetores anunciavam que faltava apenas um minuto para o fechamentos do portão. “Faltava pouco tempo, algumas pessoas estavam olhando e eu resolvi correr para ajudar ele. Disse para segurar em mim e o levei. Outra pessoa passou e catou a cadeira. O portão estava baixando, ele não conseguiria entrar e acabou dando certo. Dei um beijo na testa dele e disse: vai lá destrói”, detalhou Bidu.
 
Sem tempo para muita conversa, o professor voltou para fora da universidade e foi aplaudido pelos presentes. “Senti muita alegria em poder ajudar, quando eu passei pelo portão as pessoas começaram a aplaudir e eu fiquei com vergonha. Não precisava de aplausos, mas fiquei muito alegre dele conseguir entrar”, pontuou.
 
O professor alertou que as pessoas que fazem prova na região da Unic precisam ter cuidado redobrado com o tempo em função do grande movimento de veículos e pessoas. Ele aconselha seus alunos a estarem no local da prova às 10h, duas horas antes do previsto, porém lembrou que Cuiabá não está preparada para os grandes eventos. “A cidade não está preparada para receber grandes eventos como se vende. Tivemos problemas na Universidade Federa do Estado de Mato Grosso (UFMT), aqui e outros grandes pólos”, ressaltou.
 
Carlos Benjoino tem 31 anos, é formado e tem pós-graduação em história pela UFMT. No Master, além de história, leciona nas disciplinas de sociologia e história da arte. Natural de Chapada dos Guimarães, passou parte da infância em Rondônia, mas vive há mais de 20 anos em Cuiabá. Como professor, se destaca no relacionamento com os alunos desenvolvendo uma linguagem diferenciada de ensino.
 
Ex-vocalista de bandas de Heavy Metal, Bidu usa a música e o cinema como forma de tornar o aprendizado mais interessante aos alunos. “Faço parte da velha guarda do movimento underground, tive bandas de metal, como a Ovini, e da banda Raiva em Paz, da época do Festival Calango”, revelou.

 

Seu projeto mais recente é o Sexta Aula, voltado para os alunos. ‘Um projeto de um grupo de professores que realiza atividades um pouco não ortodoxas, relacionadas ao ambiente escolar. Fazem parte desse projeto a Banda Sexta Aula e o Sexta Aula Cast. Nossa ideia é tornar o ensino o mais natural possível. Esperamos contribuir com a formação acadêmica/pessoal (e porque não artística?) dos nossos alunos e seguidores. Afinal, sentimos muito prazer na nossa profissão e queremos compartilhar esse sentimento’, diz o site da iniciativa, no endereço eletrônico bandasextaaula.com.
 
“Somos quatro professores, todos amam a música. Fazemos versões de músicas famosas e transformamos em música de conteúdo para os alunos. Além disso disponibilizamos podcasts comentando fatos e assuntos que podem ser importantes. No site, além de vídeos e áudios, os alunos encontram as letras das músicas”, explicou Carlos Benjoino.
 
O cinema também é outro grande aliado do professor. “Criamos um Cineclube no Master fazem três, quatro anos. Toda sexta-feira os alunos vem para e escola e assistem filmes. Eu comento antes, durante e depois. Por exemplo, extraímos da Trilogia Matriz os conceitos filosóficos escondidos na trama, do filme Clube da Luta, os conselhos de psicologia. Ano que vem vamos fazer a análise filosófica e sociológica da trilogia recente dos filmes do Batman”, assinalou.

Apaixonado por percussão, Bidu ainda raliza oficinas com os alunos e já organizou grandes apresentações que contaram com a participação de até 400 alunos. 

 

 

Da Reportagem Local - Raoni Ricci