12/02/2015 - Conhecido como o bacalhau brasileiro, o Pirarucu tem potencial para ganhar o mundo

Um dos maiores peixes da bacia Amazônica, o pirarucu ganhou a fama de bacalhau brasileiro. Isso porque na região Norte a carne do peixe costuma ser vendida salgada na forma de mantas. Com lombo alto, a espécie rende postas largas e caiu no gosto de vários chefes de cozinha. Entre eles, Alex Atala, o responsável por fazer a comida brasileira conhecida mundo afora, e Ana Luiza Trajano, que usa a espécie desde a inauguração do Brasil a Gosto, restaurante que tem a proposta de resgatar e divulgar o que as regiões a brasileiras têm de melhor em termos de receitas e ingredientes.

Hoje o brasileiro encontra o pirarucu nas grandes redes de supermercados por uma faixa de R$ 50 a R$ 60 o quilo do filé. Isso só se tornou possível graças ao trabalho conjunto de uma série de parceiros: Sebrae, Embrapa, Ministério da Pesca e empresas, como a Mar & Terra, uma das maiores exportadoras de peixe do Brasil.

O gargalo da produção em cativeiro o pirarucu é a reprodução. Ele não aceita o método artificial, pelo contrário, o processo lembra o relacionamento de humanos. A fêmea escolhe o macho, forma casal e só então desova. É ele o responsável por cavar um buraco no açude, o ninho, onde a fêmea põe os ovos, que o macho cobre com os espermas. Este processo se repete umas cinco vezes.  Só então ela choca os ovos, enquanto ele vigia os arredores.

O zootecnista Thiago Testuo Ushizima, responsável pelo setor Pesquisa e Desenvolvimento da Mar & Terra, conta que no início eles separavam as fêmeas dos machos observando características externas. “Mas os peruanos em parceria com o franceses descobriram que as fêmeas do pirarucu tem um hormônio específico no sangue, a vitelogenina e assim passou a ser possível saber quem é macho e quem é a fêmea pelo exame de sangue”, diz.

A tecnologia aumenta a chance de sucesso na formação de casal, mas nem sempre a fêmea aceita o pirarucu colocado para ser parceiro. Esta peculiaridade da espécie torna o alevino caro, cerca de R$ 15 cada. Mas a complexidade da reprodução é compensada pelo ganho de peso da espécie. “Um pirarucu chega a 10, 12 quilos em um ano. Nenhum outro peixe tem uma conversão alimentar assim”, diz Ushizima.

Por acreditar no potencial da espécie, a Mar & Terra deixou os experimentos com o pirarucu no Mato Grosso do Sul e foi para Rondônia, onde o clima é mais propenso à espécie. “Se a temperatura da água baixar para menos de 20oC, o pirarucu sofre e a mortalidade aumenta”, diz  Ênio Queijada, gerente da unidade de agronegócio do Sebrae.

2012 foi o primeiro ano da empresa em Rondônia e a Mar& Terra conseguiu produzir 15 mil alevinos. Em 2013 com  a sexagem o número subiu para 70 mil e no passado chegou a 100 mil alevinos. “Nós produzimos e entregamos para os parceiros, que engordam e vendem para nós”, diz Ushizima.

A Mar & Terra tem hoje 65 produtores parceiros para quem fornece alevino, dá assistência técnica e garante a compra do peixe vivo por R$ 8,30 o quilo. O porte comercial do pirarucu de cativeiro varia entre 10 e 20 quilos, embora na natureza ele possa chegar a 200 quilos.  “Normalmente, restaurantes têm preferido peixes menores por causa da maior maciez da carne, enquanto supermercados têm procurado peixes de maior porte”, diz Newman Costa, Coordenadora Nacional de Aquicultura e Pesca do Sebrae. Pirarucu menor facilita a armazenagem, que precisa ser refrigerada. “Tamanho excessivo pode ser um empecilho à aquisição por parte dos estabelecimentos”, explica Newman.

Do Brasil para o mundo

Hoje, a Mar & Terra exporta o pirarucu para os EUA e Europa. O feito só se tornou possível por causa de um projeto piloto iniciado em Rondônia, que cadastra eletronicamente as matrizes do peixe com microchips. Antes, a exportação era proibida pelo fato do pirarucu ser considerado um peixe em extinção e estar na lista da Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies Selvagens Ameaçadas de Fauna e Flora (Cites). Agora, com o monitoramento eletrônico, é possível saber se o peixe é de captura ou de uma fazenda de cultivo. Bom para a Mar & Terra que aposta no pirarucu para competir lá fora com peixes já consagrados no mercado: o salmão do Chile e o peixe panga do Vietnã.

 

 

 

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