13/01/2016 - Brasileiros ameaçados

13/01/2016 - Brasileiros ameaçados

País cartorial que não consegue ver o cumprimento da lei além de sua execução, o Brasil promove seguidos atentados contra seu próprio povo, a exemplo do que aconteceu em dezembro de 2012 na desintrusão da fazenda Suiá-Missú, mais conhecida no Vale do Araguaia, onde se localiza, como Fazenda do Papa, o que resultou na demolição da vila Estrela do Araguaia, no cruzamento de duas rodovias federais e das benfeitorias em 155 mil hectares, para a criação da Terra Indígena Marãiwatsédé, dos xavantes.

Não se discute a legalidade do ato em Marãiwatsédé, mas é imperdoável que a União não tenha realocado os ex-posseiros, que foram abandonados à beira da estrada ou (alguns deles) levados a um assentamento do Incra que a irreverência popular apelidou de Saara, por seu solo arenoso e escassez de água.

A tragédia social que aconteceu no Araguaia se repetirá em Jarudore, distrito de Poxoréu, onde 1.800 moradores na área urbana e na zona rural ocupam, mansa e pacificamente, desde o começo da década de 1940, uma gleba de 4.791,33 hectares, legalmente dos bororos desde 18 de agosto de 1946, por força de um decreto do interventor federal Júlio Müller. A criação atendeu a pedido do Marechal Rondon, que assim criava no entorno da estação telegráfica de Jarudore – por ele construída à margem do rio Vermelho - um núcleo de suporte ao vaivém dos índios canoeiros que subiam e desciam o rio Vermelho (Poguba para eles) entre as reservas Merure e Sangradouro/Volta Grande, no cerrado da região de Barra do Garças, a Tereza Cristina e Perigara, no Pantanal. Em 20 de agosto de 1958, a cessão aos índios foi ratificada no Cartório do Registro de Imóveis de Poxoréu, com a titulação em nome da Funai.

Jarudore foi ocupada por mineiros, goianos e nordestinos na Marcha para o Oeste, do presidente Getúlio Vargas, numa época em que as únicas cidades no entorno daquele distrito eram Poxoréu e Guiratinga.

Aos poucos os bororos que viviam em Jarudore mudaram-se para outras aldeias. Em 1973, somente o “capitão” bororo Henrique e sua mulher dona Ana viviam naquela vila. Cinco anos depois seus parentes o levaram para Sangradouro/Volta Grande. Em 16 de novembro de 2000 o capitão José Luiz Quearuvare, numa coletiva em Cuiabá, bradou: “Queremos Jarudore de volta”. Começou assim a luta pela posse da terra. Em 22 de junho de 2006 a cacique Maria Aparecida Tore Ekureudo chegou às imediações da vila à frente de um grupo de índios e ocupou um sítio.

Ainda em 2006, o Ministério Público Federal e a Funai pediram a desintrusão de Jarudore. A tramitação se arrasta e a Justiça Federal em Rondonópolis deu prazo até o próximo dia 18 para que moradores em três áreas que perfazem 750 hectares deixem seus lares e as desocupem.

Sem entrar no mérito da decisão judicial e ao mesmo tempo reconhecendo que se trata de assunto polêmico, o Diário espera que Suiá-Missú não se repita em Jarudore. A União, o Estado e a prefeitura de Poxoréu não levam em conta o caos social que acontecerá se a desintrusão tiver visão monocular. Os três entes federativos precisam realocar os posseiros respeitando sua essência de comunidade.

 

 

 

Eduardo Gomes - editorial do Diário de Cuiabá

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