13/08/2015 - Incêndio avança em área Marãiwatsédé

Incêndios criminosos avançam sobre a Terra Indígena (TI) Marãiwatsédé, principalmente nas áreas próximas à sede do município de Alto Boa Vista, ameaçando o modo de vida e a integridade física dos Xavante. O fogo impacta a biodiversidade da região e põe em risco toda a população do entorno.

Desde o dia 24 de julho de 2015, equipes da Fundação Nacional do Índio (Funai) e uma brigada do Prevfogo/Ibama estavam na região apenas para proteger áreas essenciais à fundação de novas aldeias, plantios e gado para alimentação dos indígenas. Não houve combate a todos os focos por falta segurança para os servidores.

O coordenador da brigada de Bordolândia do Prevfogo, Sandro Benevides do Carmo, defende que como os incêndios são criminosos e há um forte clima de conflito na região, os brigadistas precisam de segurança policial para atuar. “Não temos poder de polícia. Houve uma orientação de Brasília para que não nos colocássemos em risco até que a Funai conseguisse apoio da polícia”, disse.

Benevides afirma, ainda, que os brigadistas não têm recursos e nem pessoal suficiente para combater o fogo, por isso estavam somente protegendo áreas indicadas pelos Xavante como estratégicas. A brigada se retirou da área na noite da ultima segunda-feira (10) e aguarda ordens para retomar os trabalhos.

Para o coordenador regional da Funai em Ribeirão Cascalheira, Alexandre Croner, a situação é grave e pede intervenção urgente. “Estão atentando contra a vida dos indígenas. Isso é caso de polícia e a impunidade só aumenta as possibilidades de outros crimes como esse”, afirma. Segundo ele, mesmo com a terra desintrusada desde janeiro de 2013, os Xavante nunca tiveram a posse total de suas terras, pois até agora as estradas que cortam a terra indígena e dão acesso aos invasores continuam abertas, principalmente a BR 158, que atravessa o território no sentido Sul-Norte. “Ainda temos um cenário de conflito muito forte na região, que precisa de atenção e apoio permanente do Estado para garantir a retomada total de Marãiwatsédé pelos indígenas”, aponta Croner.

Damião Paridzané, cacique de Marãiwatsédé, conta que os Xavante estão fazendo o combate ao fogo e a vigilância do território por conta própria, mas que, sem apoio, é impossível defender toda a área. “A gente tenta fiscalizar, mas os criminosos queimaram pontes e a gente não tem como circular dentro da terra. Estamos sozinhos. Precisamos de apoio e proteção policial. Tem que descobrir quem é o culpado. Isso é uma vergonha!”, desabafa o cacique.

Ele afirma que diariamente são encontrados rastros de motocicletas e outros indícios de circulação de invasores nas áreas de incêndio na TI, todos vindos a partir da estrada principal. “Hoje tem até caminhão com madeira que passa na nossa terra. Os bandidos aproveitam a estrada para entrar e botar fogo aqui dentro. O governo precisa terminar logo o processo de desvio da rodovia”, cobra Paridzané.

Elídio Tsõrõné, professor na aldeia Marãiwatsédé, chama atenção para o fato de incêndios criminosos serem prática recorrente no interior da terra indígena. “Desde que voltamos para o nosso território o pessoal vem e coloca fogo em nossa terra. Isso acontece todo ano. Precisamos de ajuda para parar isso”, enfatiza Tsõrõné.

A Funai deve entrar com um pedido formal junto à Polícia Federal para abertura de inquérito, solicitando a investigação e responsabilização dos mandantes e executores dos incêndios ainda nesta semana. Além disso, o órgão indigenista e os Xavante solicitam que a Polícia Rodoviária Federal (PRF) inicie uma operação de fiscalização na BR 158 para evitar a entrada de invasores. Eles apresentarão também uma denúncia ao Ministério Público Federal, no município de Barra do Garças.

Território ameaçado

Um dos maiores desafios dos Xavante, desde o seu retorno à terra ancestral, é se adaptarem a um território extremamente devastado. Neste contexto, o fogo é o fator que mais prejudica a regeneração de áreas degradadas na TI. Elídio Tsõrõné conta que os incêndios atuais consumiram áreas em que a natureza já começava a apresentar sinais de recuperação. “Algumas partes antes eram pasto, mas já tinham mudinhas crescendo, aí o fogo veio e destruiu todas as plantas novas. Vamos ter que começar tudo do zero. A gente sente muito isso”, lamenta o professor.

Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que somente entre os dias 24 de julho e 10 de agosto de 2015, período mais intenso dos incêndios criminosos, Marãiwatsédé já apresentava mais focos de calor do que em todo o ano de 2014. A TI ocupa, até o momento, o primeiro lugar no ranking nacional de queimadas em terras indígenas. 

 

Redação da Opan

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