14/09/2015 - Com emprego e estudo, fundação reintegra presos à sociedade

Um modelo aplicado pela Fundação Nova Chance (Funac), e que já existe há dois anos em Cuiabá, tem modificado o conceito e mostrado que reinserir detentos na sociedade pode custar pouco e ainda ser calcado no respeito aos direitos humanos.

O trabalho, realizado pela Funac, em parceria com a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos de Mato Grosso (Sejudh-MT), apresenta boas perspectivas, num cenário considerado quase improvável como o sistema penitenciário comum.

Essa pessoas são chamadas de “recuperandas”,  uma forma de aliviar a carga do rótulo de “presos” ou “detentos”.

Atualmente, existem 89 recuperandos em regime semiaberto e, até agora, conforme levantamento da secretaria,  nenhum reincidiu em crimes.

A presidente da Funac, Cíntia Nara, disse que o objetivo da fundação é realizar a reinserção social dos recuperandos na sociedade, para que eles consigam resgatar uma vida mais digna e mostrar que todos merecem uma segunda chance.

“A Funac é uma autarquia que trabalha com a política de reinserção social. Então, nós somos responsável por buscar vagas de trabalho, qualificação profissional, ensino formal”, explicou.

A fundação é responsável por acompanhar os detentos que participam do programa, buscando vagas de empregos e os inserindo no mercado.

A presidente explicou que todos os recuperandos que estão vinculados à fundação passam por uma observação bastante rígida e, quando selecionados, têm que se apresentarem ao juiz periodicamente.

“Desde quando eles estão cumprindo pena em regime fechado, são observados para ver se têm um bom comportamento, têm que ter cumprido um terço de sua pena. São vários critérios de escolha para que eles se habilitem à vaga. Somente quando eles saem do regime fechado e vão para o semiaberto, é que não há nenhum critério: saem da prisão com a tornozeleira e passam a morar na própria residência”, disse.

Respeito: critério fundamental

O respeito aos presos é fundamental para que eles  iniciem uma trajetória nova, que deixem o crime no passado e comecem a pensar em termos de futuro.

Eles assinam um contrato, se comprometendo a participar do programa e, no caso de um passo em falso, eles sabem que voltarão para o sistema prisional e para os problemas já conhecidos por todos: superlotações e pouquíssimas chances de retornar ao convívio social.

Por isso, segundo a presidente da Funac, os reeducandos se esforçam muito e querem ser aceitados pela população.

“Esses recuperandos são bastante engajados no trabalho e muito competentes no desenvolvimento de suas funções. Muitas vezes, os empregadores acabam contratando, como a própria Prefeitura de Cuiabá, que realizou um processo seletivo e hoje alguns recuperandos já são servidores públicos”, disse Cíntia Nara.

É o caso de Vangles Nobre Marinho, de 33 anos, que participou do processo seletivo do Palácio Alencastro e hoje trabalha como servidor da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos.

“É uma experiência de mudança de vida, porque eu comecei em uma vida errada. Fiquei 11 anos da minha vida atrás das grades e agradeço a Deus de ter encontrado a ‘Nova Chance’, que abriu as portas para eu mudar de vida. Hoje, tem um ano que estou na rua trabalhando e agradeço também à Secretaria de Serviços Urbanos por dar uma chance para os presidiários, porque eu fiz a seletiva e hoje eu sou funcionário da secretaria”, afirmou.

Vangles foi condenado há 50 anos por assalto a um banco da capital, em 2002, recorreu e a pena baixou para 32 anos.

Tendo cumprido 11 anos em regime fechado, Vangles, hoje, usa tornozeleira eletrônica e dorme em sua casa. Ele afirmou que não quer mais voltar para a vida do crime e agradece a fundação pelo voto de confiança.

O encarregado de Vangles, Benedito Vieira de Almeida, de 38 anos, diz que é uma experiência nova e que tem dado muito certo.

“Ele sempre trabalha certinho, eu o respeito e ele me respeita. Nunca tive problema, acho que todo mundo merece uma segunda chance”, afirmou.

Outro recuperando que também trabalha na Secretaria de Serviços Urbanos é David Costa Ribeiro, de 21 anos. Ele foi preso e condenado a cinco anos e nove meses por tráfico de drogas.

David também usa tornozeleira eletrônica e já cumpriu quatro anos e sete meses da sua pena e, em janeiro de 2016, estará solto definitivamente.

O recuperando também dorme em casa disse que não vê a hora de poder se reintegrar à na sociedade. Disse que pretende trabalhar e terminar os estudos.

 "Assim como todo mundo erra, eu também errei. Mas, de uma coisa eu tenho certeza e levo como aprendizado: isso não é vida para ninguém, a família da gente sofre demais. Dou graças a Deus pela ‘Nova Chance' ter entrado na minha vida porque assim a minha mãe não tem que ir me visitar em porta de cadeia”, contou David.

Tornozeleira e preconceito

Vangles e David trabalham o dia inteiro e têm até ás 20 horas para estarem em suas residências, em função dos ajustes de suas tornozeleiras eletrônica,s que emitem um sinal para detectar se realmente estão em casai.

De acordo com David, o sistema da tornozeleira é bem rígido.

“Não posso sair de casa sem autorização e nem passar das 20 horas na rua. Eu nunca pedi autorização, mas já percebi todas as vezes que dá o horário certo, ela apita. Então, é bem rígido horário, tem muita gente que pensa que não serve para nada, mas se engana porque ela está me ajudando muito a mudar de vida”, afirmou.

“A única coisa ruim da tornozeleira, para mim, é o preconceito das pessoas na rua, porque elas passam olham e acho que devem pensar: aquele ali é malandro, é preso e não tem conserto. Com o olhar, eles condenam e não dão oportunidade para gente”, disse.
pessoas

Para Vangles Marinho, a realidade não é diferente. Ele disse que as pessoas que conversam com ele não acreditam na eficácia da tornozeleira, e o preconceito ainda é muito grande.

“As pessoas dizem que não funciona, que não rastreia... Mas, eu afirmo que funciona sim: se você passar do horário, eles ligam na casa. Temos horário para tudo e, quando dá quele certo horário, você não pode mais sair de casa”, explicou.

“Eu só quero trabalhar e viver em paz, mas nós somos muito discriminados. Se eu entro em um mercado de short, as pessoas me olham torto; se ia atrás de serviço, me rejeitavam. A Polícia, quando vê a gente na rua com tornozeleira, imediatamente, nos param. Se não fossem a fundação e a secretaria, o que seria de mim? As pessoas não sabem, mas, se muita gente volta ao mundo do crime, é por falta de oportunidade. Isso é um ponto a ser melhorado porque nós já sofremos com a situação. Então, hoje, queremos paz e vida nova. Só isso”, afirmou.

Parcerias pela causa

Integrados à fundação hoje são 389 recuperandos no total. Ainda reclusos, são 300 trabalhando em “extra muros”, que saem para trabalhar usando a tornozeleira e acompanhados de um agente penitenciário. 

Esses trabalham o dia todo e voltam para dormir na penitenciária.

A presidente da Funac, Cintia Nara, disse que o acompanhamento dos reeducandos também é bem rígido.

“Nós fazemos um acompanhamento com visitas institucionais; realizamos visitas nas empresas para saber se eles não estão faltando. Caso estejam em tratamentos por abuso de drogas, nós acompanhamos; se ele está fazendo algum cursinho, nós vamos ao local para averiguar se ele está desenvolvendo bem. Realizamos visitas domiciliares para manter contatos com a família, quais são as vulnerabilidades, a fim de interceder para que eles não pratiquem nenhum crime”, explicou.

A Funac tem parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e o Serviço Nacional de Apredizagem (Senac). 

“Como muitos recuperandos não sabem ler nem escrever, então a gente faz com que ele volter a estudar, porque um pouco da qualificação para o mercado de trabalho depende de um ensino de qualidade. As secretarisa de Educação estadual e municipal estão colaborando”, disse.

Futuro

Quando se fala sobre o futuro, Vangles e David são enfáticos e dizem o que querem quando forem livres novamente.

“Nós merecemos uma oportunidade e tenho sorte de ter uma equipe muito boa para trabalhar, que me aceita. Meus encarregados são todos parceiros, sempre me ajudaram e me deram forças para eu seguir em frente,. Hoje, eu tenho uma cabeça totalmente diferente e não pretendo mais voltar atrás. É muito sofrimento ficar onze anos preso em um lugar sem a minha família, sem amigos, sem nada. Hoje eu estou bem”, contou Vangles.

“Quero vida nova, isso para mim não dá mais não. Vou terminar meus estudos e procurar um emprego. Eu sei que sou novo e tenho a vida toda pela frente", afirmou David.

 

 

Jad Laranjeira 
Da Redação

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