14/09/2015 - Especialista alerta sobre exames excessivos e medicalização

A tão elogiada capacidade da medicina de ajudar os doentes está sendo rapidamente desafiada por sua habilidade em prejudicar os saudáveis. Estamos falando de sobrediagnóstico o que representa uma ameaça significativa para a saúde humana.

Isso ocorre ao se rotular pessoas saudáveis como doentes, fazendo-as tomar medicamentos não apenas desnecessários, mas muitas vezes perigosos em vista da ausência da doença, além de desperdiçar os recursos públicos que poderiam estar sendo usados para quem realmente precisa deles.

O médico e especialista em Medicina de Família e Comunidade, Cleo Borges, da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), explica que é dentro deste contexto que surge o conceito de 'Prevenção Quaternária' (P4). Ou seja, ela deve ser entendida como um conjunto de ações que buscam identificar indivíduos em risco de intervenções e tratamentos inapropriados ou excessivos, oferecendo-lhes alternativas mais aceitáveis cientificamente e eticamente.

Outra questão que o especialista destaca é que o P4 deveria ser uma regra para todos os profissionais da área da saúde, porque ao se propor exames e procedimentos a indivíduos sem sintomas, o médico deve agir da forma mais precavida possível, com garantias suficientes de que os benefícios advindos da prática superem os riscos e eventuais consequências decorrentes dos exames sugeridos.

Por exemplo, para saber se um paciente tem câncer e qual o tipo da doença é necessário fazer esse rastreamento na etapa inicial de seu ciclo biológico, normalmente antes da manifestação dos sintomas. Como é o caso da mamografia, do exame de colo de útero, da próstata, é através destes exames populacionais que pode detectar a doença, destaca Borges.

Outro problema é na questão da medicalização de estados pré-doença e de fatores de riscos que se torna cada vez mais comum, inclusive as campanhas de metas para a hipertensão, colesterol, osteopenia (é uma condição pré-clínica que sugere a perda gradual de massa óssea que pode levar à osteoporose, esta, sim, uma doença, que compromete a resistência dos ossos e aumenta o risco de fraturas no fêmur, pulsos e coluna vertebral) e obesidade. A perspectiva de comercializar medicações já existentes para pessoas saudáveis expande enormemente o mercado dessas drogas, enquanto aumenta os custos para a sociedade e para os serviços em saúde, além de potencialmente reduzir a qualidade de vida ao converter pessoas saudáveis em doentes.

Falsas doenças

Muitos fatores estão levando ao sobrediagnóstico, por exemplo, em Mato Grosso a população é muito grande para a pouca quantidade de médicos que atendem nas unidades de saúdes.

"Os pacientes chegam aos postos de saúde e ficam horas na fila de espera para serem atendidos. Sem falar que a estrutura das unidades não ajudam no atendimento. Então muitos são encaminhados ao Pronto-Socorro da Capital e quando são atendidos os médicos solicitam um monte de exames, ou passam remédios desnecessários", lamenta Borges.

Isso significa que pessoas com riscos cada vez mais baixos estão passando a receber "etiquetas médicas permanentes" - "você sofre da doença X" - e recebendo terapias ao longo da vida que não vão beneficiar muitas delas, finalizou o especialista.

 

Soraya Medeiros, especial para o GD

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