15/10/2015 - Com medo e sem equipamentos adequados, garimpeiros e amadores correm ‘contra o tempo’;

15/10/2015 - Com medo e sem equipamentos adequados, garimpeiros e amadores correm ‘contra o tempo’;

O olhar não esconde o arrependimento e o cansaço. Se pudesse voltar no tempo, nem teria vindo. Foram 24 horas de viagem em um ônibus de Ariquemes (RO) para Pontes e Lacerda. O sitiante de 21 anos chegou apenas com a cara e a coragem em busca do sonho dourado de enriquecer no tão falado garimpo da Serra do Caldeirão, que ganhou notoriedade nos últimos dias e tem atraido pessoas de todos os Estados para o interior de Mato Grosso.

Sem equipamentos, sem conhecidos na região e sem uma estratégia para se manter no local, só lhe restou subir a serra, enfrentar quatro horas de fila para poder recolher o máximo de terra que o corpo lhe permite carregar. Desceu sob o sol de meio dia. Sem saber muito o que fazer. Precisaria de carona para cruzar os cerca de 20 km que separam a serra de Pontes e Lacerda em uma estrada de chão. Também não tinha como separar o ouro da terra. O jeito foi levar os sacos de volta no ônibus. Em casa vê o que faz. “Cheguei hoje cedo e foi isso o que consegui. Não era o que esperava. Volto mais não”, lamentou a equipe do Olhar Direto que visitou o local nesta quarta-feira, 13. 

Essa é mais uma história perdida entre os cerca de três mil corpos sem rostos que parecem trabalhar incessantemente na Serra do Caldeirão em busca de ouro. Há quem jure que viu gente enriquecer e sumir do mapa, há quem investiu pesado em equipamentos para o garimpo e quem sem o menor preparo e experiência teve de se render ao amargor da derrota.

“A corrida pelo ouro virou corrida contra o tempo”, afirma um garimpeiro frente à incerteza de até quando poderá explorar a região. A notícia do novo garimpo alertou as autoridades sobre a atividade e a colocou em xeque. O Ministério Público Federal pediu ontem na Justiça o fechamento do local. O Governo do Estado estuda a melhor saída para o problema. Na serra ou na cidade não se fala de outro assunto, com informações desencontradas e boatos de toda sorte.

Antonio Augusto de Gertrudes tem 56 anos e deixou cinco filhos e a esposa em Poconé e veio para Pontes e Lacerda tentar a sorte. “Eles entendem, é pra melhorar de vida, né?”. Chegou no sábado em um grupo de cinco amigos e ainda não encontrou nem um grama de ouro. Mas mantém a confiança, mesmo com o dinheiro já no fim. “Nossa frente de trabalho está até parada porque não temos material. Enquanto tiverem dando oportunidade de ganharmos um dinheirinho a gente vai insistindo aqui. Não ganhamos nada, não temos dinheiro nem para o café. Nós pegamos uma amizade no hotel e ela [proprietária] está segurando a barra até a gente conseguir”, revela. “Aqui é só amigo, parece que é um bando de irmão”.






















As autoridades afirmam que o número de forasteiros no garimpo ainda é muito inferior ao de moradores da cidade. Jádila da Silva Guimarães tem 19 anos e é natural de Pontes e Lacerda. Mais de 20 pessoas de sua família subiram a Serra do Caldeirão em busca de ouro. Cabe a ela trazer comida e água para a equipe. Também ajuda a tirar o “reco”, terra da escavação, que contém pequenas quantidades de ouro. “Eu estou achando uma aventura, é muito legal, mas é arriscado, tem o risco de as pessoas caírem e se machucarem. É pesado e você tem que ter um pouco de sorte também, nem toda a terra que você pega tem um pouco de ouro e a gente sofre um pouco com a poeira. Tem muito ouro, o negócio é você levar a sorte. A gente tá indo, vamos cavando, quem sabe chega lá”.

O prefeito de Pontes e Lacerda, Donizete Barbosa (PSDB), se reuniu hoje com o governador Pedro Taques em busca de uma saída política para não fechar o garimpo. O vereador Ivanildo Amaral (PSD), da base aliada, defende que o garimpo não seja interrompido. Para ele, além de fomentar economia na região, a atividade não trouxe problemas para a cidade. “Veicularam na mídia algumas fotos de mulheres dançando. Aquilo nem é daqui, assim como tem uma pedra de ouro, que na verdade é uma foto da Austrália. Houveram muitas imagens colocadas nas redes sociais que não condizem com a realidade. Tem sim mulheres trabalhando, mas cavando, lá dentro do buraco, procurando ouro”, argumenta.

 

 

 

De Pontes e Lacerda - Lucas Bólico