15/10/2016 - 'Como passei 21 dias na prisão por causa de um documento roubado'

15/10/2016 - 'Como passei 21 dias na prisão por causa de um documento roubado'

Mestre de obras há cerca de 20 anos, casado e com duas filhas, Gabriel Afonso de Araújo, 38 anos, passou 21 dias preso neste ano por roubos que diz não ter cometido. 

O suspeito autor dos crimes é um homem que usa, com algumas alterações, um documento de identidade de Araújo furtado em 1999. Entre as acusações, há pelo menos três assaltos a banco.

 

Em geral, recomenda-se a quem perca documentos pessoais que registre um boletim de ocorrência na Polícia Civil e informe os serviços de proteção ao crédito, como Serasa e SPC.

A aparente negligência de Araújo diante do extravio cobrou seu preço: o mestre de obras foi preso em 14 de setembro, por ordem da 9ª Vara Criminal de Belo Horizonte (MG), a mais de 900 km de sua casa.

Após conseguir provar que não era o criminoso procurado, deixou a Casa de Prisão Provisória de Aparecida de Goiânia (GO) no último 4 de outubro, descalço e com a mesma roupa que entrara. 

Morador de Trindade, na região metropolitana de Goiânia, ele diz ter feito promessa para esquecer o período na cadeia. "Nunca imaginei na minha vida ficar preso, porque eu nunca fiz maldade para ninguém."

Antes de cumprir a promessa, relatou à BBC Brasil como foi a experiência na prisão - e o pesadelo ainda em curso, pois ainda precisa provar definitivamente sua inocência em pelo menos quatro processos. Confira o relato:

"Mexo com construção desde que me entendo por gente. Tenho 38 anos, comecei a trabalhar com 17 anos e há 20 anos sou mestre de obras.

Fui roubado numa obra, em abril de 1999. A gente trocava de roupa no almoxarifado e deixava tudo dependurado. Três funcionários deixaram as carteiras no bolso e foram roubados. Tinha habilitação e identidade [na carteira]. Nem fiz a ocorrência.

Em 2009, estava indo para o Alphaville (condomínio em Goiânia), umas 8h. Um guarda me abordou e pediu a habilitação da moto.

Os guardas só apareceram de novo após uns 40 minutos. De repente apareceram cinco viaturas para me prender, atravessando canteiros, coisa de cinema.

Começaram a me agredir. Chorei e disse: 'moço, nunca fiz nada'. E eles dando tapas, me empurrando numa tela de parque. Passantes batiam continência para os soldados: 'Parabéns, prendeu mais um bandido'.

Levaram-me ao 8º DP (Distrito Policial), perto do (estádio) Serra Dourada. Quando puxaram os processos, saiu a foto do cara (que usa o documento dele). Começaram a maneirar comigo.

 

 

Jogaram-me na viatura, fui ao IML (Instituto Médico Legal) fazer exame de corpo de delito, fiz exame de digitais. Às 16h30 me liberaram: pelas digitais perceberam que eu não era o cara.

Segunda prisão

No mês passado fui ao Alphaville buscar um projeto para fazer orçamento. Voltando, fui parado às 9h30 numa barreira policial. Puxaram minha ficha no computador: estava lá o mandado de prisão.

Colocaram-me no carro e me algemaram. De dentro do carro liguei para minha mulher buscar a moto que havia ficado na barreira. Quando ela chegou, eu tinha acabado de entrar na viatura para ser preso. Imaginei que seria igual da outra vez, porque nunca fiz maldade para ninguém.

Fui ao IML, à Polícia Civil. Tiraram duas fotos minhas, mas não fizeram a verificação das digitais como da outra vez. Do IML fui para a Deic (Delegacia de Investigações Criminais).

O policial chegou com meu mandado de prisão, entregou ao delegado e já me desceram (para triagem, na Casa de Prisão Provisória de Aparecida de Goiânia).

Preso em qualquer lugar vai para triagem. De onde é meu processo? (Minas Gerais) Eu só sairia da triagem para ir para Minas.

Meu tênis ficou na triagem. Agentes da triagem cortaram minha calça como bermuda, porque não pode entrar de calça na cela. É lei do presídio. Fui descalço.

Foi o 'trem' mais triste da minha vida. Dormi num 'corró', uma celinha que divide os presos para cada ala que irão. Todos que chegam vão para essa celinha. São duas alas no presídio, A e B. Cada ala tem dez celas e uma cela especial para quem não convive com outros presos.

Cheguei lá umas 15h, havia umas 30 pessoas. À noite já eram 60. Passei a noite em pé, num espaço de 9 m². Esse cômodo tinha um banheiro, um tanquezinho que virava a torneira onde o povo tomava banho.

Regras e rotina

No dia seguinte fui para a ala B, numa cela de 16 m², com 30 a 33 pessoas. Tinha seis 'jegas' - jega é cama. Havia colchonetes, um banheiro para banho, um para as necessidades e uma pia.




Gabriel com a mulher e filhas - Foto: W. Franco 



Dormia um em cada cama, e o resto no chão. Era feito um rodízio, e os mais velhos iam subindo (para as camas). Passei os 21 dias no chão, em um colchonete fininho.

Quando cheguei o chefe da cela desceu e passou as coordenadas. Tem que fazer isso, aquilo.

Primeira coisa: tem que tomar banho. O mínimo por dia eram cinco. Mas tomava seis, sete por dia. Era só um cano com água fria. O banheiro era uma privada assentada no chão. Tinha uma cortina de pano e um tanque entre o banheiro e o banho.

Lá é lei: se fizer cocô tem que tomar banho. São asseados ao extremo. Única coisa que presta é o asseio. Se o governo tivesse uma comida digna e colocasse menos pessoas na cela, recuperava muita gente. Mas como são muitos e a comida é ruim, o pessoal fica revoltado.

Tinha horário para banho, horário para levantar. Não sabia as horas, fazia só uma base. Às 6h tinha que levantar o pessoal que estava no chão, lavar a cela.

O café era às 8h. Misturavam leite com café 'aguado' e pão sem manteiga. Eram duas horas de banho de sol, sem horário específico. Ficava todo mundo lá misturado.

O almoço era de 11h às 13h. Não tinha hora certa. Era arroz, feijão e dois pedacinhos de carne. Chegava quente, mas teve marmita azeda também. A janta era a mesma coisa: um lixo, nem cachorro come.

Eu falava (que era inocente), mas ninguém entendia. Caí lá dentro, sou ladrão como eles, diziam. E qualquer preso diz ser inocente. Pode estar ele filmado lá na câmera que fala que não é ele.

Me dava com todo mundo, mas ficava na minha, calado, de cabeça baixa, sempre chorando, com saudade da família. Nem reparava nos outros.

Quinta-feira tinha visita e 'Cobal' (alimentos levados por visitantes). Dividi alimentos para não arrumar inimizade com ninguém.

Medo e liberdade

Fiquei mais isolado mesmo. Ficava com medo. Medo de não ver mais minha família. De sair morto de lá. Só Deus e quem vive isso sabe o que é uma cadeia. (Ele diz que não chegaram a ameaçá-lo e que não presenciou nenhuma situação de tensão).

 


 'Só Deus e quem vive isso sabe o que é uma cadeia', afirma mestre de obras - Foto: W. Franco


Lá tem caneta e os presos faziam um calendário do mês em um papel na parede. Um dia lá é uma eternidade. Tinha uma janela grande que dava para ver (a luz do dia). Não tinha nada para fazer.

(Após o advogado de Araújo conseguir provar diferenças entre ele e o homem procurado, como o nome da mãe na identidade, profissão diferente e fotografia no sistema de buscas, a prisão do mestre de obras foi revogada.)

Na saída da prisão vi minha família. Saí descalço porque quis doar os chinelos para os meninos lá. Não tenho palavras para descrever a alegria.

Tenho duas filhas, uma de oito e outra de seis anos, Rafaela e Júlia. A mãe não escondeu nadinha delas.

Sinto-me meio fracassado, com uma Justiça cega dessa. Na primeira vez provei que (o procurado) não era eu. Agora outro mandado de prisão igual. A lei é cega. Não nos ouvem mais. Se parassem um pouquinho para investigar...

Só com advogado já gastei R$ 25 mil. Foram R$ 8 mil antes, mais R$ 25 mil agora para provar minha inocência, fora (gastos) de Sedex, telefone, gasolina. E os prejuízos da minha obra, que tive que parar. São três obras que ficaram paradas.

Agora o advogado irá checar se é preciso fazer esse reconhecimento em Belo Horizonte e aí entrar com processo para mudar meu nome, tirar um sobrenome e colocar outro - acho que vou acrescentar o da minha esposa. Quero ver se tem como entrar contra o Estado de Minas e o de Goiás (pedido de indenização por danos morais).

Parece que estou aprendendo a viver de novo. Aquela cela não sai da minha cabeça, a angústia que vivi lá dentro, só tristeza. Estou tomando remédio para dormir, porque não dormia lá.

Peguei infecção de garganta desde o dia em que entrei, não sarou. Gripe era uma em cima da outra, imunidade baixa. O povo quase morria lá precisando de médico e não atendiam.

Agora quero finalizar os processos. Farei o que tiver que fazer para não ser preso de novo."

 

 

 

 

 

Carla Guimarães De Goiânia para a BBC Brasil

 

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