16/05/2011 - 09h:10 Josino é arquivo vivo do assassinato do juiz Leopoldino

O lobista e empresário Josino Guimarães, preso na última segunda-feira (9) por fraude processual, formação de quadrilha armada, denunciação caluniosa, falsidade ideológica, interceptação telefônica ilegal etc, pode ser considerado um arquivo vivo do brutal assassinato do juiz Leopoldino Marques do Amaral, encontrado morto na cidade de Concepción, na fronteira do Paraguai com o Brasil, em 1999, e de outros crimes cometidos por membros do judiciário.

Na época, no final dos anos 90, o juiz Leopoldino denunciou a participação de vários magistrados da cúpula do Poder Judiciário de Mato Grosso em esquemas de venda de sentença no âmbito do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, nepotismo, assédio sexual e moral etc, e chegou a interpor representação no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Senado, mas nada ocorreu com os denunciados. 

Já Leopoldino, que também era acusado de desviar recursos da Vara da Família, foi executado com dois tiros na cabeça e teve seu corpo parcialmente queimado. O crime chocou a sociedade mato-grossense e o país, pois ganhou as manchetes dos principais jornais e emissoras de televisão do Brasil.

O crime enriqueceu as crônicas policiais, mas muito pouco foi esclarecido com relação aos verdadeiros mandantes. Na época, a Polícia Federal deixou as investigações nas mãos do delegado José Pinto de Luna.

"Mas um 'estrangeiro' recém chegado em Mato Grosso dificilmente fecharia todas as pontas do caso, que é muito complexo e demandaria muita análise e juntada de mais provas", observou um advogado ouvido pelo Olhar Direto, que prefere não se identificar "por enquanto". advogado.

"Ele (Josino) também pode ser um arquivo vivo dos espúrios esquemas de vendas de sentenças que ocorriam e lamentavelmente ainda ocorrem no Judiciário mato-grossense", avaliou um segundo advogado. 

Josino é acusado, em processo federal, de ter sido o mandante do assassinato de Leopoldino. Ele foi denunciado pelo MPF e vai a juri popular nos próximos meses. No seio das famílias Guimarães, Maggi etc, ele jura inocência e, de fato, pode até ser inocente ou ter uma participação muito pequena na arquitetura engedrada para matar Leopoldino Marques do Amaral.

Inocente ou com um papel secundário no complô para assassinar o juiz, o fato é que, todo mundo sabe, Josino, Beatriz Árias e Marcos Peralta, suspostos executores do controverso Leoopldino, são consideradas figuras menores da trama tecida para sustentar o assassinato. O outro fato é que a denúncia feita por Leopoldino incomodava a muitos no TJMT e nas esferas menores do Judiciário.

Aposentado compulsoriamente pelo TJMT por supostas ligações com o tráfico internacional de drogas, o não menos polêmico juiz José Geraldo Palmeira, do alto de suas conexões, tratou de incrementar a crônica policial deste caso ao escrever, em e-mail enviado ao advogado Zaid Ardib, que Leopoldino teria sido raptado em Mato Grosso e fora levado vivo para ser executado no Paraguai em um avião do empresário do ramo de factoring Valdir Piran.

Palmeira é profundo conhecedor dos subterrâneos do TJ e não tem papas na língua, e por isso é temido por uns pares adversários e respeitado por outros. E ele sabe que os esquemas pupulavam em certos gabinetes, assim como qualquer advogado de coragem que trabalha nestas terras pantaneiras.

"Todo e qualquer advogado que atua em Mato Grosso há mais de 15 anos sabe dos esquemas existentes no TJ e em muitas Varas de venda de sentença. Quem negar este fato é um debilóide, mentecapto ou desconhece um histórico de desvios de conduta de algums membros 'notáveis' do nosso Judiciário", ponderou o mesmo advogado.

Em síntese, se Josino resolver abrir a boca e contar tudo o que sabe sobre o assassinato do juiz Leopoldino e a respeito dos esquemas de corretagem de sentença, com participação de advogados, juízes e desembargadores, pode mudar o rumo da história de Mato Grosso, e inclusive requerer, via seus advogados, a delação premiada.

E a situação do lobista é complicada. Nesta semana, Josino voltou às manchetes envolvido em uma farsa armada com o delegado Márcio Pieroni, denunciada pelo Ministério Público Federal (MPF), na tentativa de provar que o juiz Leopoldino estaria vivo e residindo na Bolívia.

A trama contou com a participação do presidiário Abadia Paes Proença, acusado de matar uma advogada em 2010, do agente carcerário Gardel Tadeu Ferreira de Lima e do irmão de Josino, Cloves Guimarães. Abadia está preso no Pascoal Ramos. Josino, Pieroni e Gardel continuam presos. Incluir Cloves Guimarães, irmão de Josino, na lista dos indiciados foi um exagero, na avaliação de alguns advogados ouvidos pelo Olhar, mas dura lex sed lex.

Tumultuar o processo seria tudo que Josino queria, na atual conjuntura, para tentar postergar o seu julgamento, mas o esquema foi por água abaixo e os procuradores federais têm provas robustas e testemunhas que comprovam a farsa montada pelo grupo liderado pelo lobista e por Pieroni. 

De acordo com denúncia do MPF, obtida com exclusividade pelo Olhar Direto, os atores da farsa tinham por objetivo tumultuar o processo e gerar dúvidas quanto à investigação federal e ao julgamento de Josino, que deve ir a júri popular ainda este ano. A audácia de Josino e Pieroni foi tanta que eles conseguiram obter uma liminar do Juízo de Primeiro Grau de Cuiabá para exumar o corpo de Leopoldino Marques do Amaral, o que ocorreu, mas a trapaça foi descoberta.

Em tese, Josino e trupe queriam mesmo era levar o processo para a esfera estadual, onde certamente encontraria proteção mais ampliada, visto que está hoje protegendo muitos maus magistrados, que acabam por deixar nas trevas o nome da Justiça e do Poder Judiciário de Mato Grosso.

 

Da Redação - Marcos Coutinho e Alline Marques