17/03/2014 - De ‘bordel’ a baderna, Cuiabá fica no centro da critica mundial: ‘Humilhação’

Primeiro foram os franceses que chamaram a Copa do Mundo no Brasil como algo parecido com um ‘bordel’. Agora, á vez dos americanos criticarem a preparação brasileira. Os alemães também já andaram falando mal, muito mais pela distância e pelo calor típico ameaçador da cidade. Em comum, todas elas colocaram Cuiabá como o centro das críticas. A cidade sede com o maior número de obras previstas para o evento da Federação Internacional de Futebol Associados (FIFA) é vista como o retrato do que está acontecendo no momento: uma “baderna”.

 

“Os detritos nesta pequena cidade no Oeste do Brasil faz parte da bagunça em grande escala de promessas não cumpridas” – descreve Stephen Wade, da AP, na extensa reportagem distribuída ao redor do mundo. Observa que os “projetos de infraestrutura inacabados” deveriam criar uma nova metrópole, com estradas modernas e um sistema de transporte de passageiros de primeiro mundo, ligando o centro da cidade e o aeroporto. Mas nada disso aconteceu. Muitos planos de construção foram irremediavelmente atrasados, como o caso do VLT, ou foram cancelados.

 

A população em Cuiabá já sente os efeitos da vergonha imposta pelos governantes. Cabisbaixos, admitem no máximo que o estádio onde acontecerão os jogos, a Arena Pantanal, estará terminada a tempo. Porém, conforme disse Atilio Martinelli, que dirige um negócio de serralheiria perto do canteiro de obras, ha uma marca indiscutível nas obras: "Vai ser mal feito e , no último minuto, mas pelo menos vão terminá-lo. Mas não há nenhuma maneira que eles vão terminar a maioria dos outros projetos. Vai ser uma grande humilhação para nós".

De acordo com a AP, o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) era visto como “jóia da coroa” do Mundial para a cidade de Cuiabá, capital do Estado de Mato Grosso. O projeto prevê investimentos de 670 milhões de dólares para ligar o Aeroporto Marechal Rondon e o centro. Até o Mundial da FIFA, o VLT não deverá andar 1 metro sequer transportando passageiros.

 

O secretário Mauricio Guimarães, que comanda os projetos da Copa do Mundo para o Governo do de Mato Grosso, sai pela nova tangente do Governo e disse à AP que o sistema ferroviário nunca foi concebido para ser ligado a Copa do Mundo, apesar de ter sido o primeiro no Brasil para tirar vantagem de um programa de financiamento especial criado especificamente para o torneio e as Olimpíadas. Ele garantiu que o sistema estará "100 por cento concluído " até o final de 2014.

 

Muitos duvidam essas garantias e temem que o momento vai desaparecer por completo uma vez a Copa do Mundo acabou.

 

"(Funcionários do Estado ) mentiram quando prometeu terminar o VLT antes da Copa do Mundo, apesar de qualquer engenheiro sério podia ver que não huve tempo suficiente" - disse Bruno Boaventura , um advogado que chefia a ong Moral. "Eles mentiram sobre o custo real do sistema , o que tem aumentado e eu acho que vai ficar ainda pior . Agora, eles começaram a mentir sobre a obtenção de 100 por cento das linhas feitas em dezembro".

 

“Outra ferida sangrando” – escreve a AP - é conhecido localmente como "A Grande Trincheira", projeto para redirecionar uma das três principais artérias de tráfego de Cuiabá. A trincheira passa dentro de algumas centenas de metros do novo estádio, e vai dificultar o tráfego de chegar ao estádio - não ajudá-lo, segundo a agência, que registra a ira dos comerciantes: “Proprietários de pequenas empresas na área dizem que foi dito há dois anos , quando o trabalho começou, que seria feito em poucos meses. Eles dizem que perderam dinheiro, desde então, e agora não pode obter uma resposta direta a respeito de quando o trabalho será concluído”.

A reportagem descreve que as trincheiras ao longo da Avenida Miguel Sutil e os viadutos na Fernando Corrêa e em Várzea Grande como uma vergonha, que mais servem para bloquear o tráfego de veículos e explodir a ira dos cuiabanos. “Um máximo de um quilômetro de pista foi colocado” – diz, sobre as obras.

 

A expansão do aeroporto virou um tormento por causa do seu início tardio devido a burocracia e os moradores temem que ele também não vai estar pronto para as receber multidões que em breve descem para os jogos. A grandes desvios de pista para se chegar ao “minúsculo terminal”. Os passageiros são obrigados a enfrentarem uma nuvem de poeira gerada por retroescavadeiras . Os táxis rodam através de um labirinto acidentado de cones de plástico.

 

No calor escaldante de Cuiabá – acrescenta a reportagem - uma empregada doméstica de 46 anos Evone Pereira Barbosa fica fora da Policlínica do Verdão, a poucas centenas de metros a partir do novo estádio. Trinta pessoas estão em uma sala de espera de atendimento, sem mais assentos. Ela inclina-se contra uma parede exterior.

 

“A clínica destinado a população de baixa renda é típica de muitos no Brasil, onde um sistema de saúde pública “lamentável” é prejudicado com a falta de infraestrutura e de médicos, especialmente nas áreas mais pobres. A situação da saúde pública retratada na Policlínica do Verdão é que serve de combustível aos protestos, segundo a agencia. De fato. Em comícios , os manifestantes exigem rotineiramente hospitais "padrão FIFA ", uma referência aos de alta qualidade novos estádios .

 

A doméstica enferma a espera de atendimento, segundo a agencia, diz que metade das pessoas em Cuiabá são contra o Brasil sediar a Copa do Mundo . E é verdade. O Datafolha, respeitado instituto de pesquisa brasileiro, disse em fevereiro que 52 por cento dos entrevistados em todo o Brasil são a favor da realização do evento . Esse percentual é muito baixo comparado aos 79 por cento em 2008, quando o Brasil foi premiado com a Copa. “Poucos poderiam ter imaginado tal rejeição que vem da casa do esporte mais popular do mundo” – escreve.

Associeted Press registra que houve um tempo em que o maior país da América do Sul parecia ser o lugar perfeito para o evento vitrine do futebol. É única superpotência do jogo e na casa de Pelé, o seu mais famoso futebolista. “Em vez disso , o país é uma bagunça logística” – frisa. Pior: antecipa que o Mundial deve acontecer em meio a grandes protestos contra o Governo, movimentação população temida por serem “potencialmente violentas” como as ocorrida no ano passado durante a Copa das Confederações.

 

Depois do Brasil foi premiada com a indicação em 2007, os políticos prometeram investir milhões em 56 aeroportos, construir linhas de metrô e outros projetos em todo o país, além de 3,5 bilhões para a construção ou reforma de 12 estádios para o torneio . “Nove dos estádios estão acabados , mas apenas sete dos projetos de infra-estrutura foram concluídos para a competição que vai ocorrer daqui a menos de três meses”.

 

A Copa do Mundo serviria como partida para a chegada do Brasil no cenário global. "O mundo vai ver uma nação moderna e inovadora" - escreveu o ex- ministro dos Esportes, Orlando Silva , em um editorial de 2011, no jornal Folha de S.Paulo, poucos meses antes de ser retirado do cargo em meio a acusações que ele recebeu propinas. "Estamos trabalhando para organizar a melhor Copa da história .... O país pode contar com isso"

 

Pelo contrário, os atrasos na construção tornaram-se um embaraço para muitos, alimentando a raiva pública sobre serviços públicos, o alto custo de vida e de escândalos de corrupção. Muitos brasileiros agora dizem que, mesmo se a seleção vencer a Copa do Mundo em 13 de julho, o país já terá perdido.

 

Desde os protestos em junho passado, de acordo com a agência, autoridades como Maurício Guimarães têm trabalhado duro para construir uma discurso diferenciado sobre os gastos em infra-estrutura da Copa do Mundo . Ele argumenta que se Cuiabá não tivesse gasto o dinheiro na construção de uma linha férrea ou um novo estádio, os fundos "não teria ido para a saúde e segurança". Enfatiza ainda que trata-se de “dinheiro que vem de diferentes orçamentos”. Tais argumentos são considerados frágeis pela agência.

 

 

Edilson Almeida |

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