17/07/2011 – 08h:25 Casaldáliga pensa que crise europeia se resolve com solidariedade

A notícia de que Dom Pedro Casaldáliga enfrentou as limitações de saúde e veio a Ribeirão Cascalheira participar de mais uma Romaria dos Mártires da Caminhada dá novo ânimo aos fiéis que chegam de todas as partes do país. Após enfrentar jornadas que ultrapassam 30 horas até esta cidade do Araguaia, os romeiros expõem um afeto quase devocional a este bispo que fortaleceu a luta dos oprimidos da região e assegurou que os conflitos de terra não vitimassem ainda mais pessoas. Aos 83 anos, Casaldáliga segue vivendo em São Félix do Araguaia, mas já não comanda a prelazia de mesmo nome, na qual se notabilizou pela luta a favor de ribeirinhos, camponeses e indígenas.

A viagem de menos de trezentos quilômetros entre São Félix e Ribeirão Cascalheira seria uma operação simples, não fossem as estradas precárias e o estado de saúde do religioso nascido na Espanha em 1928. “Fora meu parkinson, está tudo bem. O parkinson não dói, não mata, mas limita, me faz depender dos outros”, constata  Pedro, como prefere ser chamado, dispensando o “dom” e o “senhor”. À parte isso, ele leva com aparente tranquilidade a doença, segue com hábitos de leitura e encontra espaço para brincadeiras. “A bengala não gosta de mim. Onde vou, ela me esquece.”

Após 32 horas na estrada e muitos desencontros de caminho por São Paulo, Mato Grosso do Sul, Goiás e Mato Grosso, o ônibus transportando romeiros da capital paulista chegou a Ribeirão Cascalheira. Foi uma viagem cansativa, que passou por pontos que não estavam exatamente no roteiro, como o Parque das Emas, e que foi superada com tranquilidade pelos romeiros.

Logo após a chegada, a reportagem da Rede Brasil Atual teve acesso a Pedro durante alguns minutos, na manhã deste sábado (16). Embora faça questão de manter os hábitos simples e de receber a tantos quanto possa, o bispo já não tem condições de ficar à disposição dos romeiros o tempo todo. Por isso, o encontro com algumas pessoas se dá em um espaço reservado da paróquia.

A religiosos ingleses, Pedro afirmou que a solução para a crise europeia será encontrada na solidariedade, e reiterou sua fé na união da América Latina, uma antiga bandeira que empunha e que se vê fortalecida pela presença de governos progressistas na região. “Está sendo um momento muito importante para nossa América Latina. Porque está mais forte, está mais autônoma.”

Pedro aproveitou para contar aos estrangeiros a história da Romaria dos Mártires, organizada a cada cinco anos, desde 1986, para lembrar quem foi morto defendendo a vida. A primeira edição marcou uma década do assassinato de João Bosco Burnier, um padre local. O bispo confirmou a versão mantida viva pela memória oral de que Burnier havia ido, em sua companhia, defender duas mulheres que estavam sendo torturadas por policiais militares. Os agentes queriam saber o destino do marido de uma delas, que havia atirado contra um soldado para defender seu filho, ameaçado por um conflito fundiário.

Pedro, talvez por falta de tempo, não contou a versão segundo a qual deveria ter sido ele o morto. Dizem as testemunhas que o policial, que nunca foi preso, julgou que o bispo era o homem mais corpulento e alto – no caso, Burnier –, o que poupou a vida do bispo, esguio e baixo.

Ribeirão Cascalheira foi, com o tempo, adquirindo o caráter de um ponto de romaria em prol dos mártires. A cidade de 8.800 habitantes fica no norte de Mato Grosso, mais próximo de Goiânia que de Cuiabá, e nesta época sofre com a seca (também usada como desculpa para queimadas criminosas). Suas ruas, muitas de terra ou de areia, estão movimentadas por conta da romaria, que traz entre quatro mil e cinco mil pessoas de todas as partes do Brasil, de nações sul-americanas e da Europa. As famílias acolhem os romeiros, que também ficam em escolas.

O Santuário dos Mártires é arrumado com carinho para receber o fim da procissão que marca um dos pontos altos da festa. É uma construção simples, mas que guarda um interior bonito, todo de homenagem à população excluída. Atrás do altar de madeira há uma grande pintura com trabalhadores que lutam por vida digna e terra. Logo na entrada há uma exposição fotográfica com mártires mundiais. Chico Mendes, irmã Dorothy Stang, o pataxó Galdino Jesus dos Santos, Vladimir Herzog, Zumbi e Antônio Conselheiro são alguns dos nomes brasileiros. Os painéis guardam também preocupação especial com os latino-americanos: o bispo argentino Enrique Angeleli, vitimado pela ditadura da década de 1970, Florinda Muñoz, camponesa da República Dominicana e Frank Pais, revolucionário cubano, entre outros, são homenageados.


João Peres e Douglas Mansur viajaram a Ribeirão Cascalheira (MT) para acompanhar a Romaria dos Mártires.

 

João Peres
da Rede Brasil Atual

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