18/03/2014 - O Sonho de um Grande Presidente na Ilha do Bananal

Conheça a história do feito de um homem visionário que construiu Brasília, alimentado pelo sonho de Dom Bosco – e construiu um hotel luxuoso nas profundezas da selva da Ilha do Bananal-TO

 

O presidente Juscelino Kubitschek apaixonado por distâncias, que se perdia nas cidades e se encontrava nos ermos, o seresteiro que vibrava com a amplidão, certamente enluarada, que os bordões de Dilermando, seu violeiro, descobriam em sussurros de velhas cidades mineiras, o sensitivo, cujos olhos guardavam na memória, sem nunca ter visto, os barrancos e varjões, os lagos e as praias, os remansos e os travessões e os fantasmas criados pelas sombras e que ouvia o esturro da onça, o espadanar dos jacarés na água, o coral da saparia e o assovio das capivaras, estava predestinado a também ouvir o chamado da correnteza de onde emergiram os índios  karajá, nos banzeiros das lendas. Esse homem estaria fadado a se empolgar com a Ilha do Bananal. 

 

Que outra coisa não fez Juscelino, senão esperar pela noite nupcial com o Araguaia, a quem namorava do alto das “gerais”, para comporem, juntos, a paisagem e o personagem?

Quando ainda governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek decidiu extemporaneamente visitar seu colega de Goiás, Pedro Ludovico, que o antecedera construindo Goiânia, e para lá embarcou em dois aviões “Beechcraft”, do Estado. A visita não teve protocolo, e na mesma tarde Juscelino resolveu prolongar seu vôo, indo até Aragarças, onde veria o Araguaia pela primeira vez.

 

Parece que Goiás estava em seu destino, pois foi em Jataí que iniciou sua campanha para presidente da República, antes mesmo de localizar no cerrado goiano e ponto onde ergueria a futura capital do Brasil, e expirado o tempo de Brasília nela ficou como senador pelo estado de Goiás.

 

  

Inaugurada a nova capital em 1960 e completada a estrada Belém-Brasília, por Bernardo Sayão, Juscelino mostrou não ter esquecido a visita que fizera ao rio Araguaia e decidiu lançar a sua última campanha, a “Operação Bananal”, cuja execução e administração foram entregues à Fundação Brasil Central.

 

Em ritmo de Brasília, o “Projeto Bananal” foi iniciado com verbas da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia – SPEVEA – e consistia em erigir na ilha um centro turístico e promocional do Brasil Central e do Rio Araguaia, composta de pista asfaltada para aviões da época, um hotel que seria (e foi) chamado de JK, um pequeno hospital, uma escola e ainda uma casa/residência para a presidência ou outros hóspedes especiais.

 

 

A pista logo se completou e aviões começaram a descer na logística de completar e transportar as outras partes do conjunto. A Casa da Presidência foi terminada com bom “acabamento” e nela se hospedaram os presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart e convidados especiais como Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir.

 

O hospital, rústico, planejado para conter ambulatório e poucos leitos, recebeu material suficiente, remédios e instalações e com intermitências prestou serviços, estando em funcionamento, nos dias de hoje, com médicos e funcionários da Funai.

 

 

O hotel seria a melhor atração da Ilha do Bananal. Esportivo e elegante, construído sobre palafitas – pois área era sujeita a enchentes – as janelas se debruçando sobre o Araguaia, representava um pernalta insólito pousando nas margens do rio. Em fim do mandato de JK o hotel chegou a funcionar como local de convenções sem pressa e reuniões de dirigentes turísticos ou administrativos vindos de Brasília. Mas nunca se estruturou.

 

A 31 de janeiro de 1961 esgotou-se o tempo de Juscelino Kubitschek e a substituição por Jânio Quadros e a agitação da renúncia influíram fortemente sobre a Fundação Brasil Central, que já se vinha ressentindo por administrações corruptas e incompetentes. A “Operação Bananal”, criação pessoal de um presidente, Não motivou a seus substitutos, sendo esquecidos os planos complementares de JK de construir via especial que, vindo de Brasília, atravessasse a braço Javaé e mantivesse o centro turístico de Santa Isabel em desenvolvimento.

 

Em vez disso, a deterioração dos edifícios começou. O hospital continuou atendendo aos karajá cuja aldeia é vizinha e à população de São Félix do Araguaia. Mas no hotel, precariamente ocupado por funcionários da Funai, a destruição começou a com a pintura desfeita, as janelas aos pedaços, os pilares corroídos, a sujeira se antevendo nos vãos das portas, as roupas penduradas em todas as partes, o pátio acumulado de detritos, máquinas quebradas, tratores sem uso e automóveis que o ocupam como garagem.

 

O conjunto sonhado por Juscelino está desfeito e em decadência. Como o sonho de Couto Magalhães iniciado e terminado em Aruanã, com os tristes despojos de três navios, assim a “Operação Bananal” exibe o esqueleto de sua estrutura inicial e incompleta. Até as iniciais JK passaram a significar “Jack Kennedy”, em lugar do nome do presidente que a criou.

 

Em novembro de 1967 a Fundação Brasil Central se extingue, sendo futilmente substituída pela Superintendência do Desenvolvimento da Região Centro Oeste – SUDECO -. Profunda melancolia invadiu o rio Araguaia, pois de 1868 a 1968 – exatamente cem anos – os fracassos se seguiram: a navegação a vapor, a Fundação Brasil Central e a Operação Bananal. Possivelmente condições e conjunturas tenham exercido influência no triste rolar dos fatos; mas certamente, faltaram para impedi-lo os vultos humanos dos seus criadores: Couto Magalhães, João Alberto Lins de Barros e Juscelino Kubitschek.

 

Êh, êh, êh, ôh!!! Ìndio quer apito…:

 

Segundo depoimento feito por Matuzalém Milhomem (Natural) a senhora Sara Kubitschek mantinha um costume de também vir à Ilha do Bananal passar uns dias tranquilos e sossegados. Dessa maneira, ela trazia presentes para as crianças karajá. Nesse oportunidade específica, a digníssima senhora teve a infelicidade de trazer, em sua carga de presentes, alguns pirulitos daqueles em que, quando totalmente saboreados, se transformam num apito para o deleite das crianças.

 

E numa determinada noite a nobre senhora Sara não teve sossego, porque as crianças nativas, maravilhadas com os presentes inusitados, passaram toda a noite assoviando com aqueles instrumentos insuportáveis. A velha senhora, não suportando a barulheira, desceu no pequeno Catetinho que lhe servia de leito, para negociar com as crianças:

— Dou-lhes outros brinquedos muito melhores, se vocês desistirem de soprar esses apitos!

 

Mas as crianças estavam tão maravilhadas com o novo brinquedo que a negociação varou muitas noites, sem que tivesse como entrarem em acordo. Só depois que a senhora Kubitschek ofereceu belíssimos e caros colares, foi que a situação se normalizou e a negociação foi feita, dando fim aos nefastos apitos.

 

Nesses dias estavam em visita ao hotel vários artistas e personalidades importantes do carnaval do Rio de Janeiro e da música popular brasileira, surgindo a partir de então, a famosa marchinha de Haroldo Lobo, conhecida do público brasileiro:

 

Ê, ê, ê, ê, ê...
Índio quer apito
Se não der
Pau vai comer
Lá no Bananal mulher de branco
Levou pra índio colar esquisito
Índio viu presente mais bonito
Mim não quer colar
Índio quer apito...

 

 

Pinga com Rapadura:

  Afirma Erotildes Milhomem, escritora, poetisa e ex vice-prefeita de São Félix do Araguaia que o nobre presidente Juscelino, quando em visita ao hotel, gostava de comparecer na rua principal do vilarejo, lá pelos idos de 1969, para conversar com os ribeirinhos e populares e, também, para degustar uma boa pinguinha (cachaça) a qual saboreava juntamente com uma rapadura ( doce feito de melaço de cana). Segundo Erotildes Juscelino chegava a estalar a língua e dizer:

      — Como eu gosto de uma pinguinha com rapadura!!

 

A Coluna de Fumaça negra:

Segundo afirma o atual prefeito de São Félix do Araguaia, José Antônio de Almeida (Baú), num certo dia, ele vinha de Gurupi, juntamente com o bancário Romildo, quando viu lá pelos lados do Hotel JK, uma coluna de fumaça muito grande. Assustado o então aviador Baú fez uma curva em sua aeronave saindo da rota inicial. Em seguida sobrevoou a hotel, quando constatou que a grande estrutura criada pelo presidente do Araguaia estava pegando fogo. “Foi uma destruição lamentável!”, afirma Baú.

 

Em seguida, foi constatado que, os índios karajá, ao tentar atear fogo numa caixa de marimbondos, acidentalmente atearam fogo no hotel destruindo-o completamente. Dessa forma, uma belíssima página de nossa história foi se embora com a coluna de fumaça, e o hotel, em sua grande parte, permaneceu apenas na memória da população.

 

Hoje, o que sobrou do mirífico Hotel JK, onde tantas pessoas famosas se hospedaram, sonharam e se divertiram, são apenas ruínas, (como mostram as fotos), alguns tijolos pelo chão, pedaços de paredes, pratarias que se acham bem guardadas no museu do município e, quadros e mais quadros retratando a fase áurea da existência do hotel. Segundo a população antiga da região até as atrizes Merilyn Monroe e Elisabeth Taylor passaram férias nesse legendário hotel.

 

O tempo da decadência:

 

Depois que tudo passou, o Hotel JK se transformou no que vocês leitores e apreciadores vão ver a seguir:

 

 

Redação: Sergildo Ribeiro Gonzaga

Fotos: Departamento de Comunicação

Créditos das pinturas: Val Tietê – Margui – Hanne – Erotildes Milhomem – Sônia Argôlo

Agradecimentos: Cléia Sousa

Depoimentos: Erotildes Milhomem, José Antônio de Almeida (Baú) e Matuzalém Milhomem (Natural)

Fonte de pesquisa: livro “Araguaia, corpo e alma – Durval Rosa Borges – 1986

 

Comentários

Data: 09/10/2016

De: Julio calixto

Assunto: hotel turístico jk

Marimbondo burrice tem limite .seu pensamento de ongangotango já está ultrapassado.

Data: 08/04/2014

De: Natural Milhomem

Assunto: Dia 19 de Abril


19 de Abril vem ai. Assitam na TV Brasil sobre a Ilha do Bananal com Paula Saudanha e Etiene Mascarenhas, participação Natural Milhomem, Koxinin e o pessoal da Aldeia Fontoura.
Há sim um plano contemporâneo para Ilha do Bananal. Ribeirinhos e indios estão se mobilizando para uma ação eficaz e duradoura. Ñ percam.

Data: 26/03/2014

De: JOSÉ FRANCISCO DE CAMPOS FILHO

Assunto: BONS TEMPOS

Não consegui identificar o autor, ou autora, da belíssima reportagem sobre SANTA ISABEL DO MORRO, onde tive a honra de morar e trabalhar. Lá, como militar da Força Aérea brasileira (FAB), servi por 01 (um) ano e 02 (dois) meses, de janeiro de 1971 a março de 1972. Conheci o Hotel e residi em uma das casas pertencentes, à época, a FAB. Conheci o lendário cacique Karajá WATAÚ. Fui tendido pelo índio Karajá MALUARÉ, o qual era um "enfermeiro" que me aplicou uma injeção que, até hoje, não sei para que servia, mas era a única maneira de me acordar de um desmaio que tive, após um tombo na pista, após realizar uma operação para decolagem de uma aeronave. No hotel, tive a oportunidade de percorrer todas as instalações, desde a cozinha ao seus quartos mais luxuosos, já deteriorados, mas que ainda podiam abrigar visitantes daquela época. Ficam somente as saudades daqueles tempos. Infelizmente não tenho fotos daquela época, mas fica aqui o registro de minha passagem por aquele local paradisíaco.

Data: 20/03/2014

De: Resposta:

Assunto: Créditos

Assim termina a matéria:

Redação: Sergildo Ribeiro Gonzaga
Fotos: Departamento de Comunicação

Créditos das pinturas: Val Tietê – Margui – Hanne – Erotildes Milhomem – Sônia Argôlo.

Agradecimentos: Cléia Sousa
Depoimentos: Erotildes Milhomem, José Antônio de Almeida (Baú) e Matuzalém Milhomem (Natural)
Fonte de pesquisa: livro “Araguaia, corpo e alma – Durval Rosa Borges – 1986

Data: 20/03/2014

De: Elioman Chaves

Assunto: O sonho de um grande presidente na Ilha do Bannal

Muito boa a matéria e serve para relembrar dias bons na região do Araguaia/Ilha.
Pena que os ideais não foram concluídos por politicas "eu não fiz não vou dar continuidade", apesar do dinheiro ser publico.
Para isso foi construída uma casa da cultura na cidade de São Félix do Araguaia, para mostrar esses memoriais JK e os indios Karajá na Ilha. O que também não foi
dado continuidade para que as futuras gerações tenham conhecimento.
Parabéns pela matéria Vanessa.

Data: 20/03/2014

De: Indio Javaé

Assunto: Re:O sonho de um grande presidente na Ilha do Bannal

Vanessa divulga matéria sobre o comercio de gado na na ilha nos anos 80, onde varias autoridades, inclusive da FUNAI visitavam a ilha e São Félix para negociar BOI aviões chegavam e saiam transportando fazendeiros. Quando acabou o gado da FUNAI na Ilha a participação das autoridades acabaram "acabou a farra do Boi" região foi esquecida.
Acabou o hotel JK, e a ilha está abandonado pela FUNAI e órgãos responsáveis pela proteção incluindo o MPF. Os índios estão se perdendo e morrendo pelo grande índice de alcoolismo nas aldeias. E ninguém Faz nada, as 18 mortes em 2012 e 2011 com enforcamento entre índios Javaé e Karajá já foram esquecidas.

Data: 19/03/2014

De: Lago Verde

Assunto: Hotel JK

Uma pena que não souberam dar valor neste hotel, que ainda hoje poderia está gerando dividendo a nossa região. Parabéns pela matéria Vanessa.

Data: 20/03/2014

De: ....

Assunto: Re:Hotel JK

Uma pena ... Eu mesma gostaria de ter conhecido!!!

Data: 18/03/2014

De: SANFA

Assunto: HOTEL JK

Parabéns Vanessa! Ótima reportagem. Saudades do velho HOSPIN e da antiga instalação da FUNAI que ficava no antigo prédio que funcionava o Hotel JK. Parabéns!

Data: 18/03/2014

De: Marimbondo

Assunto: nem tudo são flores

Realmente uma matéria interessante! Só faltou atualizar as informações! Como assim o hospital está em "funcionamento, nos dias de hoje"? Há muitos anos este hospital não é mais do que ruína, como mostra a foto. Também penso que por traz de todo esse glamour é importante fazer uma crítica sobre quais os benefícios de tanta gente chique transitando entre tanta gente pobre.. Quem ganhou com esse hotel? Que saldo ficou para os indígenas, que tiveram seu espaço invadido, sua mão-de-obra explorada? Até onde eu sei, foi aí que começou o problema com o alcoolismo e prostituição entre os Karajás. É sabido que este hotel foi espaço de muitas orgias milionárias...

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