18/06/2012 Homem perde memória por dois meses e se apaixona pela mesma mulher

Na madrugada de 18 de fevereiro, Alcino acordou com vontade de ir ao banheiro, mas não sabia onde era o banheiro. Não sabia onde estava. Ele também não reconhecia a esposa e a filha, de 11 meses.

 

Um homem perdeu a memória durante dois meses e se apaixonou de novo pela mesma mulher.

Alcino já era pai de três filhos quando deu o primeiro beijo. “Na hora que eu estava me aproximando dela me deu vontade de desistir, foi um friozaço na barriga até”, conta.

É que, aos 34 anos, algo muito estranho aconteceu na vida dele. Na madrugada de 18 de fevereiro ele acordou com vontade de ir ao banheiro, mas não sabia onde era o banheiro. Não sabia onde estava. Pediu para pessoa que dormia ao lado dele para guiá-lo.

Depois disso, voltou pra cama e fingiu que dormia. “Aí estava já dando umas 10 horas ele não levantava, fui conversar com ele e fui lá chamei disse: Alcino,vamos levantar, e ele assim: ‘mas que nome é esse que você está me chamando?’”, conta Priscila.

Alcino acordou sem memória. “Eu não sabia o que estava passando. Não sabia onde estava, não sabia quem eu era, é como se você entrasse em outro planeta”, diz alcino.

“Aí eu perguntei: você sabe quem sou eu? E ele: ‘não, não sei’”.

Alcino ouviu um choro que o assustou. Quando viu a criança, ele não sabia quem era. “Eu não sabia o que fazer, não sabia o que pensar. Olhando para ela eu não sentia nada”, conta

E Cristina, a filha de 11 meses também não o reconheceu. “Ela vinha para o meu colo e meio que chorava”, lembra Alcino

Priscila resolveu tentar fazer Alcino se lembrar. Ela mostrou as fotos do casal.

“A gente junto, viagens, passeios, as fotos da gravidez, então ele foi sentindo um pouco mais seguro”, diz Priscila.

Mas ele ainda não se lembrava de nada. Alcino começou então a escrever um diário, com medo de esquecer também da nova vida. “Levei ele a vários médicos, psiquiatra, neurologista, clinico geral, psicólogo. Até então a única resposta que a gente tinha é que era uma crise de estresse que ia passar”, lembra Priscila.

Os dois largaram o emprego. Começaram a viver em função do esquecimento. Procuravam um médico, um especialista, que desse a resposta, a solução para o problema. Foi aí que o Alcino lembrou, que antes de tudo, ele precisava reaprender a viver.


“Eu falei: estou cansado, vamos passear, vamos em algum lugar que eu possa fazer mais ou menos o que fazia.

Eles foram até a uma praia. Lá, tentaram conversar sobre outras coisas, relaxar.

Foi o momento em que Alcino se aproximou da mulher que conhecera há um mês.

“Foi como se fosse o primeiro. Eu não tinha lembrança. E agora eu tenho lembrança dos dois e garanto que meu segundo beijo com ela foi melhor foi mais carinhoso.

“Ali naquele momento a gente era a Priscila e o Alcino, marido e mulher.

Ele se apaixonou duas vezes pela mesma mulher. “Eu percebi que era muito mais difícil para ela do que pra mim, que não lembrava. Eu comecei a olhar para ela com outros olhos”, revela.

E a vida mudou. Tudo ficou um pouco mais leve. Ele viu como se fosse pela primeira vez os filmes que antes eram os seus favoritos. E reaprendeu uma antiga paixão.

“Olhava o Ronaldinho jogando no Flamengo e a Priscila dizia: ‘é seu time’. Mas pra mim era indiferente”, lembra.

Mas afinal, o que aconteceu com Alcino? Por que ele perdeu a memória por dois meses? 

O médico que atendeu Alcino já tem um primeiro diagnóstico: “A gente chama de amnésia global transitória. Você pode perder a memória por algum tempo, 4h, 6h 12h e recuperar a memória pro progressivamente”, analisa o neurocirurgião Élcio Machado.

Para o coordenador do departamento científico de neurologia cognitiva da Academia Brasileira de Neurologia, o caso de Alcino tem peculiaridades, por isso não poderia ser chamado de amnésia global transitória.

“Ela geralmente tem uma duração curta, em horas, minutos no máximo horas. Ele conhece as pessoas que o cercam: conhece esposa, filhos, mas não sabe o que está fazendo, não sabe onde está”, explica o neorologista Ivan Okamoto.

Foi isso que aconteceu com Wilson. “Eu me lembro de estar fazendo a barba, e a partir daí eu praticamente não me lembro mais do que aconteceu até me levarem ao hospital e lá que eu percebi que eu estava no hospital.Isso demorou talvez oito ou nova horas até eu em recuperar”, lembra Wilson Teixeira.

Agora, o caso do Alcino é muito raro. Ele não ficou oito ou nove horas, mas dois meses sem memória!

Depois de um monte de exames, o que o médico dele já conseguiu descobrir é que a irrigação sanguínea no cérebro não funcionava bem.

O Alcino agora precisa fazer uma cirurgia para implantar um stent numa veia que não deixava o sangue passar. Só que, mês passado, como mágica, ele começou a lembrar de tudo.

“Minha cabeça deu um: sabe como se tivesse vindo tudo de uma vez. Como se eu fosse um garoto, começasse a falar sem parar”, lembra.

Alcino se sente hoje outra pessoa. “Eu tenho que ser mais carinhoso, mais atencioso, mais afetivo”, relfete Alcino.

 

Do G1 RS, com informações de O Repórter do Araguaia