19/04/2013 - Padre indígena celebra missa nas aldeias em língua xavante em MT

Aquilino Xavante fez filosofia, teologia e mestrado em educação indígena. 
Família estranhou decisão dele em se tornar padre, mas depois aceitou.

 

 

Ordenado padre há 10 anos, Aquilino Xavante, de 52 anos, celebra missas em língua xavante nas aldeias da região Araguaia, onde nasceu. Membro da terra indígena Mãraiwatsédé, alvo de disputa entre indígenas e posseiros por 20 anos, ele disse ser o primeiro padre xavante de Mato Grosso e ainda o primeiro da etnia a fazer mestrado em educação indígena. "Trabalho com os xavantes nas aldeias, visito e rezo. As celebrações são feitas na língua xavante, todas as leituras", declarou.

 

Segundo ele, a vontade de cursar teologia e se tornar padre surgiu da convivência com os padres salesianos após a retirada do povo xavante da terra indígena Mãraiwatsédé. "Cresci na educação São João Bosco. Decidi ser padre salesiano não somente para ficar com eles, mas para ajudar o povo xavante", disse. O padre se formou em filosofia, em 1995, pela Universidade Católica Dom Bosco, em Campo Grande (MS), e cursou teologia no Instituto Teológico Pio XI, em São Paulo. Agora, pretende fazer doutorado em educação indígena.

 

Diante das diferenças dos costumes e crenças, o padre contou que não se 'intromete nas questões das autoridades' indígenas e somente transmite a palavra cristã. "Ainda não está tudo completamente entendido nas celebrações", disse, ao informar que algumas comunidades indígenas dos xavantes ainda estão aprendendo sobre a religião para então começar a fazer as celebrações.

 

Já em relação ao fato de não se casar, Aquilino disse que a família e a tribo acham estranho. "Até hoje não entendem porque não me casei. Daí explico e aos poucos eles vão entendendo, mas ainda tem muitas aldeias que não conhecem essas normas. É estranho para eles". Conforme ele, a família considerou estranho no início a decisão dele querer se tornar padre, porém, "depois foram conhecendo a realidade e hoje estão comigo".

 

Ele mora em Nova Xavantina, a 651 quilômetros da capital, e atende mais de 150 aldeias da região. É pároco da Igreja São Domingos Sávio, frequentada pelos índios xavantes, no município. Aquilino celebra missa uma vez por mês na aldeia Mãraiwatsédé, onde a família dele vive. Foi liberado para estudar ensino religioso, o qual pretende ensinar nas escolas públicas.

 

O padre tinha nove irmãos. Dois deles morreram de sarampo durante a transferência da Mãraiwatsédé para a aldeia São Marcos, a 400 km da terra indígena. "Muita gente morreu e dois eram da minha família. Me lembro que fomos em um avião, da Força Aérea Brasileira (FAB). Não tinha assentos no avião, só cordas para não escorregar", recordou, ao comemorar a decisão da Justiça Federal que determinou a retirada de cerca de seis mil posseiros da comunidade de Posto da Mata, em Alto Boa Vista, a 1.064 km de Cuiabá.

 

No início deste mês, representantes do governo federal fizeram a entrega oficial da área para os xavantes que foram retirados à força da região. "Devolvemos para eles o sofrimento. Eles sofreram hoje porque estão pagando o que fizeram", enfatizou. Hoje, vivem na Mãraiwatsédé cerca de 920 índios. Os indígenas já estão se mudando para a região e, durante esse processo, contam com o apoio de agentes da Força Nacional para evitar conflitos com os produtores rurais que foram retirados da área, reconhecida como sendo de propriedade dos xavantes.

 

Escrito por Pollyana Araújo Do G1 MT

 

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