20/01/2015 - Gravações em notebook revelam suposto "propinoduto" na Setas

Uma série de gravações de áudios, feitas por Rodrigo de Marchi, então assessor especial da ex-primeira-dama Roseli Barbosa, na Setas (Secretaria de Estado de Trabalho e Assistência Social), colaborou para que o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) avançasse nas investigações sobre um suposto esquema de lavagem de dinheiro público.

No último dia 19 de dezembro, o procurador de Justiça Helio Fredolino Faust, e os promotores de Justiça Arnaldo Justino da Silva e Samuel Frungilo, formalizaram denúncia à Justiça contra 33 pessoas pelo suposto desvio de R$ 8 milhões da secretaria.

Roseli Barbosa é uma das acusadas de suposta participação no esquema. Segundo o Gaeco, em pelo menos uma ocasião, ela recebeu propina de R$ 40 mil.

Os áudios feitos por Marchi revelam uma série de negociatas e pedidos de propina, durante a gestão da ex-primeira-dama. O material foi apreendido em um notebook do ex-assessor especial.

Segundo apurou a reportagem, Marchi não usava o notebook na Setas, mas teve a infelicidade de levá-lo ao trabalho no dia 29 de abril do ano passado, justamente quando o Gaeco fez uma busca e apreensão na secretaria. 

O notebook foi levado pelos agentes e se transformaram em peça fundamental para o trabalho do Ministério Público Estadual (MPE).

De acordo com a denúncia do Gaeco, Rodrigo de Marchi exercia, por força de portaria, a função de ordenador de despesas na Setas.

Em uma das gravações, ele e Vanessa Rosin Figueiredo, então secretária-adjunta da Setas, pedem a Ricardo Mário Ceccarelli entre R$100 mil e R$ 150 mil, ou 10% do valor do convênio, para firmá-lo com o Indesp (Instituto de Desenvolvimento Profissional) - em vez de fazê-lo com outra empresa.

Em outra conversa gravada, segundo o Gaeco, Marchi pediu a Nilson da Costa e Faria, também suspeito de participar do suposto esquema, que lhe pagasse duas duplicatas - uma delas no valor de R$ 4.663,84 e, outra, no valor de R$ 3.529,95.

Viagem à Europa

“Há anotações nos autos, feitas pelo responsável financeiro da organização, registrando que para Rodrigo foram destinados valores de propina como, por exemplo, os escritos juntados aos autos em que se lê: 'RODRIGO – ganha tempo: 80.000; Projovem – 50.000,00; 1º Parcela Lotérica - 48.000,00; 2º Parcela Lotérica – 128.000,00 - R$306.000,00'”, relatou o Gaeco.

Segundo o procurador e os promotores de Justiça, também consta na contabilidade informal a anotação de que o empresário Paulo Cesar Lemes, acusado de comandar a organização, pagou propina para Rodrigo de Marchi, no valor de R$10.700,00. 

Em outros áudios, segundo o Gaeco, Rodrigo de Marchi e Vanessa Rosin Figueiredo pediram e receberam ofertas de propina de outros fornecedores da Setas.

“Como é o caso dos áudios em que Alex, da Sal Locadora, oferece a Rodrigo e toda à família o custeio de uma viagem de férias, de 15 dias, à Europa”, diz o Gaeco. 

"Voyage de presente"

Em outro áudio, obtido pelo Gaeco, Marchi pede a Rodrigo, da mesma locadora, um veículo modelo Voyage, “de presente”. 

“O veículo teria que ser comprado em nome de uma pessoa, indicada por Rodrigo, visando facilitar, depois, a venda do bem e a ocultação do dinheiro, visto que Rodrigo estava precisando de numerário para pagar uma dívida”, diz o Gaeco.

Segundo a investigação do Gaeco, em outro áudio, Rodrigo entrou num veículo e tratou a destinação e distribuição de um envelope cheio de dinheiro, oriundo de propina paga.

"Rodrigo determina a Caio que divida o numerário com o pessoal da SAD (a apurar), mas não antes de revelar que teriam mais quatro parcelas para receber e uma (de R$130.000,00) deveria ficar com uma determinada pessoa, e as outras três deveriam ir até o gabinete da Setas para ser repartido", diz trecho da denúncia.

Segundo os membros do Gaeco, os áudios são mencionados "para demonstrar como era tratada a coisa pública lá na Setas, principalmente para, no momento da fixação da pena base, serem levados em consideração para aquilatar o grau de culpabilidade e propensão criminosa de Rodrigo de Marchi e Vanessa Rosin Figueiredo".

Os membros do MPE pedem que as gravações sejam compartilhadas com a Delegacia Fazendária, "com intuito de se apurar em todas as suas circunstâncias cada fato referido nessas gravações e em outras constantes dos CDs juntados”.

Outro lado

A reportagem tentou contato com Marchi e Vanessa Figueiredo, para ouvir suas versões sobre as acusações do Gaeco. Marchi não foi localizado.

Já Vanessa Rosin Figueiredo foi localizada por meio de seu telefone celular. Ela disse que tem conhecimento da denúncia e está organizando sua defesa.

"Eu prefiro, por enquanto, não comentar esse assunto. A denúncia foi feita e tudo está na Justiça", disse.

 

 

Da Redação

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