20/02/2015 - Mais Médicos: 'Sabemos que 90% das doenças são psicossociais', diz médico venezuelano

São Paulo – Com 22 anos de experiência e três cursos de mestrado, inclusive em atenção básica, o médico cubano Rodolfo Garcia Baluja chegou ao Brasil em 24 de agosto de 2013, na primeira turma do programa Mais Médicos. Dois meses depois, com o colega Rolando Mustelier Viscay, com sete anos de profissão, ele chegou a Nossa Senhora das Dores, no agreste de Sergipe. Foram recepcionados em ato público, com a presença de autoridades, na Praça Marechal Deodoro da Fonseca, no centro da cidade. O clima era de festa, com a participação de moradores.

Na ocasião, o prefeito Fernando Lima da Costa (PDT) chegou a dizer que a chegada dos dois médicos era a grande oportunidade de avançar na saúde pública, já que 80% das necessidades de saúde da população podem ser resolvidas no atendimento básico, ou seja, no próprio município.

Rodolfo seguiu então para o povoado de Gado Bravo Sul, a 20 quilômetros da sede do município, e ali passou a realizar ações voltadas à promoção da saúde de pessoas de todas as idades: atividade física, palestras sobre nutrição, planejamento familiar, saúde da gestante, apresentações em escolas para alunos e professores.

Até hoje, antes de iniciar as consultas na Unidade Básica de Saúde, coordena atividade física com idosos. O grupo que começou com dez pessoas já reúne 50. "Os problemas de saúde mais recorrentes são os relacionados ao trabalho. Lombalgia, dores musculares, exposição excessiva ao sol e parasitoses devido à falta de saneamento e má qualidade da água. Alcoolismo e doenças crônicas também são comuns, como diabetes e hipertensão", explicou o médico, em simpósio realizado pela Faculdade de Medicina da Unifesp no último dia 11, que contou com apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), para discutir com estudantes, médicos, agentes comunitários de saúde, gestores municipais e usuários do sistema público os avanços, desafios e as perspectivas do Mais Médicos.

“São pessoas muito carentes. Não se alimentam bem; existe muita verminose. Agora, com o trabalho, estamos conseguindo mudar os hábitos de higiene pessoal e estimular uma alimentação saudável”, comentou o cubano. “É uma população carente de água. Eu falo da origem da água e explico que tudo tem que estar bem limpo, tem que saber se a água é boa. Como tem muito verme aqui, não adianta apenas tratar as pessoas para depois elas contraírem de novo a enfermidade pela água. Estamos trabalhando muito com essa questão da educação”, diz Rodolfo.

Necessidades

O venezuelano Juan Martin Esteves Guillen, que chegou na segunda turma dos médicos estrangeiros, em dezembro de 2013, conta que foi recebido com muito carinho e alegria, o que aumentou sua responsabilidade. "Nosso sistema de saúde, na Venezuela, é diferente. Mas as necessidades da população, de ser acolhido, ser cuidado, é sempre a mesma em todo o mundo.”

Ele relata que logo depois que chegou à UBS Parque Bristol, Sacomã, bairro da zona sul da capital paulista, a demanda por atendimento emergencial foi diminuindo na AMA anexa devido ao trabalho na área de atenção básica, preventivo. “Não é só clínico, é também social. Sabemos que 90% das doenças são psicossociais, com inúmeras determinantes sociais. Em vez de cura e reabilitação, podemos prevenir. E isso eu tenho aprendido aqui”, diz.

O Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) do Parque do Xingu se estende pelo nordeste de Mato Grosso, nos municípios de Peixoto Azevedo, Marcelândia, São José do Xingu, São Félix do Araguaia, Querência, Feliz Natal, Gaúcha do Norte, Paranatinga e Canarana. Ali o cubano Ariel Navarro, com outros cinco cubanos, percorre aldeias fazendo palestras sobre saúde com a ajuda de agentes comunitários indígenas, imprescindíveis na comunicação.

"As doenças que mais afetam os indígenas são as verminoses, diarreia. Precisamos ensinar hábitos de higiene. Visitamos as aldeias, fazemos em média um parto por mês porque as mães não querem ir à cidade. A distância é um desafio", diz Ariel, que considera um grande avanço a recente inclusão do indígena no sistema de saúde. O médico já atuou na África, na Bolívia e está agora no Xingu.

Há 34 territórios semelhantes em todo o país. De acordo com a Universidade Federal de São Paulo, que coordena projetos nessas regiões, durante muito tempo não havia médicos mesmo com a disponibilidade de recursos financeiros. Contratados com salários acima da média, os profissionais ficavam por pouco tempo.

Na região rural de Corumbá (MT), a 70 quilômetros da sede do município, a cobertura da atenção básica era menor de 50% antes da chegada dos médicos cubanos, conforme a Secretaria Municipal de Saúde. O índice ultrapassou 70%. O médico que ia ao centro de saúde uma a duas vezes por semana, somente para consultas agendadas, hoje está à disposição da população a semana toda. Ao todo, são 25 profissionais em todo o município.

"Nosso projeto é criar vínculos entre a equipe de saúde e a comunidade. Deixamos os consultórios e vamos à casa das pessoas, em consultas agendadas pelos agentes. Vemos as necessidades de cada família, as dificuldades até para ler um receituário", diz o Macedônio Yony Garay Rueda. "Agora, o médico não vai mais embora. Ele fica na comunidade."

 

 

 

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