21/06/2015 - Pecuária sustentável dá dez vezes mais lucro que a predatória no Mato Grosso

A pecuária é um dos grandes responsáveis por desmatamentos na Amazônia e por emissões de gases que agravam o efeito estufa. Imagine como seria importante se uma fazenda emitisse metade do volume desses gases que a média e se colocasse três vezes mais bois a cada hectare de pastagem. Imagine também se, enquanto isso, essa fazenda aumentasse dez vezes sua margem de lucro. Não precisa ficar só na imaginação porque isso é possível e já acontece em algumas propriedades no município de Alta Floresta, que detém o quarto maior rebanho de bovinos do estado do Mato Grosso.

Um relatório do Programa Novo Campo mostra a experiência e os resultados de seu projeto piloto que acompanhou seis propriedades de gado de corte. O programa é uma iniciativa do Instituto Centro de Vida, em parceria com a Embrapa, o Imaflora, entre outros. As fazendas participantes passaram por um novo modelo produtivo baseado em boas práticas agropecuárias e demonstram que o modelo vigente – de pouca tecnologia e baixa produtividade – pode ser revertido.

Essas fazendas passaram por treinamento de mão de obra e recuperação de áreas degradadas. Dessa forma, o capim que serve de alimento ao gado cresce com mais força, fertilidade e nutrientes, evitando áreas abandonadas e sem aproveitamento. O gado recebeu suplementos nutricionais para ficarem mais saudáveis e resultarem em carne de melhor qualidade. Bebedouros foram construídos para o gado matar a sede sem precisar ir aos rios e fontes próximas. Essa é uma medida importante para evitar que os animais pastem pelas áreas de preservação permanente, que ficam nas margens dos rios e devem ser protegidas segundo o Código Florestal. E também porque estudos apontam que o gado ganha peso em função da disponibilidade de sombra e de água. Os bovinos de corte conseguem ganhar 29% a mais de peso médio diário quando têm água de qualidade disponível em bebedouros.

As fazendas que aderiram ao Programa Novo Campo tiveram entre 10% e 15% de suas áreas destinadas a uma experiência paralela: a rotação da pastagem. Isso consiste em separar o pasto em seis áreas cercadas e permitir que o rebanho paste em apenas uma delas de cada vez por poucos dias. Assim, o capim que está descansando pode crescer com vigor até servir de alimento novamente.

Sem aumentar nenhum metro quadrado de suas áreas, os pecuaristas conseguiram melhorar o aproveitamento da ocupação da terra. A taxa média de lotação no Mato Grosso é de 0,76 boi por hectare e em Alta Floresta, de 1,22. Já nas fazendas do programa, chegou-se a ter 1,6 boi por hectare e, nas áreas com rotação de pastagem, 2,7 boi por hectare. A produtividade obtida foi de 11 arrobas por hectare ao ano, sendo que 1 arroba equivale a 15 quilos de carcaça bovina. Nas áreas intensificadas, os pecuaristas alcançaram 21 arrobas por hectare. Para se ter uma ideia do avanço que esses números representam, a média da pecuária tradicional no estado é de apenas 4,5 arrobas por hectare. O aumento da lucratividade, que passou de R$ 100 por hectare para quase R$ 974 foi o resultado que mais surpreendeu os pesquisadores envolvidos na iniciativa.

A expansão da pecuária na Amazônia de forma extensiva e com baixa tecnologia também está associada a maior emissão de gases de efeito estufa, pois quanto mais tempo o gado demora ir para o abate, mais emissões ele gera.  A intensificação permite que o tempo de abate caia de quatro para dois anos e que as emissões sejam reduzidas pela metade, no mesmo período de tempo.

Segundo os pecuaristas parceiros do programa, a principal dificuldade para adotar um novo modelo produtivo é mudar uma cultura e uma visão de negócios que está estabelecida e é praticada há muito tempo. Também falta assistência técnica na região que auxilie os pecuaristas a atuar na gestão da atividade. Programas como o Novo Campo chegam a esses fazendeiros justamente para ajuda-los e para provar as vantagens de uma pecuária mais sustentável.

 

 

Escrito por THAÍS HERRERO /ÉPOCA

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