21/03/2016 - "A ida do Lula para o ministério é um desrespeito à sociedade"

21/03/2016 - "A ida do Lula para o ministério é um desrespeito à sociedade"

As crises política e econômica pelas quais o Brasil atravessa será o divisor de águas na carreira de muitos políticos país afora. O caldeirão em que se transformou Brasília ferve a cada dia e, quem não consegue se posicionar no jogo político, é sumariamente condenado à fervura.

 

Mas a crise que lá se desenrola tem um aspecto mais importante do que as carreiras de nossos notáveis representantes. Sem o repasse de muitos convênios federais, governadores e prefeitos também estão sofrendo e as administrações locais só tendem a piorar quanto mais tempo durar a indefinição em Brasília.

 

O governador Pedro Taques já está sentindo isso na pele e vem se posicionando duramente contra a administração petista. Segundo ele, a crise política vem se agravando a cada dia no país em razão do “recorrente desrespeito às instituições” por parte do Governo petista. “A administração petista levou o Brasil para um local que se assemelha às piores repúblicas bananeiras latino-americanas", afirmou,

 

 

Mas a forma dura e veemente como ele critica o governo do PT e a gestão federal também não deixa dúvidas: Taques não quer ser mais um na política nacional. Praticamente tudo o que ele diz, e faz como governador, serve para o público local. A palavra, ou o gesto, tem sempre uma mensagem que pode ecoar para além de Mato Grosso.

 

No dia 9 de novembro do ano passado, uma segunda-feira, o governador Pedro Taques (PSDB) foi o entrevistado da noite no tradicional programa Roda Viva, da TV Cultura, em São Paulo. O programa é hoje pouco assistido, mas a audiência é qualificada. Pedro Taques viajou a São Paulo ainda no sábado, porque passaria o domingo e a segunda estudando para se sair bem na entrevista.

 

O episódio ilustra uma característica bem acentuada no governador, desde os tempos de procurador da República: o perfeccionismo. Mas mostra também uma estratégia: Pedro Taques quer que seu discurso vá muito além das fronteiras do Estado de Mato Grosso – e isso já está ficando mais do que flagrante.

 

A carreira política meteórica e certeira já deixou os inimigos políticos em alerta: não se pode subestimá-lo. “Mato Grosso tem que se impor pela sua potência econômica e pelo trabalho do seu povo”, diz Pedro Taques nesta entrevista exclusiva ao MidiaNews, ao justificar por que foi o único governador a questionar a presidente Dilma Roussef (PT), em uma reunião em Brasília.

 

Os planos e as estratégias para o médio-longo prazo ele não diz. Mas, quaisquer que sejam eles, dependem que a atual gestão do Estado consiga reverter a situação de arrecadação baixa, alta criminalidade, índices educacionais entre os piores do Brasil, crise na saúde e demandas crescentes por saúde e infraestrutura.

 

“O cidadão nos cobra mais entregas”, diz o governador que, confessa, não dá sossego aos secretários.

 

Nesta entrevista, além de confirmar em primeira mão que vai retomar a polêmica obra do VLT Cuiabá/Várzea Grande, Pedro Taques mostra o quão indignado está com o governo federal e conta o que está fazendo para “entregar” mais.

 

Confira os principais trechos:

 

MidiaNews – Politicamente falando, o Brasil chegou ao fundo do poço?

 

Pedro Taques - O Brasil não está no fundo do poço. Mas a administração petista levou o Brasil para um local que se assemelha às piores repúblicas bananeiras latino-americanas, tamanha a falta de respeito às instituições. Veja nessas últimas conversas o que a presidente da República falou, o que o ex-presidente da República e hoje presidente ‘emérito’ Lula falou. Essas conversas mostram uma forma não-republicana de fazer política. O governo petista desrespeita o Poder Judiciário, o Ministério Público e, sobretudo, desrespeita as instituições. Agora, a vida do brasileiro é uma consequência da incompetência do governo federal.

MidiaNews – Como o senhor vê o atual momento econômico?

 

Pedro Taques - O momento econômico é uma consequência da incompetência e da irresponsabilidade. Se você tem falta de confiança, falta de credibilidade, falta de fé naquele que está liderando o processo, a economia vai mal. Veja que o mercado aposta sempre contra o governo. A partir do momento em que a presidente da República abre mão de seus poderes e coloca o ex-presidente para ser chefe da Casa Civil, ela está criando um parlamentarismo à brasileira. Ela está abdicando de seu poder. E isso só ocorre em repúblicas de banana, sem qualquer credibilidade.

 

Enquanto o mundo todo vai bem e existe liquidez no mercado internacional, equívocos na condução da política econômica por parte da União, como a utilização da Petrobras e da conta petróleo como instrumentos de política eleitoral e desonerações sem levar em conta o equilíbrio fiscal, nós chegamos a esse ponto. Tudo isso para ganhar a eleição. Fez-se o diabo para ganhar a eleição, como a própria presidente disse. O resultado é que o Brasil e, por consequência, muitas empresas brasileiras perderam o grau de investimento – o que significa que os fundos internacionais não vão investir aqui. Enquanto o mundo tem dinheiro, nós assistimos a uma fuga de capitais.

 

Hoje o governo federal gasta muito e gasta mal. Precisa cortar ministérios, vender ativos, para daí melhorar a receita – e não, em um momento de crise, aumentar os impostos, porque a nossa carga tributária já é elevada.

 

Marcus Mesquita/MidiaNews

Pedro Taques

MidiaNews – Como governador, o senhor pretende agir politicamente em relação à situação política nacional?

 

Pedro Taques - Eu tive o voto de 58% da população mato-grossense contra esse tipo de coisa que está aí. Eu tenho conversado com outros governadores, com nossa bancada federal na Câmara e no Senado e com o PSDB, para que se posicione nesse momento e continuar a pressionar. Aliás, eu fui o primeiro governador a se posicionar favorável ao impeachment. Eu não sou “maria-vai-com-as-outras”. Eu fui o primeiro a se posicionar e a sociedade mato-grossense sabe disso. E de todo o Brasil, eu fui o único governador que, na reunião com a presidente da República, disse a ela que ninguém está acima da lei. Que a lei não serve para prejudicar os inimigos e beneficiar os amigos.

 

Nós, políticos, é que precisamos entender que o político tem relativizada a sua intimidade, a sua privacidade. Isso significa que é preciso entender investigações e que as instituições têm que funcionar. Se eu não entendo isso, eu sou autoritário, eu quero uma ditadura – e é exatamente isso que vem acontecendo no governo federal. Fizeram críticas ao Supremo Tribunal Federal, críticas ao Superior Tribunal de Justiça e ao procurador-geral da República, além de ameaças veladas a membros do Poder Judiciário. Isso só existe em ditaduras, em momentos de exceção.

 

MidiaNews – Muitos criticaram o seu posicionamento nessa reunião da presidente Dilma com os governadores, dizendo que ele pode ser prejudicial a Mato Grosso.

 

Pedro Taques - Esses são os covardes, que só criticam. Eu não vou vender a minha consciência por meia dúzia de dinheiro. Mato Grosso tem que se impor pela sua potência econômica, pelo trabalho do seu povo. Esses outros, eu não preciso convencê-los e nem quero convencê-los.

 

MidiaNews – O senhor acredita que outros políticos importantes do PSDB pensam da mesma forma, já que o partido é famoso por estar quase sempre “em cima do muro”?

 

Pedro Taques - Bem, eu tenho feito esses debates dentro do PSDB, dizendo que o partido tem que se posicionar mais. E tem se posicionado. O PSDB é um partido que está na frente dos debates e é favorável ao impeachment.

 

MidiaNews – Como o senhor vê a eventual ida do Lula para a Casa Civil? Pode funcionar para o governo?

 

Pedro Taques - A ida do Lula para o ministério é um desrespeito não só à sociedade brasileira, mas é um desrespeito às instituições, menoscabando e violando a instituição que é a Presidência da República. Não se abre mão de poder. Se ele virar ministro, a presidente da República vai funcionar mais ou menos como uma rainha da Inglaterra. Manda e ninguém obedece. Porque o Lula é um político mais forte do que ela. Mas a eleita foi ela.

 

MidiaNews – O senhor considera que o juiz federal Sérgio Moro agiu corretamente ao determinar o fim do sigilo do processo contra Lula e dar publicidade às gravações das conversas dele feitas pela Polícia Federal?

 

Pedro Taques -- Juridicamente correto. Absolutamente correto. As interceptações foram autorizadas judicialmente, de acordo com a Lei 9.286/96. O Lula não tem prerrogativa de função. “Ex-autoridades” não têm mais prerrogativa de função, desde que a Súmula 384 do Supremo Tribunal Federal foi cancelada. Portanto, ele pode ter seu terminal telefônico interceptado. Agora, se ela ligou para um telefone interceptado, não existe aqui um encontro fortuito. Existe o fato de que ela ligou para alguém que está sendo investigado. Agora, o fato de estar sendo investigado, não quer dizer que seja culpado. Existe o princípio da presunção de inocência, que faz parte do devido processo legal. Mas uma coisa é fato: a interceptação foi absolutamente legal e quem diz o contrário não sabe do que está falando. Além disso, quando a interceptação termina, a partir do momento em que Lula passou a ser ministro, cessa a competência do juiz Sérgio Moro e o Supremo passa a ser competente para julgar. A partir daí, não há mais razão para a manutenção do sigilo.

MidiaNews - Há quem diga que foi uma atitude política do juiz, que poderia até causar uma convulsão social, com graves consequências.

 

Pedro Taques - Eu entendo e respeito essas críticas, mesmo que não concorde. Mas aqueles que estão no poder, no governo federal, não aceitam críticas. Eles são sempre melhores do que os outros. Fazem o discurso do “eles contra nós”. Mas foram eles que nos colocaram nesse momento histórico, difícil, em que se segregam, se separam brasileiros.

 

MidiaNews – Vamos supor então que o ex-presidente Lula reverta sua situação no STF e consiga se tornar ministro-chefe da Casa Civil. Ele certamente quererá conversar com governadores para buscar apoio para o governo federal. O senhor conversará com ele?

 

Pedro Taques - Sim. Eu não tenho nada pessoal contra o Lula. Agora, eu teria com ele uma conversa republicana, não uma conversa de boteco, como foram as que ele teve recentemente, ao telefone.

 

MidiaNews – O senhor acha que hoje ele teria força política para argumentar a favor do governo?

 

Pedro Taques - Não sei. Eu não faço juízo de adivinhação sobre a ação dele. Mas, falando por mim, eu como governador tenho que tratar as autoridades com respeito. Mesmo que eu entenda que elas tenham praticado atos ilícitos. Isso faz parte da democracia. Agora, o artigo 2º da Constituição fala que os Poderes são independentes. Em nenhum momento fala que presidente da República manda em governador, ou que governador manda em prefeito. Portanto, eu não devo obediência à presidente da República. Eu devo obediência à minha consciência e ao povo que me elegeu.

 

MidiaNews – Que razões o senhor vê para o impeachment da presidente?

 

Pedro Taques - Há várias razões para o impeachment. O crime de responsabilidade está previsto nos artigos 85 e 86 da Constituição, e a presidente da República violou as prerrogativas do cargo. No momento em que ela entrega para um portador a missão de levar um ato de nomeação para um futuro ministro, ficou patente que o motivo era fugir do Poder Judiciário. No momento em que você tenta dar fuga a um cidadão que é procurado ou pode vir a ser procurado pela Justiça, você comete crimes. A Constituição não diz que o presidente não pode ser investigado em todas as ordens. O artigo 86 diz que o presidente só pode ser investigado por atos praticados em razão do exercício da função. E esse ato foi em razão do exercício da função.

MidiaNews – Havendo o afastamento da presidente em razão do processo de impeachment, assume o vice Michel Temer (PMDB). O senhor acha que ele e o PMDB têm condições de conduzir o país nesse cenário de crise?

 

Pedro Taques - Eu tenho uma relação com o Michel Temer que já vem de longe. Eu fui procurador do Estado de São Paulo, o Michel Temer foi meu examinador de Direito Constitucional, foi meu chefe, ele que me deu posse e foi meu professor. Então minha relação com ele é desde que eu tinha 23 anos de idade. E depois que eu assumi o Governo do Estado nós já conversamos umas quatro ou cinco vezes.

 

MidiaNews – Mas ele teria condições de conduzir o país?

 

Pedro Taques - Nesse momento, é importante que a Constituição seja cumprida, certo? O que nós não permitimos é golpe, é esvaziamento do poder da Presidência da República. Pois o que estamos assistimos é um golpe à brasileira. Foi mais ou menos o que ocorreu com o Costa e Silva [marechal e presidente da República entre os anos 1964 e 1966, época da Ditadura, que antes de terminar o seu mandato foi substituído por uma “Junta Governativa Provisória”]. Houve um golpe interno. Onde já se viu alguém que não foi eleito ser mais forte do que aquele que foi eleito?

 

MidiaNews – Na delação do senador Delcídio Amaral ele cita o nome do presidente do seu partido, o senador Aécio Neves, como tendo uma conta secreta no paraíso fiscal de Liechtenstein. Como o senhor viu essa acusação?

 

Pedro Taques - Eu entendo o seguinte: a delação é um instrumento muito valioso no processo penal. Agora, ela tem que ser comprovada. Se alguém fala do Aécio, esse fato tem que ser investigado. Se fala do Papa Francisco, tem que ser investigado. Se fala de mim, tem que ser investigado. Sem pré-julgamentos. Mas tem que ser demonstrado. Se você diz que “fulano” recebeu dinheiro, você tem que comprovar que o dinheiro foi entregue.

 

MidiaNews – Não criou nenhum constrangimento dentro do partido?

 

Pedro Taques - Por causa disso, nem um pouco. Constrangimento, todos nós, políticos, estamos passando diante do que está acontecendo na República.

 

MidiaNews – O Brasil vive hoje uma crise econômica, que o senhor acredita advenha da crise política. Nesse cenário, como estão as finanças do Estado de Mato Grosso?

 

Pedro Taques - O cenário é o seguinte: a União diminuiu os repasses para o Estado de Mato Grosso e para outros Estados, em razão da crise. Se você vende pouco, se exporta pouco, cai o FPE (Fundo de Participação dos Estados). Alguns cálculos e convênios chegam a 70% de diminuição neste ano, se comparado aos dois primeiros meses de 2015. Isso é fato. E a arrecadação de ICMS nos dois primeiros meses deste ano, em razão da equalização das pautas, ou seja, alguns frigoríficos pagavam mais, outros menos e nós fixamos a alíquota em 2%, não aumentou.

 

E tem mais: nós encontramos o Estado em uma situação financeira difícil, com restos a pagar, déficit orçamentário, o orçamento era uma peça de ficção. Então nós vamos fazer o seguinte este ano: gastar apenas o que nós temos. Que é o pai e uma mãe de família fazem, caso contrário vão se endividando. Temos diminuído o déficit orçamentário e cortado gastos de custeio, como em energia, combustível, aluguel de carros, passagens.

 

MidiaNews – Diante dessa necessidade de corte de gastos, como o senhor está lidando com a pressão de sindicatos de servidores, que pedem aumentos salariais e realização de concursos?

 

Pedro Taques - O servidor é importante para que o Estado possa concretizar as políticas públicas. E é legítimo que ele defenda aumento e melhoria das condições de trabalho. O que não é possível é a greve política. Quantas vezes o Detran entrou em greve? Entrou em greve para combater a corrupção? Não. Para melhorar o atendimento? Não.

 

MidiaNews – A sensação que se tem é que o atendimento do Detran piorou muito nos últimos anos.

 

Pedro Taques - E eu concordo com você. Apesar do trabalho que vem sendo muito bem feito pelo doutor Rogers Jarbas e sua equipe, ainda não está do nível que nós desejamos. Infelizmente, em alguns momentos, ele é boicotado ali dentro. Mas já está organizando a gestão, combatendo a corrupção e logo veremos resultado. Eu não fui eleito para um ano e três meses: eu fui eleito para quatro anos. Mas eu reitero que ali é um caso à parte, porque é uma questão política.

 

Os servidores públicos têm direitos que precisam preservados. Mas nós vivemos um momento de crise. A maioria dos Estados não está conseguindo nem pagar salários. Então, nós, governo e servidores, temos que ter um acordo neste momento. Aliás, nós já conversamos várias vezes com o Fórum Sindical, eu entendo legítimo esse tipo de debate e não tomaremos nenhuma decisão sem comunicá-los. Em relação a concurso, nós precisamos, sim. Existem poucos policiais, poucos servidores na Saúde, agora, a lei de Responsabilidade Fiscal é o limite, e eu não vou desobedecer a lei.

 

MidiaNews – Mas o Estado está desobedecendo a Lei de Responsabilidade Fiscal, não está?

 

Pedro Taques - Hoje estamos desobedecendo. Já diminuímos um pouco [o limite ultrapassado], mas ainda falta diminuir mais.

 

MidiaNews – A sua gestão talvez seja a que contratou mais policiais...

 

Pedro Taques - 1.952 policiais.

 

MidiaNews – E por que a sensação de insegurança piora a cada dia, com assassinatos sendo cometidos à luz do dia, em avenidas movimentadas da capital?

 

Pedro Taques - Se você notar o índice de homicídio, nós conseguimos estancar o viés de crescimento. O número de homicídios diminuiu. Roubos de celulares aumentaram, sim. Agora, em se tratando de crimes, se se mata uma pessoa na Avenida do CPA, como recentemente ocorreu, isso desassossega a sociedade, o que é compreensível. Agora, o trabalho que o doutor Fábio Galindo e os comandantes das forças vêm fazendo é digno de elogio, mas nós temos a criminalidade crescendo no Brasil todo, migrando mais para o roubo. Nós temos feito um trabalho de inteligência, aparelhando a polícia e confiamos nas nossas tropas.

 

A União não faz as tratativas necessárias com o governo boliviano para combater o tráfico de drogas

MidiaNews – O tráfico de drogas é notadamente o fomentador de outros tipos de crimes. O que o governo tem feito para reforçar a segurança na fronteira de Mato Grosso?

 

Pedro Taques -Veja que a fronteira é de responsabilidade da União. A União não faz a parte dela, sobra para o Estado, via Gefron. Veja você: nós temos muito poucos policiais federais atuando em Cáceres. Nós precisamos de muito mais, precisamos das Forças Armadas atuando naquela região. De nossa parte, o Gefron está sendo fortalecido, com mais homens, mais técnica e mais equipamentos. Agora, a responsabilidade da fronteira é da União. Ninguém produz cocaína em Mato Grosso. Ela vem da Bolívia, que é o maior exportador mundial de cocaína. E a União não faz as tratativas necessárias com o governo boliviano para combater o tráfico de drogas lá.

 

MidiaNews – Outro setor que parece não ter uma solução tão cedo – e nem tão simples – é o da Saúde. Por que o sistema é tão vulnerável, que basta um atraso de repasse para ameaçar o fechamento de hospitais – e com greves frequentes, que sempre levam o caos ao atendimento?

 

Pedro Taques - O atraso recente no repasse aos hospitais filantrópicos [de Cuiabá] não foi responsabilidade do Estado, certo? Foi do Município. A grande questão ali era que os hospitais precisavam prestar contas do que estavam fazendo, antes de receber. Porque não se pode repassar dinheiro sem saber para quem e para onde o dinheiro está indo.

 

Mas falando de Mato Grosso: nós temos sete hospitais regionais no estado e precisamos de mais três. Há 31 anos não se constrói um hospital em Cuiabá. Quando nós assumimos, iniciamos as tratativas para construção do novo Hospital e Pronto-Socorro. São R$ 80 milhões, sendo R$ 50 milhões do Estado. Como a construção demora 24 meses, nós estamos auxiliando o Município de Cuiabá na manutenção do Hospital São Benedito. São R$ 2 milhões por mês. Esse hospital atende cerca de 60% de pacientes do interior, dependendo da especialidade. Já o novo Pronto-Socorro atenderá no mínimo 40% de pessoas do interior.

 

Outra coisa: há 31 anos a obra do Hospital Central estava parada. Nós já iniciamos ali a construção da “Cidade da Saúde”. Estamos também auxiliando Várzea Grande no setor da Alta e Média Complexidade, com R$ 1 milhão – além de mais R$ 800 mil ao Pronto-Socorro de Várzea Grande, porque ele também atende muita gente do interior. A União não está fazendo isso.

 

Em relação a gestão, temos três modelos que estão sendo ou serão testados: organizações sociais, porque não se pode generalizar, já que existem organizações sociais sérias; a criação de uma empresa mato-grossense de administração hospitalar, nos moldes da Empresa Cuiabana de Saúde; e o último, através de consórcios. Esses modelos vão competir para saber qual vai dar o melhor atendimento. Mas tudo isso com controle social.

 

Vamos investir também em saúde preventiva, porque a curativa é a mais cara. Já autorizamos o aumentando do repasse para que os Municípios contratem mais agentes comunitários de saúde, está faltando apenas a edição de um decreto, que regulamenta a lei. Muitos municípios não têm uma boa cobertura de atendimento do Programa de Saúde da Família. Lucas do Rio Verde tem 94% de cobertura do PSF, mas há aqueles que têm 19%, até 12% de cobertura.

 

A solução para a Saúde é compartilhada, mas infelizmente a União tem repassado muito pouco. E os municípios estão sem dinheiro para investir.

MidiaNews – A Saúde seria o pior setor do Governo, hoje?

 

Pedro Taques - Em razão de sua própria natureza. Apesar do trabalho do secretário Eduardo Bermudez, ainda não está no ponto que nós desejamos. A saúde é cara e complexa no mundo todo, mas ela precisa avançar mais e eu reconheço isso.

 

MidiaNews – Em relação a Educação, por que houve tanto problema no início do ano letivo deste ano?

 

Pedro Taques - Nós temos 753 escolas e 412 mil alunos em todo o estado. Nós tivemos 27 escolas com problemas. Ou seja, 3,5%, apenas. Nós temos 39 mil profissionais da educação em Mato Grosso, sendo 22 mil professores e, destes, 12 mil são contratados. Precisamos fazer concurso, mas nós não temos condições agora, em razão da lei. Pois bem, em relação a esses professores contratados, existe um programa de atribuição de aulas, que é por pontos. Antes, o que tinha valor era o tempo de contrato do professor, e nós mudamos isso. As aulas eram atribuídas nas escolas, o que poderia gerar pessoalidade na contratação dos professores. Nós centralizamos isso, para que tivéssemos uma melhor atribuição de aulas. E o resultado foi que tivemos 45% de novos professores, que foram aqueles que tiveram mais pontos.

Também investimos em aulas de reforço para a Prova Brasil, preparando 25 mil alunos. Distribuímos 800 mil camisetas e implantamos um novo sistema de indicadores educacionais, para não ficar dependendo só do Ideb. Tudo isso logo começará a dar resultados.

 

MidiaNews – Em relação a infraestrutura. Existe uma crítica de que o senhor estaria apenas continuando obras já contratadas pela gestão anterior – e pagando empreiteiras com suspeita de desviar recursos públicos.

 

Pedro Taques - Mato Grosso tem 5.600 quilômetros de rodovias pavimentadas. Quando assumimos, a Federação Nacional dos Transportes disse que 82% dessas estradas estavam em péssimas condições. E nós precisamos de mais 10 mil quilômetros de estradas. Para isso, eu preciso de R$ 10 bilhões. E eu tenho esse dinheiro. Em 2013 e 2014, o governo passado fez 567 quilômetros de estradas; nós, em 2015, fizemos 579 quilômetros. Ou seja, em um ano nós fizemos o que eles fizeram em dois. Outro ponto: os recursos são de programas do governo federal e eu não posso interrompê-los.

 

E fala-se muito do MT Integrado. Mas esse programa só entregou 22 quilômetros de estradas. Da BR-158 à Canabrava do Norte. Isso é uma vergonha. Já o nosso governo entregou mais – e mais barato. Em pontes, por exemplo, nós economizamos mais de R$ 41 milhões. Porque faziam ponte onde não tinha rio e faziam ponte onde já tinha ponte ou bueiro celular.

 

Nós também apresentamos modificações no Fethab, sem que os Municípios perdessem um real. Nós repassamos a eles, no ano passado, R$ 256 milhões, para que eles tratassem da manutenção das estradas não pavimentadas. E criamos ainda o fundo regional do Fethab, que em sete anos vai chegar a R$ 2,7 bilhões. Os produtores só aceitaram isso porque confiam no nosso governo e não confiavam no governo passado. Nós vamos construir mais estradas.

Quanto às empreiteiras, existem contratos que eu tenho que cumprir. Eu não posso perseguir quem eu não gosto e nem beneficiar os amigos. Eu tenho que cumprir a lei. Não posso romper um contrato resultado de processo licitatório. Assim que certos contratos forem sendo extintos em razão do prazo, nós teremos novos processos licitatórios. O problema não é a empreiteira: é a fiscalização do que está sendo feito. Eu inclusive já notifiquei empreiteira por trabalho mal feito. A questão não é a empreiteira, a questão é a bandalheira.

 

Marcus Mesquita/MidiaNews

Pedro Taques

MidiaNews – Por falar em bandalheira: já se descobriu tudo o que havia de supostamente errado na gestão passado, ou ainda há muito a ser desvelado?

 

Pedro Taques - Algumas auditorias ainda não terminaram. E todo servidor que porventura descobrir que havia algo ilícito, ele tem o dever de denunciar. Se você me perguntar: “tem corrupção no seu governo”? Eu não sei, deve ter. Mas nós temos que velar. Temos que buscar combater. E eu confio na polícia, confio no Judiciário de Mato Grosso, enfim, eu confio nas instituições.

 

MidiaNews – Em entrevista ao MidiaNews, o secretário de Estado de Cidades afirmou o VLT Cuiabá/Várzea Grande, para funcionar sem que a tarifa tenha um preço exorbitante, precisará ser subsidiado em até R$ 50 milhões anuais pelo Estado. Dá para seguir adiante sabendo disso?

 

Pedro Taques - Eu não trabalho com hipótese, eu preciso ver o relatório. Tem um grupo de trabalho fazendo esse estudo e, no momento em que terminar, nós faremos uma audiência pública, para apresentar à sociedade. Mas é lógico que nós vamos ter que terminar a obra do VLT.  

 

MidiaNews – O senhor tem dedicado algum tempo às eleições municipais deste ano?

 

Pedro Taques - À noite, sábados e domingos, sim. Converso com muita gente, meu partido me chama para reuniões, eu participo.

 

MidiaNews – Em Cuiabá, como o senhor vê a “disputa” para ser vice do atual prefeito Mauro Mendes, que tem o seu apoio, e as chances de ele ser reeleito?

 

Pedro Taques - Em primeiro lugar, ninguém é candidato a vice, certo? E o segundo ponto: eleição é como garimpo, o resultado só vem depois da apuração. Ninguém é eleito a seis meses da eleição. Então é preciso ter humildade e trabalhar bastante. O Mauro já revelou que é candidato, nosso grupo está junto com ele, mas ainda há o que ser discutido. Dentro do PSDB há quem defenda que nós tenhamos candidato próprio, mas nós estamos tentando construir o nosso apoio.

 

MidiaNews – O secretário da Casa Civil, Paulo Taques, é um dos que poderiam ser vice na chapa de Mauro Mendes?

 

Pedro Taques - Ele nunca conversou comigo sobre isso.

 

MidiaNews – Alguns secretários já manifestaram o interesse de deixar o governo para se candidatar a cargos eletivos.

 

Pedro Taques - Já, já sim.

 

MidiaNews – Quem são?

 

Pedro Taques - Não posso falar, porque eles me pediram segredo...

 

MidiaNews – Quantos são?

 

Pedro Taques - Mais de um.

 

MidiaNews – Muitos membros do seu partido reclamam do “crescimento exagerado” do PSD, o partido do vice-governador Carlos Fávaro. O que o senhor acha disso?

 

Pedro Taques - Bom, eu não sou mangueira. Mangueira é que não gosta que ninguém cresça embaixo dela. Acho que ninguém pode ser mangueira, os partidos têm que crescer.

 

MidiaNews – O veto ao PMDB se estende a todo o estado?

 

Pedro Taques - Não é bem um veto, né? É uma questão de coerência. Veja bem, eu não posso passar óleo de peroba na minha cara, até porque eu não sou cara-de-pau, e desdizer o que eu disse. Agora, se vale para todo o estado é uma discussão do meu partido. Eu não mando no PSDB, eu sou só um militante. Agora, eu subo no palanque que eu bem entender, porque eu sou dono da minha liberdade.

MidiaNews – Recentemente um grupo de jornalistas foi preso por extorsão e surgiu um boato de que um deles teria pedido dinheiro para não falar mal do seu governo. Isso aconteceu?

 

Pedro Taques - Para mim não pediram dinheiro, até porque se tivessem pedido já teriam sido presos antes. Eu não vi as investigações, mas, como existe governador picareta, existe médico picareta e jornalista picareta. Isso é da natureza humana.

 

MidiaNews – Está sendo difícil governar Mato Grosso?

 

Pedro Taques - Não. Difícil é ganhar uma eleição. Eu vejo que nós precisamos andar mais rápido. Aliás, eu já disse isso aos secretários, que nós precisamos de mais resultados, fazer mais entregas. Os secretários estão trabalhando muito, quero ressaltar isso, todos eles: à noite, nos finais de semana, não tenho do que reclamar. Agora, eu entendo que precisamos trabalhar ainda mais. Eu me cobro todos os dias, porque o cidadão quer entregas e, se nós não fizermos as entregas no tempo razoável, isso não está bom para mim. Quem não aguentar isso, pede pra sair.

 

MidiaNews – Alguém já pediu pra sair?

 

Pedro Taques -Ainda não.

 

 

Orlando Morais Jr 
Da Redação

 
 

 

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