21/03/2016 - "Honestidade não é favor, é obrigação; e isso não se anuncia”

21/03/2016 - "Honestidade não é favor, é obrigação; e isso não se anuncia”

“Honestidade não é um favor, é uma obrigação e obrigação não se anuncia. Quando se anuncia, se desconfia. A honestidade precisa ser praticada para a eficiência dos serviços e para repouso de sua consciência”.

 

A declaração é do primeiro governador de Mato Grosso após a divisão do Estado (1979 – 1983), Frederico Campos, que, em entrevista exclusiva ao MidiaNews, fala um pouco sobre a política brasileira, no momento em que grandes escândalos de corrupção são revelados no país.

 

Aos 88 anos de idade, sendo mais 60 ligados à vida pública, o ex-governador afirma que a estrutura da política no Brasil sempre favoreceu a corrupção.

 

“Ruy Barbosa já dizia isso, que tinha vergonha de ser brasileiro, pois tinha vergonha da corrupção que existia no país”, diz ele, ao lembrar-se do estadista e escritor brasileiro.

 

Na avaliação de Frederico Campos, a corrupção é uma “tentação” que leva as pessoas que estão no poder a querer aquilo que não têm em mãos.

“A oportunidade de se ter uma propriedade, um negócio, tudo isso enfeita a ideia de quem conseguiu chegar ao poder. A pessoa se acha no direito de usar e abusar desse poder. Isso está errado”, diz.

 

“Realmente, acho que há necessidade de se modificar as raízes, onde surgem os problemas, para que as próprias tentações que existem também eliminem esse fator como desvio da moral de todo o cidadão que se dedica a causa pública”, completa.

 

Apontado como um político íntegro, Frederico Campos diz se orgulhar de suas gestões à frente do Estado e da prefeitura de Cuiabá, comandada por ele em duas ocasiões.

 

“Foram administrações difíceis, mas muito produtivas. Me orgulho de minhas administrações. Fui prefeito nomeado pelo [ex-governador] Pedro Pedrossian, passei 15 anos trabalhando em São Paulo, onde conheci mais da administração pública, o que favoreceu quando tive oportunidade de retornar ao Estado e ser governador”, disse.

 

“Fui indicado pelo presidente da República e engolido pela Assembleia Legislativa, que teve que homologar. Tive a liberdade de escolher todos os meus auxiliares sem dar explicações a ninguém, montei uma equipe técnica e fizemos uma administração técnica”.

 

Ele falou também do orgulho que sente em relação à forma como atuou em sua carreira política e do fato de ter deixado a vida pública de “mãos limpas”.

 

“Recebi ofertas, mas porque eu haveria de estabelecer privilégios? Da minha parte, nunca pensei em fazer isso. Graças a Deus não tem nada pra falarem de mil nesse sentido”, afirmou.

 

País caótico, legislação falha

Como todo político, Frederico Campos não deixa de acompanhar e faz questão de fazer suas observações a respeito da política brasileira e seus reflexos na economia do país.

 

Em sua avaliação, o Brasil vive uma situação “caótica”. E, para ele, todo esse cenário é fruto de falhas na legislação brasileira.

 

“Tudo o que está acontecendo tem origem, e não culpo só Lula, só Dilma pelo problema. Culpo também a legislação eleitoral brasileira. A mudança de sistema eleitoral, permitindo a reeleição, por exemplo, deu início à bagunça”, disse.

 

“A permanência da pessoa durante muito tempo no cargo favorece coisas boas, mas também coisas adversas. É o que aconteceu no Brasil. Veja o exemplo da Petrobas, uma companhia que dava ao Brasil o status de desenvolvimento social, o status financeiro e hoje está envolvida em uma série de escândalos de corrupção. A Petrobras serviu como apoio à corrupção. O efeito está aí: o Brasil com um caos socioeconômico e todo mundo pagando por isso. Os próprios funcionários humildes que Lula defendeu estão aí desempregados, na rua”, completou.

 

Ele citou ainda a proliferação de “partidinhos” e defendeu o fim das coligações partidárias, o que, segundo o ex-governador, resultaria no fim do “cambalacho de empregos” e evitaria a criação de ministérios e secretarias para poder sustentar os pequenos partidos.

 

Segundo o ex-governador, há a necessidade de ser feita uma correção legislativa no país.

 

 

“O Congresso é responsável, pois o Congresso fez várias modificações, com base nos seus interesses. Agora, eles estão vendo o problema, está na hora de botar a mão na consciência e falar chega, vamos mudar. Esse é meu ponto de vista: não basta chegar e falar ‘Lula é culpado’, ‘Dilma tem que sair’. A legislação também precisa ser mudada”, afirmou.

 

“O Brasil pode, perfeitamente, recuperar seu status social e econômico. Basta que de início se dê uma estrutura de honestidade e de irreversível processo de reforma da estrutura, modificar as leis que perpetuam o direito de o sujeito fazer o que bem entende”.

 

“Faltou humildade a Lula”

 

Durante a entrevista, Frederico Campos também fez críticas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cuja nomeação para a Casa Civil está suspensa por decisão do STF.

 

“O Lula, como líder comunitário, foi um homem feliz, conseguiu estabelecer uma grande liderança. Através de várias batalhas ele chegou lá, no ápice da carreira”, disse.

 

“Só que, na minha visão, ele não estava psicologicamente preparado para chegar ao ponto em que chegou. E, hoje, teima em continuar lá. Faltou humildade pra ele dizer assim: ‘chegou, já dei minha parte. Deixa agora outros fazerem’”, avaliou.

 

Renúncia de Dilma

 

Já em relação a presidente Dilma Rousseff (PT), o ex-governador defende sua renúncia do cargo.

 

Para Frederico Campos, a presidente foi “engolida” pelo próprio partido e, em prol do PT, tem prejudicado a sua própria moral.

 

“Acho que a Dilma, em beneficio do país, deveria ‘pedir demissão’. E não pede por quê? Porque o próprio partido não deixa, o interesse subversivo, o interesse escondido fica ali agregado em um ideal fictício. Acho que ela já está numa posição que, para defender o ideal do partido, ela está sacrificando a própria moral dela”, afirmou.

 

“Então, na realidade, penso que o Brasil tem que sofrer modificação agora. Não apenas de mudar a liderança que está no poder. Mudar a iderança sem mudança na legislação, nós vamos continuar com os mesmos problemas”, disse.

 

Para o ex-governador, Dilma não tem mais condições de se manter na presidência por muito mais tempo.

 

“Eu acho que ela não se sustenta muito tempo mais lá não. Ela está muito, muito, desprotegida. A Dilma não tem mais o que falar para defender sua posição. O Lula falar que é inocente de corrupção, chega a ser brincadeira. A Dilma não acredito que se sustente mais”, afirmou.

 

 

Camila Ribeiro 
Da Redação

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