21/03/2016 - A história por trás do dono de R$ 20 bilhões em barras de ouro

21/03/2016 - A história por trás do dono de R$ 20 bilhões em barras de ouro

Bilionário, excêntrico, não gosta de gastar à toa, dono de uma fortuna de quase R$ 20 bilhões em barras de ouro, possuidor de um território próprio com moeda própria e colecionador de histórias quase que inacreditáveis.
 
Características que facilmente poderiam lembrar o lendário personagem Tio Patinhas, dos estúdios Disney, na verdade definem o empresário Werner Rydl, de 59 anos, que esteve de passagem por Cuiabá, na última semana.
 
Oriundo da Áustria – país em que foi protagonista de um dos maiores escândalos fiscais da história (veja AQUI)  - e naturalizado brasileiro desde os anos 90, Rydl é, no Brasil, o maior detentor individual de ouro (120 toneladas) que, como eternizado pelo bordão do apresentador Silvio Santos, "vale mais do que dinheiro".
 
O empresário veio à capital mato-grossense, nesta semana, para prestar esclarecimentos à Justiça sobre o episódio ocorrido em março do ano passado, quando foi preso (e liberado dias depois) por portar uma barra de ouro sem nota fiscal.
 
Ele relatou que sempre carrega a barra consigo e a classificou de “anjo da guarda”.
 
“Viajo o país e o mundo todo com esta barra de ouro e nunca havia dado problema. Sempre que a barra era descoberta, eu explicava a situação aos delegados. A barra está marcada com o meu CPF”, contou Rydl ao MidiaNews, acompanhado de seu diretor executivo Eugênio Costa.
 
Os dois dias em que ficou preso no Carumbé, aparentemente, não incomodaram o bilionário, que ainda mantém forte sotaque alemão, idioma predominante em seu país de origem, onde moram sua mulher e filhos.
 
“Café da manhã: gratuito. Almoço: gratuito. Jantar: gratuito. Não existe coisa melhor para um milionário”, brincou o empresário sobre a “estadia” no presídio.

 

werner rydl ouro
Um dos depósitos de ouro de Werner Rydl

 

Extradição
 
O pouco-caso de Rydl com o curto período detido em Cuiabá não é sem motivo. Ele passou quatro anos e um mês (2005 a 2009) recolhido no extinto Presídio da Papuda, no Distrito Federal, local onde aguardou um longo e polêmico processo de extradição que tramitou no Supremo Tribunal Federal (STF).
 
A extradição foi pedida pelo Governo da Áustria, que exigia a devolução de Werner Rydl para ser julgado pelos alegados crimes financeiros que teria cometido naquele país, no caso, o não pagamento de cerca de 116 milhões de euros em impostos, no final dos anos 80.
 
O bilionário, no entanto, diz que não pagou os impostos, na época, como um “embargo” ao governo austríaco, que, segundo ele, obrigava os empresários a compactuar com corrupção.
 
“Eu era empresário de construção na Áustria. Eu me recusei a participar desse sistema de pagar propina para receber contratos de obras públicas. A mesma coisa que acontece no Brasil. Então eu promovi um embargo contra o governo austríaco. Eu declarei meu imposto, mas deixei claro que não iria pagar para aquele sistema corrupto. Sonegar é crime, mas eu não soneguei. Eu declarei oficialmente e não paguei, e isso não é crime na Áustria e nem aqui. Não se pode ser preso por dívidas. E o governo passou a me ameaçar por alguns anos. Então vim para o Brasil”, contou.

 

manchete werner
Manchete de jornal austríaco sobre Werner Rydl

 

Em protesto contra a corrupção do governo austríaco, Rydl chegou a queimar 21 milhões de euros em uma praia de Recife, em 2002 (veja o vídeo AQUI).
 
Durante sua prisão na Papuda, Rydl contou que dividiu cela com uma figura “ilustre”: o italiano Cezare Battisti, que havia fugido para o Brasil em 2004 após ser condenado na Itália à prisão perpétua, sob acusação de terrorismo.
 
“Tudo o que publicavam sobre ele [Battisti] eu já sabia antes porque ele me contava na cela. Cezare Battisti foi o primeiro e único comunista de verdade que conheci”, detalhou Rydl.
 
Outra celebridade do crime que Werner Rydl conviveu na penitenciária de segurança máxima foi Fernandinho Beira Mar, líder do Comando Vermelho e considerado um dos maiores traficantes de drogas da América Latina.
 
"Jogava xadrez todo dia com ele, era uma pessoa maravilhosa de conviver. Éramos equilibrados nas partidas. Ele tinha uma altíssima inteligência, mas possuía problemas para controlar seus ânimos. Havia momentos em que ficava muito agressivo”, disse.
 
A permanência do bilionário na Papuda foi encerrada em 2009, quando o STF, após longos debates, autorizou a extradição (veja AQUI). Na Áustria, ele foi absolvido por alguns crimes, outros prescreveram e os delitos em que foi condenado resultaram em três meses de prisão. Após cumprir a pena, voltou ao Brasil.
 
No entanto, ele só foi reconhecido como cidadão brasileiro em 3 de fevereiro de 2015. Nesta data, o então ministro da Justiça e atual advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, assinou oficialmente sua naturalização no país (veja AQUI).
 
Passado o período na cadeia, Werner Rydl relatou que processou o governo austríaco e conseguiu ser indenizado pelo fato de ter ficado mais de quatro anos preso por culpa do pedido de extradição.
 
“Foi um ato de abuso de poder. Ninguém no mundo ficou tanto tempo preso por extradição quanto eu. Na Aústria, consegui direito à indenização pela prisão. Cada dia que fiquei preso na Papuda eu faturei um valor de 9 milhões de euros de indenização, então no final das contas foi ótimo”, acentuou.
 
Território e moeda própria
 
Em 2014, Werner Rydl deu início a um projeto curioso e excêntrico, para dizer o mínimo: a Fundação Seagar, situada na “Seagarlandia”.
 
Trata-se de um território flutuante no Oceano Atlântico, localizado em águas internacionais, fora da extensão marítima brasileira e registrada em nome do bilionário. Uma espécie de país não-oficial.
 
Para lá, Rydl transportou cerca de 765 kg de ouro, avaliados em 32 milhões de dólares.

 

seagarlandia mapa
Mapa da Seagarlandia

 

O ouro transportado tem como finalidade a criação da moeda própria do território, chamada de “Eternity”.
 
“É um papelzinho e dentro do papel você tem 1 grama de ouro. Nessa minha atividade social, eu publico o Eternity. A pessoa compra pela mesma cotação da grama do ouro e pode vender pelo mesmo preço. É um dinheiro mundialmente público. A finalidade é uma atividade social para restabelecer nosso sistema financeiro mundial. Cada indivíduo pode comprar. Hoje temos no mundo cerca de 170 mil toneladas de ouro. Se você dividir por pessoa, cada pessoa fica com 30 gramas. O ouro do mundo pode ser distribuido e isso estabiliza a pessoa. Quando a pessoa tem 30 gramas de ouro, ela não é pobre e nem rica. Tem o necessário”, explicou.

 

eternity
 

  O projeto do bilionário, no entanto, já tem causado polêmica. Isso porque não há regulamentação que trate sobre a saída de produtos do Brasil para um território que não possui registro oficial como país.
 
“Não consegui registrar como país porque para isso precisaria de um povo, de uma comunidade, etc, por isso não autorizaram. Minha luta agora é com a Polícia Federal. Porque eu transporto ouro para lá e na hora de declarar eles dizem: “não, mas esse país não existe. Se você sai do Brasil e não entra em outro país, voce fica onde?”. Eu digo que eu saio do Brasil mas não vou para outro país, e sim para a Seagarlandia”, relatou.
 
Um processo administrativo já foi requerido por Rydl para regularizar a situação.
 
“Isso é tudo muito novo. É importação se eu trago ao Brasil algo de um lugar que não é um país? É exportação se eu levo um produto do Brasil a um lugar que não é um país?”, questionou.
 
Vida simples
 
O império de 120 toneladas de ouro que possui, segundo Werner Rydl, começou assim que chegou no Brasil, em 1991.
 
“Com o dinheiro que acumulei na Áustria, comecei a comprar ouro aqui. O ouro não quebra, não perde valor igual o papel. Comprei todo o ouro que podia, cerca de 200 kg, 300 kg por semana. No início eu usava outras pessoas para cuidar do ouro, mas hoje só eu faço isso. Uma vez por mês eu saio com o barco para transportar o ouro para os locais onde guardo. Eu construí uma torre em que guardo uma parte do ouro, que tem uma porta de 4 toneladas. Não tem vigia, nada. Abro a porta, entro, fecho. Nunca aconteceu nada em 21 anos”, disse ele, dando detalhes sobre a torre localizada na mesma praia de Recife onde queimou os 21 milhões de euros.

 
Ele também possui um programa chamado "Ouro Vale Para Todos", em que adquire o ouro de pequenas comunidades de garimpeiros. O programa possui pelo menos oito unidades no Brasil e outras dezenas na África.
 
Apesar da fortuna, Rydl diz que mantém uma vida simples: não possui imóveis, avião, nem segurança pessoal.
 
“Me perguntam porque não divulgo a questão do ouro, não apareço na mídia. Não tenho vaidade, não dou importância a isso. Eu sou um ser humano e acabou. Claro, eu fico louco quando alguém tira 1 grama de ouro de mim (risos). Eu tenho contas pessoais em que saco R$ 2 mil, R$ 3 mil por mês. Não faço transferências milionárias, apesar de poder fazer isso”, disse.
 
“Viajo o tempo inteiro e não tenho uma casa onde posso dizer que moro. Quando acordo não sei onde vou dormir e nem onde vou acordar. Eu mesmo dirijo o barco para transportar o ouro”, completou.

  • A história por trás do dono de R$ 20 bilhões em barras de ouro
  • A história por trás do dono de R$ 20 bilhões em barras de ouro
  • A história por trás do dono de R$ 20 bilhões em barras de ouro
  • A história por trás do dono de R$ 20 bilhões em barras de ouro
  • A história por trás do dono de R$ 20 bilhões em barras de ouro
  • A história por trás do dono de R$ 20 bilhões em barras de ouro
  • A história por trás do dono de R$ 20 bilhões em barras de ouro
  • A história por trás do dono de R$ 20 bilhões em barras de ouro
  • A história por trás do dono de R$ 20 bilhões em barras de ouro
  • A história por trás do dono de R$ 20 bilhões em barras de ouro

Lucas Rodrigues - Mídia News

Comentários

Nenhum comentário encontrado.

Novo comentário