21/07/205 - Araguaia: o rio e sua gente

Enquanto em outros estados é inverno, no Araguaia é verão e tempo de praia. Conheça a rotina de quatro amantes dos rios da região.

É mês de julho e está aberta a temporada de praia no rio Araguaia. Cidades como Barra do Garças, São Félix do Araguaia, Luciara, Santa Terezinha e Nova Xavantina promovem seus festivais de praia. Em todos esses locais, armam-se palcos para shows diários e barraquinhas para comer e beber nas praias, onde também acontecem oficinas artísticas e uma programação diversa.

Além do rio Araguaia, banham essas terras outros belos rios, como o Kuluene, o Suiá, o rio das Mortes e o Tapirapé. Barrento ou translúcido, profundo ou raso, morno ou gelado, traiçoeiro ou previsível, cada rio tem suas características próprias. Em comum, todos tem o ciclo anual regido pelas estações de seca e de chuva.

Rio Araguaia. Foto: Maíra Ribeiro

Entre maio e setembro é o período de estiagem. Quando os rios baixam, desvendam suas praias. A cada semana, a praia fica maior e a areia mais fofa. A cada ano, ela é de um jeito, de um formato, de uma altura, de uma profundidade. É costume nesta época entre moradores locais sair férias e fechar suas casas para mudar-se temporariamente para a beira do rio, onde acampam. Alguns acampamentos tem até gerador e televisão.

Já em setembro, os rios sobem, submergindo as praias novamente. Essa dinâmica dos rios é vivenciada pelos moradores da região. No vale do Araguaia, o rio é trabalho, meio de locomoção, fonte de alimento e lazer.

“A minha vida é no rio” Tonho da Feira, pescador em Nova Xavantina

Os pescadores Tonho da Feira (de boné branco) e José Ribeiro da Silva (de boné preto) na feira. Foto: Maíra RIbeiro

Os pescadores Tonho da Feira (de boné branco) e José Ribeiro da Silva (de boné preto) na feira. Foto: Maíra RIbeiro

A região Araguaia abriga um grande número de pescadores profissionais que tiram sua renda da pesca nos rios, vivendo intensamente sua sazonalidade. Nos meses de piracema, eles não podem pescar e recebem um seguro defesa. Já de março a novembro, quando a pesca é permitida, a rotina da maioria deles é passar o dia no rio. Barra do Garças tem a maior Colônia de Pescadores de Mato Grosso, abrangendo mais de 20 municípios no estado e quase mil associados. Só em Nova Xavantina, são mais de cem pescadores profissionais ligados a essa colônia.

Em Nova Xavantina, o ponto de encontro dos pescadores – e o ponto certo para comprar peixe – é a feira livre que acontece aos domingos de manhã. Os pescadores enfileiram grandes isopores onde expõem os peixes pescados na semana. Pintado, pacu e matrinxã são os mais comuns.

“O que eu mais gosto dessa vida de pescador é viver na beira do rio bem tranquilo e folgado. A minha vida é no rio.” Assim me contou Tonho da Feira, pescador profissional que estava vendendo peixe na feira no domingo passado.

Rio das Mortes na altura de Nova Xavantina. Foto: Maíra Ribeiro

Rio das Mortes na altura de Nova Xavantina. Foto: Maíra Ribeiro

Com 60 anos, seu Antônio decidiu tornar-se pescador profissional 12 anos atrás. “Eu tinha uma chácara, vendi e falei ‘vou pro rio’, aí comprei o barco, canoa e tô aí. Aprendi a pescar depois que fiz carteira. Isso foi destino de pescador mesmo, quando vê um rio, vê uns peixes, fica com vontade de pescar e virou nisso, virou pescador” conta.

Ao lado de Tonho da Feira, estava José Ribeiro da Silva, de 53 anos, pescador há 20. Xavantinense, cresceu na beira do rio das Mortes e diz que a profissão que lhe escolheu: “Profissão quase não tem aqui, aí pescador é a profissão mais fácil, e trabalhar para os outros não dá futuro, então trabalha pra gente mesmo.”

Viver da pesca não é tarefa fácil, mas talvez para quem nasceu e cresceu convivendo com o rio, isso pareça trivial. Os pescadores de Xavantina pescam em média 80 kg por semana. Eles pescam no rio das Mortes, no Couto Magalhães e no Kuluene e conhecem cada curva e corredeira.

Seu Tonho explica o protocolo do pescador: “Eu chego, faço meu acampamento e aí é só eu mais a minha velha e meus cachorros e pronto. Acampo nas ilhas, na beira do barranco, onde der um acampamento a gente faz e passa a semana. No final de semana, volta, carrega tudo e vai para outro lugar, faz outro acampamento e assim vai indo. Eu vou na segunda e venho na sexta ou no sábado. Meu serviço é esse, eu não tenho outro.”

“O rio é minha igreja” Kleber Carvalho de Assis, praticante de canoagem em Barra do Garças

Kleber remando no rio Araguaia. Foto: Maíra Ribeiro

Kleber remando no rio Araguaia. Foto: Maíra Ribeiro

Se o rio é subsistência para uns, é esporte para outros.

Há 150 km de Nova Xavantina, em Barra do Garças, Kleber Carvalho de Assis, dono da lanchonete Açaí Fly, leva todo fim de tarde seu caiaque para o porto do Baé, no rio Araguaia. Kleber rema cinco vezes por semana e passa ao menos duas horas por dia no rio Araguaia.

Natural de Goiânia, mudou-se há 12 anos para a cidade mato-grossense em busca de qualidade de vida. Há oito anos começou a andar de caiaque por brincadeira e se apaixonou.

Seu treinamento diário é direcionado para outra paixão que surgiu com a canoagem: fazer expedições de caiaque remando de 40 a 50 km no rio. Nessas expedições, Kleber navega pelo Araguaia só com seu companheiro Bob, o cachorro da família.

“É mágico, é apaixonante! Para mim, não tem igual. É uma paz de espírito, o rio é minha igreja, é um lugar que eu vou para remar. Ao mesmo tempo em que você está se exercitando, você oxigena o cérebro, pensando na família, nos seus objetivos. Eu uso como uma terapia, como uma forma de ter um corpo saudável, de meditar. Você se conecta mais fácil porque a água é pura energia, é vida!”, conta Kleber.

“Sou filho do Araguaia” Matuzalém Milhomem Lubschinski, o Natural, guia de turismo em São Félix do Araguaia

Matuzalém Milhomem. guia de turismo no rio Araguaia. Foto: Arquivo Maíra Ribeiro

Matuzalém Milhomem em praia do rio Araguaia. Foto: Arquivo Maíra Ribeiro

Bem longe dali, já na transição do Cerrado para a floresta amazônica, está São Félix do Araguaia. A cidade é conhecida pela Prelazia do bispo emérito Pedro Casaldáliga, voz ativa na luta dos povos que habitam a região. E também pelas belezas naturais que vão de praias e lagos a um complexo de ilhas incluindo a maior de todo o planeta, a Ilha do Bananal.

O encontro entre o rio Araguaia e o rio das Mortes acontece poucos quilômetros antes da área urbana de São Félix. Ali, ele é largo e raso, tudo ao seu redor é plano. E tem peixe, como tem. E, ainda, muitas outras coisas que a gente não sabe se é peixe ou se é sereia: botos, jacarés, ariranhas, arraias.

Matuzalém Milhomem Lubschinski, ou simplesmente Natural, é filho do Araguaia, como ele mesmo define. Seu pai era barqueiro numa época em que o rio era a principal estrada do Araguaia. Conta que o itinerário do pai ia de Conceição do Araguaia no Pará até Barra do Garças, cerca de 700 km rio acima. Ainda pequeno, Natural acampava com a família e foi aprendendo sobre o Cerrado e o rio Araguaia com os moradores antigos e com os Karajá. Essa trajetória o levou a ser guia de turismo na cidade.

Praia de São Félix do Araguaia. Foto: Alexandre Lemos

Praia de São Félix do Araguaia. Foto: Alexandre Lemos

 

Por Maíra Ribeiro/AXA

 

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