22/12/2012 - Após ter família morta pelas Farc, homem busca refúgio em Alto Paraíso

Júlio Werner saiu da Colômbia para buscar proteção em Alto Paraíso (Foto: Elisângela Nascimento/G1)

 

Há cerca de um ano, o pintor Júlio Werner, de 54 anos, saiu da Colômbia para buscar proteção em Alto Paraíso de Goiás, cidade cortada pelo Paralelo 14 e onde, segundo os místicos, o mundo não vai acabar. Em entrevista ao G1, ele conta que teve toda a família – mulher, quatro filhos e vários parentes – assassinados pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Depois disso, vendeu a moto que tinha e chegou ao Brasil com cerca de R$ 2 mil e muita esperança de sobreviver a qualquer catástrofe nesta sexta-feira (21). “Vim para me salvar”, afirma.

Ele garante acreditar no calendário maia e no encerramento do ciclo de 5.125 anos que marcaria o fim do mundo. “Eu pesquisei muito pela internet e encontrei essa cidade protegida. Aqui tem muitos cristais porque ela está em cima de muito quartzo. Os cristais vão nos proteger”, defende. Para sobreviver na cidade, ele ofereceu seus trabalhos de pintor ao empresário Rafael Luna Zen, de 35 anos, que é de Brasília e está construindo uma pousada em Alto Paraíso.>>>

A vida de Werner na Colômbia foi marcada por sofrimento e, além de perder a família assassinada, ele já foi alvo de ataques. “Levei nove tiros, mas consegui sobreviver. Hoje sou um refugiado político no Brasil e estou com toda a documentação em dia”, revela.

Para sobreviver ao fim do mundo, Werner conta que tomou alguns cuidados, como armazenar comida e ter um colchão inflável para flutuar, caso ocorram enchentes. “Sei que é pouco provável que a cidade se alague, mas eu estou me preparando de todas as formas”, argumenta.
O pintor lembra que já teve várias religiões, mas há dez anos toma a bebida
ayahuasca, mais conhecida como “chá do Santo Daime”, umas das manifestações religiosas comuns em Alto Paraíso de Goiás.

Patrão de Werner, Rafael Luna Zen é só elogios ao funcionário: “Nos conhecemos em uma partida de futebol e ele me pediu emprego. Desde então, somos parceiros. Ele me ajuda na construção da pousada, que já está em fase de acabamento”.
 

Há cerca de um ano, o pintor Júlio Werner, de 54 anos, saiu da Colômbia para buscar proteção em Alto Paraíso de Goiás (Foto: Elisângela Nascimento/G1)
Werner trabalha como pintor na obra de uma pousada em Alto Paraíso (Foto: Elisângela Nascimento/G1)

Festejando
Ao contrário do colombiano, a maior parte dos turistas e moradores de Alto Paraíso de Goiás aproveitou a véspera do ‘fim do mundo’ para festejar, principalmente ouvindo música e dançando. Foi o caso da médica veterinária Claudia Toledo, que é de Brasília e mora na cidade há dois anos.

Ela explica que não acredita “no fim do mundo físico”, mas crê em um tempo de mudanças. “Acredito sim no fim do mundo espiritual, a partir de hoje. Precisamos refletir mais e pensar mais no coletivo”, defende. Nos primeiros minutos desta sexta-feira, ela e as amigas aproveitaram para desejar ‘feliz fim do mundo’ umas às outras.

Quem também saiu para dançar foi o bancário Marcos Pondé, de Seabra (BA). Ele mora em Alto Paraíso há seis anos e assegura que não acredita que o mundo tenha uma data para acabar. “O legal daqui é a natureza muito exuberante, mas a cidade é bem carente de opções de estudo, por exemplo”, reclama.

 

Secretária de Turismo de Alto Paraíso,Fernanda Inês Montes aproveitou para curtir a véspera do fim do mundo em uma casa noturna da cidade. Ela reconhece que a cidade está cheia para uma quinta-feira e prevê que o número de turistas aumente ainda mais a partir desta sexta. “Os místicos vêm pela energia da região, que também atrai muita gente por ter um ecoturismo muito forte”, observa.

No fim de semana, a secretária estima que a cidade receba até 8 mil visitantes, número superior à população de Alto Paraíso, que é de 6.885 habitantes, segundo o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010. Embora reconheça o apelo turístico causado pela crença no fim do mundo, ela não acredita em previsões apocalípticas. “Se eu acreditasse, não estaria planejando tantas atividades culturais para este fim de ano”, esclarece. Fernanda Inês adianta que Geraldo Azevedo será a atração musical do Réveillon da cidade.

 

Escrito por Elisângela Nascimento Do G1 GO, de Alto Paraíso de Goiás 

 

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