23/04/2015 - "Não posso sair com um revólver atrás da construtora do VLT"

“Se eu cumpri o contrato e vossa excelência ainda não fica satisfeita, não sei o que mais posso fazer. Eu não tenho poder de polícia, não posso sair com um revólver na rua atrás da construtora, não é minha função". A declaração foi feita por Valter Boulos, representante da Planserv Engenharia, na tarde desta quarta-feira (22), durante depoimento à CPI da Copa, na Assembleia Legislativa.

Contratado por R$ 46,9 milhões, ele disse que o Consórcio Planserv–Sondotécnica fez o que estava ao seu alcance para apontar as diversas irregularidades na implantação do Veículo Leve sobre os Trilhos (VLT).

A empresa foi contratada em janeiro de 2013 para fazer o gerenciamento e fiscalização das obras do VLT, em Cuiabá e Várzea Grande.

De acordo com Boulos, foram emitidos 570 relatórios à Secopa, apontando irregularidades nas obras. Ele, no entanto, eximiu o Governo e disse que diversos problemas foram sanados.

“Nós cumprimos o que o contrato definiu. Fomos a campo, acompanhamos as obras, recebemos o projeto, demos sugestão. Quando tinha inconformidade, apontávamos o problema. Foram 570 notificações. Em uma determinada época, a Secopa estava recebendo tanto IP (Identificador de Problema), que pediu para mandar direto ao consórcio”, disse.

“Nossa obrigação é informar o cliente com exaustão. Nós suspendemos alguns serviços, porque não concordávamos. Esses foram corrigidos. Mas uma atitude maior quem podia tomar era a Secopa. Nosso relacionamento é com o cliente, não temos poder sobre o empreiteiro", afirmou.

Questionado pelo deputado Wilson Santos (PSDB) sobre o fato de a empresa ter sido contratada por R$ 46,9 milhões para apenas emitir relatórios “aos ventos” e “sem créditos”, o empresário voltou a afirmar que fez apenas o que determinava o contrato.

“Eu tenho 46 anos trabalhando nessa área e nunca vi, nunca gerenciei, uma obra que eu fosse agravar alguma coisa. Devo atender o que está no contrato, atender o cliente. Não tenho mais nada a fazer além do que está no contrato”, disse.

Wilson, entre outros deputados, questionou a quantidade de funcionários da Planserv que estavam in loco nas obras. O deputado tucano afirmou que, segundo denúncia, apenas 12 pessoas trabalhavam em Cuiabá.

“Ao dividir R$ 47 milhões, por 27 meses, dá um pouco mais de R$ 1 milhão ao mês. Se realmente só existiam 12 funcionários, cada um estava custando em torno de R$ 145 mil mês. Algo que chama a atenção”, disse.

O empresário negou que havia apenas 12 funcionários na Capital. Ele não soube precisar o número exato, e disse que irá enviar todos os nomes a comissão.

Entretanto, acrescentou que, além dos funcionários em Cuiabá, outro tanto estava em São Paulo, sede de Planserv, e mais outro no Rio de Janeiro, sede da Sondotécnica.

“As colocações do nobre deputado [Wilson Santos] são completamente infundadas. Não tenho somente 12 funcionários, é muito mais que isso. E peço que antes de fazer qualquer afirmação, espere que eu mande os documentos. Porque fazer acusação sem conhecer o outro lado não é uma boa política”, rebateu.

“Nós mantivemos uma equipe de campo em Cuiabá permanentemente ligada à obra. E mantínhamos uma equipe em São Paulo e no Rio de Janeiro. E fizemos questão de colocar uma equipe adicional para dar suporte aos nossos trabalhos e, ao mesmo tempo, fazer uma transferência de know-how com profissionais locais”, disse.

Projeto inacabado

O diretor da empresa fiscalizadora confirmou que diversas etapas do projeto de implantação do VLT estavam incompletas. 

Segundo ele, foram recebidos mais de 4.8 mil pranchas com etapas da obra. No entanto, por diversas vezes, o consórcio fiscalizador rejeitou total ou parcialmente, por estarem fora dos padrões da engenharia civil.

“Nós recebemos muitos projetos, foram mais de 4.8 mil pranchas e dessas algumas recusamos, outras aprovamos com ressalva. Mas houve uma boa vontade da construtora em fazer as correções necessárias”, disse.

“Algumas coisas não foram cortejadas. Por exemplo, o assunto da drenagem da UFMT não foi resolvido até hoje. Há uma discussão entre a Secopa e a Prefeitura sobre quem vai resolver esse problema. Então, não existe projeto nesse quesito”, afirmou.

Falta de pagamentos

Segundo Valter Boulos, a empresa parou de fazer o gerenciamento e fiscalização das obras, poucos meses antes do final do ano passado. Segundo ele, a Secopa e o ex-governador Silval Barbosa (PMDB) atrasaram, por diversas vezes, o pagamento.

Em crédito, a Planserv ainda teria a receber R$ 5 milhões.

“Tive uma grande decepção, porque o preço do serviço não é aquele nominal que aparece na licitação. Depende de outros fatores, como, por exemplo, receber em dia. Nós estamos com crédito de R$ 5.4 milhões, que não recebemos. E, durante todo o trabalho, sempre estiveram devendo, nunca nos pagaram de acordo com o contrato”, afirmou.

Nova convocação

O presidente da CPI da Copa, deputado Oscar Bezerra (PSB), disse não descartar uma nova convocação do diretor da Planserv.

Para ele, é preciso esclarecer qual a intenção de contratar uma empresa fiscalizadora para fazer relatórios que “não seriam respeitados”.

“É muito cômodo dizer que não pode obrigar ninguém, recebendo mais de R$ 1 milhão por mês. E a idoneidade da empresa? No mínimo, ele poderia ter dito não querer ser conivente com os problemas”, disse.

"Ficou evidenciado que havia o interesse de atender ao cliente, que, no caso, seria a Secopa. Receberam mais de R$ 1 milhão por mês para notificar irregularidades, mas, efetivamente, não há nenhum resultado com a contratação dessa empresa. Então, fica o questionamento: qual era o objetivo de contratar a Planserv?", disse após o fim da reunião.

 

 

Douglas Trielli 
Da Redação

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