24/02/2011 17h:11 Noite dos Milagres

 

Eram 7 e meia da noite, eu estava dentro da cozinha da Câmara, pensando em fazer ou não fazer a pipoca para a primeira sessão de 2011 do cineclube Pipoca Moderna que funciona aqui, em São Félix do Araguaia. Afinal já estava no horário e ainda não tinha chegado ninguém. Fui lá fora, dei uma espiada, vi uns meninos sentados no banco da praça e imaginei que talvez eles seriam os únicos expectadores da noite.

Duas horas antes, na hora do pôr-do-sol, ainda dia, o sol parecia queimar, o ar abafado, e os céus cobertos por nuvens carregadas. Cheguei na Câmara. O calor dentro da sala era insuportável, liguei os ventiladores. Depois tentei ligar o ar condicionado – daqueles grandes que tem a capacidade de gelar um ambiente inteiro. O ar condicionado não tem interruptor, muito menos controle remoto. Isso já era de meu conhecimento, em 2010, para ligar o aparelho era necessário subir em uma cadeira e usar como instrumento um cabo de madeira para apertar o botão. Agora, nem o botão existia mais e o cabo mudou, ao invés de madeira o cabo é de plástico com uma ponta no final, segundo a moça da limpeza era porque “a ponta alcança o botão lá dentro”. Enfim não consegui utilizar a tecnologia e o que me restou foi deixar os ventiladores ligados... E rezar para que o tempo desse uma esfriada.

Vamos para a segunda etapa, ligar o equipamento. Potências, projetor, notebook e mesa de som. Tudo montado, cadê a extensão?

As sessões do Pipoca Moderna são realizadas de forma rudimentar em comparações com outros cines. O equipamento fica em cima de uma mesa de madeira no meio do salão de onde é projetada a imagem. Não tive treinamento para aprender a lidar com os aparelhos. Quem me ensinou foram as próprias sessões e as charadas eletrônicas que apareciam. Por isso, nesta sessão estava tranqüila, afinal já tinha passado por tantas situações que no momento me considerava craque em ligar e colocar tudo na entrada certa. Mas depois de tudo montado foi a hora de ligar na tomada. Cadê a extensão? Tinha desaparecido. Procurei em todas as salas, em todas as gavetas e ela não estava lá. Ai, nessas horas, o pobre conta com a sorte. E ela veio me livrar. Os cabos eram longos o suficiente para levar metade do equipamento para perto de uma tomada. Problema resolvido. Agora depois de tudo ligado, uma caixa de som não funcionava. Lá vai eu tentar mudar tudo de lugar, pra tentar solucionar o problema. Descobri que o problema estava com os cabos, era mau contato, não dava tempo de ficar tentando achar aquele jeitinho pro fio funcionar, muito menos de ligar pro rapaz da eletrônica, o jeito era fazer com uma caixa mesmo. E foi o que aconteceu.

Depois de tudo “pronto”, devidamente testado. Voltei-me para as pipocas. Afinal elas eram o chamariz. As Pipocas. Que seriam vendidas à R$ 25 centavos. Entrei na cozinha, estava tensa, pensando mil coisas ao mesmo tempo. E todo aquele esforço de passar em escola em escola, indo de sala em sala chamando os alunos... E agora estava vivendo o dia, a terça-feira, a primeira sessão.

O filme, Meninas, sob a direção de Sandra Wernek, é muito interessante. O documentário acompanha a vida de quatro adolescentes grávidas durante um ano. As histórias são chocantes. Evelin, de 13 anos, grávida de um “ex-traficante”, Joyce e Edilene grávidas de Alex.

Quando assisti pela primeira vez o documentário, me lembrei de São Félix, de muitas amigas que também passaram por essa experiência e pensei que essa seria a oportunidade de fazer alguma coisa pela comunidade. Sem política, sem falsas esperanças, sem promessas. A revolução pela imagem.

São 7 e 40 da noite, alguém bate no meu ombro, é um amigo, Dário. Fui muito bom ver um rosto conhecido, ele sorriu e me passou uma paz.  Aliviada comecei a observar a entrada dos expectadores.  Todo mundo arrumado, cheiroso, meninas, meninos, adultos... E eu ali atônita. Imóvel.  Com olhos arregalados e olhando aquele plano se realizar, outra cutucada, agora era de um menino que me parou e perguntou:

- Tia vai ter pipoca? Ele nem esperou a minha resposta e já foi dizendo: Trouxe R$ 50 centavos. Quero duas!

Aí a minha animação voltou, conversei com os expectadores, coloquei pra rodar um pedaço do documentário Baraka, enquanto dávamos mais cinco minutos para todo mundo se ajeitar.

Pronto. Todos prontos. Luzes desligadas. E começou a sessão. Cheia, 37 pessoas... A noite continuava quente. O Ar condicionado desligado. Uma caixa de som não funcionava. E mesmo assim eles ficaram. Assistiram o filme todo.

Mas as surpresas ainda não tinham terminado. Depois do filme, quando ainda estava passando os créditos pedi pro pessoal ficar para o debate. E advinha? A maioria ficou.

A enfermeira, Priscila Nara, que tinha me ajudado a fazer a pipoca, começou então a conversar. Quando perguntou se alguém queria falar alguma coisa sobre o filme, mãos se levantaram na platéia.  Um menininho de mais ou menos uns 12 anos disse:

- Não gostei, foi trágico.

E pronto a conversa tinha começado, um fala daqui, outro fala dali. Priscila contou um pouco sobre a experiência em fazer o pré-natal com adolescentes. Durante a conversa a enfermeira falou um pouco sobre gravidez, mudança de rotina. E uma pergunta me impressionou. Uma menina de 15 anos perguntou: Pega AIDS usando camisinha?

A platéia sorriu dela, coitada, e ela ficou vermelha de vergonha. Mas ai a Priscila explicou, tirou a dúvida dela.....e a gente terminou a conversa, nos despedimos. E todos foram embora.

Enquanto guardava os equipamentos, pensei sobre a pergunta da menina, e refleti que ainda existe muito a ser feito. E todo o esforço é recompensando quando a gente tem certeza que essas dúvidas foram esclarecidas.

O cineclube Pipoca Moderna vai trabalhar para isso: para ajudar a comunidade a dissipar suas dúvidas. Queremos dar um choque na sociedade.  E vamos usar o cinema. As histórias, o cotidiano, vamos criar elos entre a tela e a vida. Porque na verdade, por mais que se diga, sempre vai haver o que se dizer. Então vamos sentir, vamos imaginar, vamos criar! E vamos mudar.

 

 

Rizza Matos

Jornalista e Coordenadora do Cineclube Pipoca Moderna – São Félix do Araguaia