24/02/2014 - Zum Zum fecha as portas e público LGBT fica suscetível ao preconceito e violência

A boate é conhecida por ser ousada, criativa e sempre inovar em suas festas. Diversas Drag Queens se apresentaram naquele palco e vários artistas, sejam eles homossexuais ou não, participaram dos eventos marcantes da Zum Zum Disco Bar. Mas estes dez anos de tradição e apoio ao movimento LGBT (Lésbicas Gays Bissexuais, Travestis e Transexuais) se encerra no dia 15 de março, com a festa de despedida “Last Dance” (Última Dança) e fechamento oficial do estabelecimento.

Na página de facebook do proprietário da Zum Zum, Menotti Griggi, há várias referências ao encerramento dos negócios da boate. Em um de seus posts, ele fala: “Equipe Zum Zum: Meus queridos e queridas, começou hoje a contagem regressiva para o nosso encerramento! Teremos 30 dias de festas e eventos às sextas e sábados até a nossa Grande Noite ‘Last Dance Zum Zum’, no dia 15 de março, quando partimos para novos projetos ao público LGBT”.


(A Zum Zum Disco Bar é parceira na realização da Parada Gay em Cuiabá desde a sua primeira edição)

O secretário de comunicação da ONG Livre Mente e membro da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Clóvis Arantes, afirma que a população LGBT lamenta profundamente o fato de a Zum Zum estar encerrando suas atividades. Mas mais que isto, Clóvis alerta para o fato de que o público da boate pode estar mais suscetível à violência e demonstração de preconceitos em outros ambientes.

A Zum Zum, ao contrário do que muitos pensam, não é mais o único estabelecimento dedicado ao público LGBT em Cuiabá, embora tenha sido o primeiro. Temos também o Espaço Furrundu, que começou com clientes em sua maioria lésbicas, mas agora conta com freqüentadores “mix”. No entanto, a Zum Zum era a única boate que oferecia shows de Drag Queens e transformistas.

“O público que freqüentava a Zum Zum era mais diversificado. Estas pessoas agora podem sofrer de certa vulnerabilidade com a falta deste espaço”, explicou Clóvis. Sem a boate, o público LGBT terá que ir à festas e eventos em outros estabelecimentos, onde as pessoas podem demonstrar preconceito e até mesmo ser violentas, tanto física, quanto verbalmente. “Não é uma questão de que a Zum Zum era um gueto. Não é isto. Mas era um lugar onde os clientes podia vivenciar sua sexualidade sem medo de reprimendas de uma sociedade conservadora”, esclareceu Arantes.


(Sarah Mitch trabalha com a Zum Zum há dez anos: Fez show na pré-estréia e fará apresentação na última festa, no dia 15 de março)

A Drag Queen Sarah Mitch apresenta-se na Zum Zum desde o começo. Ela fez um show na pré-estréia da boate e também na inauguração. E para prestigiar os dez anos de história tanto sua, quanto do estabelecimento, Sarah prepara uma performance especial para a última festa, onde interpretará Madonna, seu carro-chefe. “Vai ser uma noite muito triste”, disse Sarah ao Olhar Conceito.

Sarah vivencia uma mistura de revolta e tristeza pelo fechamento da Zum Zum. Menotti Griggi, o proprietário, já conversou com ela, pedindo que não ficasse triste e dizendo que é um recomeço para os dois. “O Menotti não esconde o porquê de a boate estar fechando: É porque as pessoas pararam de freqüentar como antes. Não tem como manter uma empresa sem clientes”, explicou Sarah.

Tanto Mitch, quanto Menotti irão emprenhar-se em novos projetos. Menotti continuará fazendo festas mensais e mais elaboradas em outras localidades; Já Sarah dedica-se à carreira musical e pensa em aventurar-se pelo teatro. Este é outro ponto para as Drag Queens de Cuiabá: Sem a Zum Zum, elas terão que buscar outros meios de expressar-se artisticamente e somente aquelas que realmente empenham-se na profissão continuarão no mercado.

“É triste, mas muitas Drag Queens ficarão sem espaço. Aquelas que fazem por brincadeira ou começam a levar realmente a sério, ou estão fora do mercado”, explicou Sarah, que lançou em 2013 um videoclipe com música autoral e pretende continuar por este ramo.

 

Stéfanie Medeiros