24/08/2015 - “A Inteligência da Polícia Civil de MT é uma das melhores do Brasil”

À frente da Diretoria da Polícia Civil de Mato Grosso há quase oito meses, o delegado Adriano Peralta recebeu, em mãos, uma instituição sem orçamento real para atender à demanda dos 141 municípios do Estado, com um efetivo aquém do necessário e com a missão de promover uma mudança total de gestão.

“Se você me perguntasse quantas armas nós tínhamos e onde essas armas estavam, nas gestões passadas, eu não saberia responder. E isso atrapalha muito, porque você não tem como saber se o indivíduo esta trabalhando ou não. A Polícia está muito atrasada em relação a isso”, afirmou.

Indicado ao cargo pelo governador Pedro Taques (PDT), Peralta elencou, em entrevista ao MidiaNews, as mudanças que estão sendo tomadas a fim de padronizar os serviços prestados pela Instituição, ressaltou a redução de índices de criminalidades no Estado, as falhas ainda a serem corrigidas e realizou o balanço das ações e operações realizadas pela Polícia Civil em Mato Grosso.

O diretor-geral da Polícia Civil destacou o trabalho do setor de Inteligência da Instituição em Mato Grosso, que agora atua de forma descentralizada no Estado, e enfatizou:

“A Polícia Civil de Mato Grosso, em termos de inteligência, é uma das melhores do Brasil. Não devemos nada para nenhuma outra instituição do país. Temos grupos de inteligência montados em vários locais e muito bem estruturados”, disse.

Adriano Peralta – A Polícia Civil de Mato Grosso, em termos de inteligência, é uma das melhores do Brasil. Não devemos nada para nenhuma outra instituição do país. Temos grupos de inteligência montados em vários locais e muito bem estruturados. Temos laboratório de lavagem de dinheiro, com diversos equipamentos, e, no geral, funciona muito bem a nossa Inteligência. Normalmente, o trabalho dos setores de inteligência – que é feito a partir de várias frentes, como as campanas –, é direcionado pelas estatísticas. Então, por exemplo, se você sabe que um número alto de homicídios está se concentrando no Pedra 90, você começa a analisar porque esses crimes ocorreram e a quem eles são ligados. Daí você descobre que uma pessoa é ligada direta ou indiretamente por uma parte considerável desses homicídios. Então, a Inteligência passa a fazer o monitoramento desse suspeito e montar o que deve ser feito para prender essa pessoa. 

MidiaNews – Há um setor específico destinado ao serviço de inteligência da Polícia Civil? 

Peralta –
 Nós temos um setor centralizado aqui na Diretoria da Polícia Civil. O nosso 5º andar é todo da inteligência. Mas, hoje, a Inteligência trabalha de forma desconcentrada, estando presente em praticamente todas as unidades. É raro uma unidade que não tenha um Núcleo de Inteligência. Normalmente, eles funcionam em uma parte reservada, dentro das unidades. 

MidiaNews – E como essa descentralização auxilia as investigações?

Peralta –
 Ajuda bastante porque os setores de cada unidade trabalham com a demanda específica daquela unidade. Aí, apenas se o setor específico deles não der conta de resolver, eles pedem ajuda do núcleo central.

MidiaNews – Nesses casos, o “know how” é buscado onde? Há um aparelhamento especial?

Peralta – 
Mandados os membros do núcleo para fazerem cursos em vários lugares. Agora, mesmo, estamos mandando alguns para o Rio Grande do Sul, outros para um curso que o FBI vai ministrar em Goiânia, outros para Campo Grande (MS), estamos enviando ainda alguns para o curso de Lavagem de Dinheiro, em Brasília. E aqui, também, nós sediamos alguns cursos. Agora, estamos sediando um que conta com profissionais de 10 estados, que é para aprimoramento de quem já tem noção dos serviços de inteligência. Todos os anos temos esses cursos. E eles contam com um aparelhamento especial, nos núcleos, que não podem ser detalhados, mas que são, por exemplo, para os serviços de filmagens, gravações. Por exemplo, estamos pensando em comprar drones, que facilita bastante o serviço da Polícia Civil. Se a equipe vai, por exemplo, cumprir um mandado de busca e apreensão em uma casa de drogas, com muro alto, ele pode ir com o drone primeiro, para enxergar o que tem além daqueles muros, antes de entrar, salvando até mesmo a vida dos policiais.

MidiaNews – Qual a estrutura atual da Polícia Civil, de uma forma geral? Há suporte para atender a demanda do Estado?

Peralta –
 O problema maior que nós temos hoje é que a Polícia Civil é muito pulverizada, assim como a Polícia Militar, porque temos que atender a todos os municípios. Então, entraram 600 policiais e, agora, vão entrar mais 473 homens. Se você colocar todos eles em uma sala, parece muita gente, mas quando pulveriza isso para todo o Estado, para todas as 171 delegacias, o problema aparece. Então, um dos nossos maiores problemas é a falta de efetivo. Porque, além do baixo número, você também tem que considerar o perfil de cada localidade. Em Barra do Garças, por exemplo, temos policiais civis com mais de 20, 25 anos de serviço. Obviamente, eles apresentam mais problemas de saúde, estão com mais idade, precisam de amis licença, mais férias, estão mais próximos da aposentadoria. 

MidiaNews – Qual é o efetivo atual? 

Peralta –
 O efetivo atual é de 2.928, sendo 1.909 investigadores, 696 escrivães, 261 delegados e 72 técnicos e analistas administrativos. Desse total, descontados aqueles que estão de licença médica, afastados ou de férias, sobram 2.619. Daí, apesar de termos os 473 novos homens para ingressar na Polícia Civil, temos 155 já aptos para aposentar. Então, esse número flutua todos os dias. 

MidiaNews – E qual seria, então, o efetivo ideal para atender o Estado?

Peralta –
 Mais mil funcionários já aliviariam. Porque hoje, esse problema do efetivo acarreta várias coisas. Por exemplo, temos delegacias que estamos autorizando a funcionar apenas em horário de expediente. Hoje nós temos 251 delegados. Mas, em exercício, descontando aqueles que estão de férias, afastados, cedidos e de licença, sobram 223. Temos 1.909 investigadores, mas descontados os afastados e de férias, sobram 1.710 trabalhando. Escrivães, temos 696 – descontando tudo isso, sobram 623 trabalhando. 

MidiaNews – Seriam necessários mais mil homens em quais cargos: delegados, escrivães, investigadores?

Peralta – 
De uma forma geral, para todos os cargos. Mas, hoje, o nosso maior problema é quanto à falta de delegados de Polícia. E o concurso para delegado é considerado um dos mais difíceis que existem, porque tem muitas fases: física, psicológica, investigação social, prova oral, academia. Demora de um ano e meio a dois anos para você ter esse delegado lá na ponta. Mas, nesses dois anos, o efetivo que já é pequeno, diminui mais ainda.

MidiaNews – Recentemente, houve um concurso público para preenchimento de vagas. Há mais pessoas a serem chamadas ou previsão de um novo concurso público?

Peralta –
 Não há mais aprovados a serem chamados. Agora, o que nós temos para ser lançado é um concurso para o preenchimento de 130 vagas de delegados de Polícia. Não temos mais ninguém pra chamar, não temos cadastro reserva e nem temos concurso em andamento, então, estamos tentando abrir esse concurso. A nossa meta é setembro. Vamos tentar lançar esse edital até setembro e esse será, praticamente, o maior concurso de delegados de Mato Grosso. 

MidiaNews – O senhor disse que o maior problema, hoje, na Polícia Civil, é a falta de efetivo. Questões como quantidade e qualidade de aparelhamento, armamento, estão solucionadas?

Peralta –
 Isso tem melhorado, porque é mais fácil de resolver. Com dinheiro, você resolve isso rapidamente. No ano passado, por exemplo, as aquisições da Polícia Civil em Mato Grosso totalizaram um número irrisório, em um total de R$ 1,090 milhão. Este ano, até o começo de agosto, já foram adquiridos R$ 3,9 milhões em equipamentos e ainda temos mais R$ 12 milhões previstos para serem usados até dezembro. Todos os dias entregam móveis, computadores, aqui na sede.

MidiaNews – Além do efetivo, há outras dificuldades enfrentadas hoje pela Polícia Civil?

Peralta –
 Uma das nossas dificuldades é a questão de que os nossos prédios são, em sua maioria, locados. A própria sede da Polícia Civil é locada. É uma instituição de 173 anos que ainda não tem sua sede própria. 

MidiaNews – Houve mudanças da gestão anterior para essa? 

Peralta – 
Estamos focando muito no aprimoramento da gestão de Segurança. Essa seria uma das grandes mudanças que estamos aplicando agora. Evoluímos, na Polícia Civil, em muitas áreas, mas em outras, deixamos a desejar. Em matéria de gestão, estamos muito atrasados. O que seria exatamente esse problema de gestão? Vou dar um exemplo: temos quase três mil servidores. Se você pegar o João da Silva que está lá na região de Barra do Garças, ou o Zé de Tal que atua em Cáceres e me perguntar o que esses caras fazem na Polícia Civil, eu não sei lhe responder, o diretor dele também não sabe. Então, estamos investindo nesse tipo de mecanismo.

MidiaNews – Falta controle, então?

Peralta –
 Falta controle de gestão, totalmente. Mas estamos começando isso agora. Ainda ontem, eu recebi um relatório que aponta o que cada delegado faz. Porque, hoje, até o controle de unidades eu tenho. O que é cada delegacia, eu sei. Mas o que cada servidor faz dentro da unidade, eu não sei. Se você me perguntasse quantas armas nós tínhamos e onde essas armas estavam, nas gestões passadas, eu não saberia responder. E isso atrapalha muito, porque você não tem como saber se o indivíduo esta trabalhando ou não. A Polícia está muito atrasada em relação a isso. É uma mudança que causa resistência, obviamente, porque você vai controlar o servidor. Mas é algo natural. Se o indivíduo se presta a trabalhar, ele tem que prestar contas ao chefe dele sobre o que ele está fazendo.

Com esse aprimoramento da gestão, vou ter condições de controlar o que cada servidor faz, onde está pesando para um, onde está sobrando para outro. Para nos auxiliar, estamos implantando o sistema administrativo, chamado de GEA, que funciona, já está na plataforma, mas ainda não está abastecido. Ele terá todos os dados dos servidores, informações rápidas de lotações, cruzamento de pessoas procuradas, controle de inquéritos e de produções para saber o que cada unidade fez, quantas armas eu tenho, nas mãos de quem elas estão, quantas algemas e munições eu tenho, o que está faltando. Para chegar num ponto em que possa saber que, nesse ano de 2015, eu tive 800 disparos de pistola .40, 1.070 disparos de calibre .38. Queremos ter esse nível de controle. 

Agora, é algo muito difícil de ser implantado devido à resistência. Porque o servidor não é igual o indivíduo que entra para o mercado de trabalho privado, que sabe que vai ser fiscalizado, que tem uma meta a cumprir. Com o servidor público, é mais complicado você conseguir resposta. É uma mudança de postura. É um caminho natural. Não sei quanto tempo vamos levar para chegar ao nível que queremos, mas é uma característica dessa gestão e nós vamos implantar. Já implementamos o banco de horas, enfim, são benefícios para o servidor. Se ele trabalha mais, vamos pagar. Vamos cumprir o direito do servidor que trabalha mais e não tinha sua hora registrada, mas vamos cobrar a contrapartida, o que afeta aquele que não fazia nada. 

MidiaNews – Qual é o orçamento destinado pelo Estado à Polícia Civil?

Peralta – 
O nosso orçamento é ligado ao da Secretaria de Estado de Segurança Pública. O problema é que esse orçamento era sempre fictício, até essa gestão. Como é que vamos trabalhar com aquisições que somam apenas R$ 1,090 milhão em um ano inteiro? Não é nada. Agora, a Secretaria está suplementando para que nós possamos trabalhar com orçamentos reais, que é o de R$ 16 milhões para esse ano. É um valor considerável, mas, ao mesmo tempo, temos muita coisa que passou muito tempo sem a manutenção adequada, ou seja, temos muita coisa por fazer. Se mantermos esse valor, em três ou quatro anos, conseguir organizar a casa.

MidiaNews – Diante dessas mudanças, qual é a cara da Polícia Civil nesse novo governo?

Peralta –
 A principal mudança de uma gestão para outra é a prioridade com que o Governo do Estado tem tratado a Polícia Civil. Porque os problemas da Polícia Civil não eram, exatamente, da Instituição. Sempre fizemos o que era possível ser feito. O problema era que os governos não tratavam a instituição como prioridade. Dar R$ 1,090 milhão para a Polícia Civil? O que a instituição poderia fazer com isso? É a miséria da miséria. Ficava faltando tudo. Agora, o orçamento está sendo pelo menos adequado à realidade. 

MidiaNews – Com a melhora do orçamento, quais os investimentos prioritários da instituição?

Peralta –
 Uma das coisas que estamos priorizando é a melhoria das sedes. Melhoramos a Central de Ocorrências de Cuiabá, na Prainha, o que, consequentemente, resultou na melhora do atendimento. Em 15 ou 20 minutos, você sai com o boletim de ocorrência pronto. Nesta semana, inauguramos a nova sede da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), que se trata de um prédio muito melhor, com um aluguel muito mais barato. E a DRE tem uma situação peculiar porque ela faz muitas apreensões em flagrantes, principalmente de veículos, aparelhos eletrônicos diversos, além das drogas. Então, ela precisa de um pátio maior, de um espaço maior. Ao todo, estamos reformando 12 unidades até o final do ano. Passarão por obras as Delegacias do Carumbé, onde está instalada a 2ª Delegacia de Polícia e o Plantão Metropolitano de Cuiabá; a 1ª Delegacia de Polícia e o Plantão de Várzea Grande; a Delegacia de Roubos e Furtos e a 1ª Delegacia de Polícia, de Sinop; as delegacias de Canarana, Querência – que já foi inaugurada, Nova Canaã do Norte; e as delegacias de Defesa da Mulher de Cuiabá e Várzea Grande; e a Delegacia Regional –que foi transferida de Diamantino para Nova Mutum – e a Delegacia de Nova Mutum. 

Nessas unidades, estamos focando na padronização das delegacias, desde a pintura, até a identificação visual. Como foi o caso das viaturas, que foram entregues pelo Estado recentemente à Polícia Civil, que são todas iguais, facilmente identificadas como um carro de polícia, e não administrativa, facilitando a identificação desses veículos pelo cidadão comum, seja brasileiro ou estrangeiro.
Além das reformas e padronização das unidades, também focamos na compra de equipamentos de trabalho, de informática, tudo de qualidade. Não como foi feito há cinco anos, quando a Polícia comprou notebooks de uma determinada marca, que não presta nem para criança brincar, e distribuiu para todo mundo. Eu trabalhava na Corregedoria naquela época e você, como servidor público, se perder ou tiver roubado aquele objeto que está sob sua cautela, você tem que pagar. É uma cautela pessoal. Atendi um delegado nessa situação, que teve o notebook extraviado. Para não instaurar sindicância, ele decidiu por pagar pelo aparelho. Na nota de compra, o notebook constava como valendo R$ 3,6 mil. Mas, no mercado, com R$ 1,8 mil, você comprava um bem melhor do que aquele. 

MidiaNews – Além das reformas, há previsão de compra de armamentos e outros materiais essenciais para o trabalho?

Peralta –
 Sim. Ao todo, R$ 3,939 milhões já foram usados para a compra de materiais permanentes e tecnológicos para dar infraestrutura às delegacias: como aparelhos de ar condicionado e mobiliários, equipamentos de informática e de inteligência. Além disso, já está em andamento o investimento de R$ 12,090 milhões para a compra de materiais bélicos – 914 pistolas calibre 40, 2.522 coletes à prova de bala, 600 algemas e munições. 

MidiaNews – A Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) lançou algumas operações ao longo do primeiro semestre, a exemplo da “Karcharias”. Quantas operações estão em andamento pela Polícia Civil atualmente?

Peralta –
 As operações lançadas pela Polícia Civil são grandes, envolvem toda a Polícia Civil. Hoje, desse tipo de operação, que abrange todo o Estado e todas as unidades, segue em andamento apenas a Karcharias, que tem foco em combate à corrupção. São inquéritos demorados, difíceis de serem tocados, que não duram apenas 30 dias, não dão um resultado imediato. Às vezes, apenas um inquérito desses, consegue encher uma caminhonete inteira de papel. Imagina o tempo para analisar tudo isso? Mas, além dessa grande operação, temos várias outras operações pequenas, por regionais ou em municípios, que são exclusivas da Polícia Civil. Agora, mesmo, estamos preparando uma grande operação em determinada região do Estado, que tem foco em 60 alvos. 

MidiaNews – Mas, no caso da Karcharias, ela já está próxima do fim? Outras operações integradas como essa estão prestes a ser lançadas?

Peralta –
 Essa operação provavelmente será prorrogada, porque o nosso objetivo não tem relação ao prazo, mas concluir os inquéritos e fazer com que essas pessoas realmente sejam levadas à Justiça. E ainda virão outras operações integradas, lançadas pela Sesp. 

MidiaNews – E quanto à operação mais recente, “Top Five”, desencadeada pela Polícia Civil? Há um saldo final?

Peralta – 
Ela foi lançada com o foco de trabalhar em cima de cinco alvos de cada unidade da Polícia Civil. Ela resultou em duas mil pessoas presas no Estado, considerando lideranças e seus comparsas. No interior, foram 882 prisões. Só na Capital, foram pouco mais de 120 lideranças presas. Além disso, houve aqueles que foram autuados e presos em flagrante, durante a operação, somando o universo de duas mil. É como eu disse: o número de prisões e de inquéritos aumentou, mas o resultado é difícil de ser visto por todos quando você tem dados muito altos de crimes. Cuiabá é considerada a 29ª cidade mais violenta do Mundo. Por mais que você reduza em 33% o número de homicídios, que é uma meta altíssima, um número expressivo, você acaba trabalhando com uma realidade muito difícil de ser enfrentada. E o Estado conta, ainda, com uma vizinhança nada privilegiada, com os maiores produtores de droga nos cercando, o que dificulta ainda mais o trabalho.

MidiaNews –Os resultados dessas operações, até então, têm sido satisfatórios?

Peralta – 
Estão sendo muito satisfatórios. Agora, a Segurança é uma corrente. Todo o sistema de persecução penal é uma corrente. Quando um dos elos quebra, ela se rompe. Se você não tiver local para guardar presos e os presos, por conta disso, forem liberados, você pode se matar de trabalhar que não vai conseguir baixar índices. Por exemplo, eu estive em Guarantã do Norte. Na delegacia, havia 17 presos e o delegado estava com um monte de operações para lançar e mandados para cumprir, mas não podia fazer nada porque não teria onde colocar mais presos. Aí, tem que transferir os presos para Peixoto de Azevedo, que é a comarca mais próxima para recebê-los. Chega em Peixoto de Azevedo, a Cadeia Pública está interditada. Isso é um elo da corrente que se rompe. E não é um problema específico de Peixoto de Azevedo. São problemas represados que você não vai resolver de uma hora pra outra. E hoje, para melhorar, nós ainda temos essa política de desencarceramento, que não é só em Mato Grosso, é a nível nacional. Em alguns crimes, o índice de reincidência é pequeno, mas em casos de crimes contra o patrimônio, por exemplo, o índice é alto. Ladrão, seja na modalidade roubo ou furto, sai hoje da cadeia e, no máximo amanhã, já está roubando de novo. O índice é de mais de 70%.

MidiaNews – O senhor é contra essa política de desencarceramento, então?

Peralta –
 Eu acho que é uma política muito ruim para baixar índices. Para mim, em alguns tipos de crime, é só cadeia mesmo que resolve. Não tem outro elemento que vai resolver esse problema.

MidiaNews – As Polícia Civil tem divulgado inúmeras apreensões de drogas no Estado. Há um balanço de quanto de entorpecente já foi retirado de circulação no 1º semestre?

Peralta – 
De janeiro a julho deste ano, em todo o Estado, contando o resultado de todas as delegacias da Polícia Civil e o Gefron (Grupo Especial de Fronteira), foram 4,5 toneladas de drogas apreendidas, sendo 1,836 tonelada apenas na região metropolitana. Desse total no Estado, foram apreendidas 3 toneladas de maconha, 1,35 tonelada de cocaína, 192 kg de pasta-base e 2,73 kg de crack. Esse total apreendido no Estado refere-se apenas ao primeiro semestre deste ano e já é maior do que o apreendido em cada ano, desde 2010.

MidiaNews – O tráfico aumentou ou o que melhorou foi o trabalho da Polícia?

Peralta –
 As duas coisas. Não podemos desconsiderar que o país passa por uma crise, o que leva muitas pessoas a migrarem para o crime. E o acesso é facilitado aqui no Estado, pela vizinhança que nós temos. No caso da droga branca, aqui em Mato Grosso, mais de 90% vem da Bolívia. Já a maconha, vem do Paraguai. 

MidiaNews – E na fronteira? Qual o trabalho da Polícia Civil para coibir o tráfico e a receptação de veículos roubados que são levados para aquela região?

Peralta – A Polícia Civil tem cumprido a sua parte. Aumentamos muito as operações na fronteira, tanto na região de Cáceres quanto em Pontes e Lacerda. São situações difíceis de serem enfrentadas, mas nós estamos tendo índices significativos. As apreensões de drogas esses ano, na fronteira, foram enormes. E, quanto aos veículos, o alvo são as caminhonetes traçadas, cuja grande parte vai para a Bolívia ou Paraguai. 

MidiaNews –E qual é o balanço do primeiro semestre de trabalho da Polícia Civil?

Peralta – 
Como eu disse, o inquérito é o verdadeiro produto da Polícia Civil. Quanto aos inquéritos concluídos com autoria, que significa resolutividade, tivemos um acréscimo de 23% e um acréscimo de 19,3% nos inquéritos instaurados, que correspondem às novas investigações. Transformando isso em números, são 20.315 novos inquéritos instaurados e 16.807 inquéritos concluídos e enviados para a Justiça com autoria. E, de uma forma geral - considerando Polícias Civil e Militar –, foram efetuadas 10.941 prisões. A Polícia Civil tem trabalhado bastante e reduzido os índices. E estamos focando naquelas que não conseguimos atingir a meta, como é o caso dos roubos em Cuiabá, que é uma prioridade no sistema operacional da Polícia Civil.

MidiaNews – E, voltando os olhos para o interior, onde o índice de crimes, como assaltos a mão armada e com reféns – principalmente de agências bancárias – já foi alto. Qual a estrutura atual da Polícia Civil no interior? É o suficiente para atender com eficácia os principais polos e demais municípios ou são pontos frágeis, carentes da presença da Polícia?

Peralta –
 Para solucionar o problema da presença da Polícia Civil no interior, nós criamos os Grupos de Resposta Tática (GRTs), o que gera algumas implicações. Por exemplo, você tem o policial normal, que pode ter um tipo de armamento. Já o policial treinado no GRT, é como o policial do GOE (Gerência de Operações Especiais), que pode ter um armamento pesado. Então, estamos criando isso em várias vertentes. Por exemplo, com um grupo desses em Barra do Garças, eles podem subir rapidamente para atender a região de Água Boa. Estamos criando, prioritariamente, um GRT em Sinop e outro em Rondonópolis. Mas, ao todo, serão cinco GRTs. As outras três serão em Barra do Garças, Cáceres – para atender até Pontes e Lacerda, Comodoro e aquela região ali pra cima – e Tangará da Serra, para subir para Juína. Então, você tendo essas cinco GRTs, teríamos uma resposta tática muito mais rápida. 

MidiaNews – E quanto às investigações? Há aparelhamento suficiente para que todas sejam conduzidas igualmente?

Peralta –
 Sim. O que acontece é que as pessoas focam na questão de resolutividade de inquérito, quando, na verdade, o nosso foco é outro, de controle da produtividade. Somente no primeiro semestre deste ano, a produtividade da Polícia Civil já aumentou 23%. Nós não trabalhamos com a meta de baixar estatísticas, esse não é o papel prioritário da Polícia Civil. Os nossos produtos 

são inquéritos policiais e termos circunstanciados. Esse é o nosso produto e a nossa obrigação: fazer isso e fazer bem feito. E não é fácil. Mas, ainda que seja um foco secundário, as estatísticas têm baixado. Praticamente todos os índices baixaram no Estado, principalmente de homicídios. Mas a única coisa que não conseguimos reduzir o número de roubos na Capital. Esse é um grande desafio. Não apenas não baixou, como aumentou. As investigações de crimes contra a Fazenda Pública também estão aumentando. A Delegacia de Entorpecentes também aumentou o número de inquéritos e de drogas apreendidas.


MidiaNews – Sobre a atuação específica de alguns setores da Polícia Civil, como as Gerências de Operações Especiais (GOE) e de Combate ao Crime Organizado (GCCO). Qual o papel de cada uma e quando, efetivamente, elas entram em ação?

Peralta –
 O GOE não tem um foco investigativo, mas sim de suporte operacional. Eles não investigam crimes, mas se houver uma demanda em uma grande operação em determinado local, eles são chamados para auxiliar. Já o GCCO trata de crimes mais graves e contam com armamentos pesados, equipamentos melhores e um número menor de inquéritos, focando em investigações mais complexas. Temos também a GOA, que é a Gerência de Operações Aéreas, que atua integrada ao Ciopaer (Centro Integrado de Operações Aéreas), e a Polinter, que é a Delegacia de Capturas.

MidiaNews – Para ingressar em algumas dessas gerências, há um preparo especial?

Peralta – 
Sim. Nós, inclusive, terminamos agora alguns editais internos. Além da seleção, eles recebem um treinamento posterior, com atividades físicas bem intensas, a nível do Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar). Há necessidade dessa seleção por uma questão de perfil. Porque o policial tem que gostar de ficar ali, mexer com armamento pesado, passar vários dias fora de casa, enfim.

 

 

Lislaine Dos Anjos 
Da Redação

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