24/08/2015 - Campanha visa aumentar doação de medula óssea em Mato Grosso

“É indescritível a emoção que senti ao saber que salvei uma vida”. A declaração é do engenheiro agrônomo Luiz Henrique Vargas, 42, que realizou, em fevereiro de 2015, a doação de medula óssea para uma criança de oito anos, portadora da Anemia de Fanconi, que estava em tratamento em São Paulo. 

Morador de Cuiabá, Vargas já doava sangue há mais de 20 anos. Em 2014, viu uma campanha para a doação de medula óssea no Hemocentro e resolveu fazer parte do Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome). 

Um mês depois, recebeu uma ligação do Instituto Nacional do Câncer (Inca), responsável pelo Redome, dizendo que as suas características genéticas eram compatíveis com a da criança. 

O engenheiro, então, foi encaminhado, para realizar o procedimento de doação na cidade de Belo Horizonte (MG), pois a unidade de São Paulo estava superlotada. 

“Fiquei 24h internado, após o procedimento. Depois saí 'batendo perna' pela cidade. Foi tudo muito tranquilo e seguro”, afirmou. 

Para fazer a doação, o engenheiro teve todas as despesas pagas pelo Inca, como o transporte para viagem, hospedagem e alimentação.

“Trinta dias depois da doação, o Inca me ligou e informou que a criança tinha passado pelo transplante e estava correspondendo muito bem aos tratamentos. Se não fosse a minha doação, provavelmente ela não estaria mais viva”, disse. 

Para Luiz, tão importante quanto a doação, foi a quebra de tabu na família. 

Depois do procedimento tão bem sucedido, vários parentes perderam o medo e se cadastraram no Redome. 

O engenheiro pede para que cada vez mais pessoas sejam doadoras. Como a possibilidade de uma compatibilidade genética entre não aparentados é muito rara, quanto mais pessoas se cadastrarem, maiores as chances dos pacientes.

Atualmente, segundo o Governo do Estado, há cerca de 40 mil pessoas, em Mato Grosso, cadastradas no banco de dados do Redome.

O Estado iniciou uma campanha, principalmente via redes sociais, que visa aumentar o número de doadores. 

Segundo a Secretaria de Estado de Saúde, um total 50 novos cadastros são realizados por semana na sede do Hemocentro, em Cuiabá.

No entanto, a possibilidade de encontrar alguém compatível é de um paciente em cada 100 mil doadores.

Campanha e esperança

O pequeno Mobarack Motaz, de 10 anos, é portador de um tipo raro de câncer, chamado de linfoma não-hodgkin.

O jovem está em São Paulo para tratar da doença, que foi descoberta no ano passado.

“Ele ficou doente em fevereiro de 2014 e, após alguns exames, foi diagnosticado com esse tipo raro de câncer”, disse a irmã do menino, Lina Omar. 

Em agosto, do ano passado, parte da família de Cuiabá foi para São Paulo para tratar da doença. Mobarak realiza tratamento no Instituto de Tratamento do Câncer Infantil (Itaci), na capital paulista.

Segundo Lina, o irmão fez tratamento de quimioterapia, mas o procedimento não surtiu efeito.

“Depois de os médicos concluírem que a quimioterapia não seria suficiente, eles entenderam que um transplante de medula óssea poderia melhorar a condição do meu irmão”, afirmou.

Após o teste de compatibilidade de alguns parentes rejeitar a possibilidade de uma doação de medula para o garoto, Lina recebeu, na última sexta-feira (14), a notícia de que a genética dela também não é compatível. 

“Além de nós, parentes mais próximos, nós recebemos a notícia de que, até agora, ninguém cadastrado no Redome  é compatível com ele”, disse.

Com a notícia, a universitária começou uma campanha na internet para tentar estimular pessoas a doarem sangue e se registrarem como doadores de medula. 

“Comecei a divulgar e falar para as pessoas irem ao Hemocentro mais próximo e doarem uma amostra de sangue. Se a pessoa não for compatível com o meu irmão, pode ser compatível com outra pessoa e salvar uma vida”, afirmou.

A doação

Conforme o hematologista José Dias Rezende Júnior, há dois procedimentos mais comuns para a doação de medula óssea. 

O primeiro é o periférico. Nesse procedimento, segundo ele, o doador recebe uma medicação durante cinco ou seis dias através de uma injeção, para estimular as células que compõem a medula óssea a sair para o sangue. 

Após isso, é feito a coleta da medula óssea, utilizando-se um equipamento de aférese. 

“É como se o doador tomasse soro. Na retirada do sangue, a máquina processa a célula de origens hematopoiéticas e, depois, o sangue volta para o doador”, explicou Rezende.
 
Já o segundo procedimento, conforme o hematologista, consiste em levar o doador para o centro cirúrgico, onde ele passa por uma pequena cirurgia para a retirada da medula óssea no fim da bacia. 

“O doador é sedado e fica deitado de bruços. Depois é feito a coleta da medula óssea através de pequenas microincisões com agulhas”, relatou. 

Ele ressaltou, entretanto, que o procedimento que é mais utilizado atualmente é o periférico. 

“As pessoas tem medo de ir para uma sala de cirurgia, então o método mais comum hoje é o periférico. Eu posso dizer, por experiência, que a doação de medula óssea é muito segura e tranquila”, afirmou. 

Segundo o hematologista, a medicina tem avançado na questão de transplante de medula óssea e, hoje, o doador não precisa ser 100% compatível para que o transplante seja realizado. 

“Hoje em dia, a gente tem outras modalidades de transplantes em que a pessoa não precisa ser 100% compatível para doar, só que a imune supressão que você causa no paciente que vai receber a medula é maior, aumenta a chance de ter infecção. Porém, com as medicações no mercado, esse paciente pode sair bem e curar a doença dele”, afirmou. 

Há também, conforme o especialista, a possibilidade de transplante de medula óssea através do cordão umbilical.

Como doar 

Qualquer pessoa entre 18 e 55 anos com boa saúde pode doar medula óssea. 

Os doadores preenchem um formulário com dados pessoais e é coletada uma amostra de sangue com 5 a 10ml para testes. 

Em Mato Grosso, a coleta é feita pelo Hemocentro. 

Os testes determinam as características genéticas que são necessárias para a compatibilidade entre o doador e o paciente.

Os dados de doadores e pacientes que precisam de transplante de medula óssea são cruzados e, caso haja possibilidade de compatibilidade, outros exames de sangue serão necessários.

Se a compatibilidade for confirmada, o doador será consultado para confirmar que deseja realizar a doação. Antes, porém, seu atual estado de saúde será avaliado.

Recuperação

Para quem doa, nos primeiros três dias após a doação pode haver desconforto localizado, de leve a moderado, que pode ser amenizado com o uso de analgésicos e medidas simples. 

Normalmente, os doadores retornam às suas atividades habituais depois da primeira semana.

Já para quem recebe a doação, o processo de recuperação exige bastante cuidado. 

Isso porque antes de receber a doação, o paciente precisa passar por uma quimioterapia pesada para matar todas as células do paciente, tantas as boas, como as ruins. 

A quimioterapia provoca a queda da produção de todas as células do sangue, das doentes e das sadias. O baixo número de leucócitos, principalmente os neutrófilos (um tipo de leucócitos), deixa sujeito às infecções bacterianas, fúngicas, virais e protozoários. 

Por isso, o paciente deve ser mantido internado no hospital, em regime de isolamento. Cuidados com a dieta, limpeza e esforços físicos são necessários. 

Por um período de duas a três semanas, o paciente necessitará ser mantido internado e, apesar de todos os cuidados, os episódios de febre são muito comuns. 

Após a recuperação da medula, o paciente segue uma vida normal, mas continua a receber tratamento, só que em regime ambulatorial, sendo necessário, em alguns casos o comparecimento diário ao Hospital.

 

 

 

Thaiza Assunção 
Da Redação

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