25/08/2014 - “Papel de um senador não é construir estradas e pontes”

Aos 62 anos – sendo 30 deles dedicados à política –, o último candidato a colocar o seu nome na disputa ao Senado Federal nas eleições deste ano, Rogério Salles (PSDB) criticou indiretamente seus adversários, ressaltando qual o papel de um senador em Brasília.

O ex-governador do Estado (2002-2003) também admitiu estar ciente das dificuldades que irá enfrentar na disputa, uma vez que foi convocado pela coligação Coragem e Atitude para Mudar para “tampar o buraco" que será deixado pelo atual senador Jaime Campos (DEM).

“Tivemos pouco tempo para nos organizar, colocar isso no ar, enquanto os outros tiveram 30 dias para se preparar, organizar a estrutura, montar sua equipe. Eu não tive esse tempo. Mas eu não tenho dúvidas de que vou recuperar isso ao longo da campanha“, disse, em entrevista ao MidiaNews.

Salles também se defendeu da acusação feita pela deputada do PSB, Luciane Bezerra, de que seria “laranja” e não o principal nome da coligação do senador Pedro Taques (PDT) para ocupar a vaga.

Sem usar tons ríspidos e bastante calmo, o vice-prefeito licenciado de Rondonópolis (212 km ao Sul de Cuiabá) disse já ter superado o episódio.

“Eu não trabalhei no sentido de tirar ninguém do meu caminho. Aceito com naturalidade algumas manifestações que foram feitas, mas já conversei com algumas pessoas, inclusive com a Luciane, e essas questões, para mim, já estão totalmente superadas. O que importa é o resultado final”, afirmou.

O candidato observou que a sua bagagem política pode ser um dos fatores positivos no dia 5 de outubro. Salles afirmou, ainda, que acredita em “dobradinha política” entre ele e o candidato ao Governo do Estado, Pedro Taques (PDT).

Mesmo com a sua coligação apoiando os três principais candidatos à Presidência da República, o tucano disse que irá pedir votos apenas ao seu correligionário, Aécio Neves (PSDB), que esteve nesta semana em Cuiabá.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista concedida por Rogério Salles ao MidiaNews:

MidiaNews – Qual a análise que o senhor faz de Mato Grosso hoje, nos aspectos econômico, social e de infraestrutura?


Rogério Salles – A economia do Estado cresceu muito, principalmente da época em que assumi o governo [em 2002] para cá, assim como o Estado, mas nós não tivemos habilidade de transformar esse crescimento em desenvolvimento das áreas essenciais, como a social, educacional e a saúde, como deveríamos. Problemas que existiam em 1998 continuam existindo, apesar de termos um orçamento muito maior, uma produção maior e as cidades estarem mais bem estruturadas. Eles persistem. As pessoas continuam reclamando da falta de segurança, da falta de investimento – como é o caso de cidades que ficaram ilhadas na época das chuvas, o que prejudica o Estado devido à grande produção que temos – e isso é inadmissível. Nós estamos nos especializando em ser um Estado exportador de matérias-primas, servimos para gerar emprego e renda para outros lugares. Houve muito pouca industrialização do Estado. Crescemos, mas não nos desenvolvemos.

MidiaNews – Dentro desses campos analisados, o que deveria ser feito?

Salles –
 Nós precisamos, por exemplo, cobrar do Governo Federal para que invista com mais firmeza na área de saúde, por exemplo, porque eu vejo os prefeitos cobrando algo que eu cobrava quando fui prefeito em Rondonópolis e hoje, como vice-prefeito. O Governo Federal está participando cada vez menos da solução dos problemas da saúde. A participação que já foi de quase 60% nos gastos totais da saúde, hoje já está em torno de 50% ou até menos. A União cria programas que deveriam ser em parceria com o governo do Estado e as prefeituras, mas na verdade eles bancam o investimento de criação e depois deixam o custeio por conta das prefeituras. Saúde é obrigação dos três níveis de governo e hoje o governo federal cria programas que acabam sobrando para os municípios. Prefeituras que deveriam aplicar 15% da receita em Saúde como determina a Constituição, por exemplo, hoje não aplicam menos de 20%, porque o Estado e o Governo Federal não cumprem com seus percentuais mínimos. Isso tem que mudar. A questão da segurança, por exemplo, sempre foi uma angústia das pessoas. Nós temos mil quilômetros de fronteira e as pessoas sempre reclamaram que o Governo Federal era omisso no controle das fronteiras – nós temos mil quilômetros de fronteira seca – e continua omisso. Isso não mudou nada. A ligação de Cuiabá-Santarém (PA), que tanto se criticava na época de Fernando Henrique Cardoso por não ter sido concluída, até hoje não se concluiu. A informação que eu tenho é que esse ano eles fizeram só 10 km, ou seja, vamos terminar esse governo e não vai terminar ainda. A questão da carga tributária, também. O Governo Federal modernizou a máquina de arrecadação, mas não simplificou o processo para o contribuinte, que fica refém dela. Temos uma carga tributária muito alta e complicada, uma estrutura muito pesada. A União e o Estado precisam aperfeiçoar para diminuir e simplificar a carga tributária. Questão do licenciamento ambiental, por exemplo, não há sintonia entre o que o Estado diz e o que a União faz. Isso tem que ser unificado, porque o contribuinte não pode ficar refém da burocracia, dessa falta de diálogo entre as três esferas. Para ele, não há diferença entre governo municipal, estadual e federal.

MidiaNews – E o seu papel como senador seria cobrando essa participação mais efetiva do Estado e da União em favor dos municípios?

Salles –
 O senador não faz decreto, mas pode pressionar para que o Governo Federal invista mais na segurança da fronteira, assuma suas obrigações e invista mais nos municípios. O senador pode vincular 

recursos do orçamento para a segurança, cobrar do governo – dentro daquilo que a lei permitir – para que a União não faça apenas investimentos, mas tenha participação mais direta nos custeios da Saúde, e obrigue os estados a fazer a sua parte, porque se ele não cumpre sua parte e o município não assumir esse trabalho, o serviço para. Isso tem que ser mais bem disciplinado por lei, a responsabilidade tem que ser mais compartilhada, porque o elo fraco de toda a sua cadeia é o município. O cidadão que vai ao Posto de Saúde e não acha medicamento não quer saber qual poder não está cumprindo sua obrigação, ele culpa o município. Esse é um exemplo do que precisa ser mais bem explicitado por lei, não por portarias, e é aí que entra o papel do senador.


MidiaNews – Em resumo, se eleito, quais propostas o senhor pretende defender em Brasília?

Salles – 
Vou defender a revisão do pacto federativo, a maior participação do governo federal para vincular recursos para a saúde e a segurança de fronteira e a melhora da logística do Estado também. Porque temos estudos de construção de ferrovias que fazem com que a carga produzida no Nortão, escoe lá por cima do Estado. O que produz no Oeste, também é escoado por lá. No Leste, a mesma coisa. Em Rondonópolis, a ferrovia escoa a produção para Santos (SP). E o meio? Essa visão, para mim, não é correta. A ferrovia tem que integrar a economia do Estado. Tudo bem, do ponto de vista de rentabilidade e de lógica econômica, isso funciona. Mas qual é o interesse de Mato Grosso? Que ele seja integrado de Leste a Oeste, de Norte a Sul, e não para fora. Nós não podemos aceitar esse tipo de coisa e vou trabalhar no Senado para que o governo não conceda concessões com esse tipo de visão.

MidiaNews – Em toda a campanha ao Senado, ouvem-se propostas muito parecidas dos candidatos, mas quando os senadores são eleitos, se vê pouca coisa. Como o senhor analisa os atuais senadores?

Salles –
 Acho que temos que esclarecer bem à população sobre o papel de cada agente público. O papel do senador não é construir estradas e pontes. Esse é o papel do executivo. O senador tem que atuar muito em cima do papel legal, alterar as leis que existem hoje. E eu vejo que muitas vezes esse papel dos senadores e deputados não é muito bem entendido e a população acaba cobrando a execução dos serviços. O legislativo tem que atuar como legislador. Vejo que tem alguns senadores, como é o caso do Pedro Taques (PDT) que tem feito muito bem seu papel. No Senado, eu defendo que nós precisamos rediscutir essa questão do pacto federativo, essa distribuição dos recursos entre União, estados e municípios. A Constituição determina que 25% do que fosse arrecadado ficasse com o município, 25% com o Estado e 50% com a União. E hoje nem 13% fica com o Município. E nós temos que trabalhar para reverter isso. Enquanto isso não acontecer, temos as emendas parlamentares as quais os senadores têm direito. Não pretendo me omitir de fazer uso das emendas já que há essa previsão legal, pura e simplesmente porque não concordo com essa ferramenta. Mas vou procurar fazer com que elas sejam aplicadas em cada Município em função de um projeto ou um plano de desenvolvimento do Município.

MidiaNews – O senhor é contra as emendas parlamentares?

Salles –
 Eu entendo que o dinheiro tem que estar nos municípios, que é quem precisa. Dinheiro para construir posto de saúde não precisa estar em Brasília, ele tem que estar na cidade que precisa da unidade de saúde. O mesmo vale para asfaltamento de ruas, construções. Por isso eu defendo que o pacto federativo diminua esse passeio. Onde arrecadamos? Nos municípios. Onde estão as pessoas e as demandas? Nos municípios. Onde o cidadão pode fiscalizar melhor a aplicação correta do dinheiro público? Nos municípios. Os recursos devem ficar mais nos municípios, porque daí sim o deputado e o senador cumprirão com os papéis corretos que lhes cabem, que é o de legislar. Penso que, da forma como são usadas hoje, as emendas acabam levando a um atrelamento político, são distribuídos por critérios políticos – para não citar outros critérios que a gente ouve e que pesam na hora de distribuição. Eu vou trabalhar para mudar essa situação, reverter esse quadro.

Campanha

MidiaNews – O senhor se sente prejudicado por ter entrado no pleito mais tarde que os outros candidatos que já estavam em campanha?

Salles –
 Eu não tenho dúvida de que existe um grau de dificuldade maior e que isso vai exigir um esforço maior de mim. Acaba tendo algum prejuízo, como é o caso do nosso programa eleitoral, que foi ao ar esses dias atrás. Tivemos pouco tempo para nos organizar, colocar isso no ar, enquanto os outros tiveram 30 dias para se preparar, organizar a estrutura, montar sua equipe. Eu não tive esse tempo. Mas eu não tenho dúvidas de que vou recuperar isso ao longo da campanha. Quando eu aceitei assumir esse cargo, eu sabia dessa dificuldade. Mas prejudicado mesmo eu seria se tivesse sido escolhido 30 dias antes e não soubesse que era candidato.

MidiaNews – O senhor acredita que a escolha do seu nome gerou conflito dentro da coligação? Houve até o episódio em que o nome da deputada Luciane Bezerra (PSB) foi cogitado e ela chegou a lhe chamar de “laranja”, em uma entrevista ao jornal “A Gazeta”?

Salles –
 Uma coligação com diversos partidos políticos e lideranças, é natural que muitas pessoas criem expectativas de ocupar espaços que não podem ficar vazios. Essa discussão teve antes da definição do nome de Jaime Campos como candidato a senador e, com a sua retirada, criou-se uma expectativa muito grande. Isso é natural. Em momento algum eu pleiteei ocupar esse espaço, porque já estava com a minha candidatura a deputado federal colocada já e trabalhando para isso. Só aceitei porque fui procurado pelas lideranças da coligação e pelo candidato a governador Pedro Taques (PDT), que me falou da necessidade do grupo. Eu não trabalhei no sentido de tirar ninguém do meu caminho. Aceito com naturalidade algumas manifestações que foram feitas, mas já conversei com algumas pessoas, inclusive com a Luciane, e essas questões, para mim, já estão totalmente superadas. O que importa é o resultado final.

MidiaNews – O candidato que ocupa o primeiro lugar nas pesquisas, Wellington Fagundes (PR), almeja essa vaga do Senado há muito tempo e está se preparando para isso há alguns anos, enquanto o senhor foi pego de surpresa, em uma convocação da coligação. O Wellington é um candidato que o senhor pode vencer?

Salles – 
Eu penso que a minha história política é forte para isso, assim como as minhas ideias. E eu sou coerente. Hoje é fácil você fazer um programa de propostas, com a ajuda da internet, com pesquisas no Google. Agora, tem que haver relação entre aquilo que você está pregando a sua vida pública. O que garante que eu vou fazer aquilo que estou propondo? Aquilo que eu fiz na minha vida pública, a minha história, as pessoas que me conhecem. Não entrei do nada na política e pesquisei o que ia propor. Eu sempre fui coerente na minha vida política e procuro manter essa coerência entre aquilo que eu falo e aquilo que eu faço.

MidiaNews – Mesmo entrando tardiamente na corrida, o senhor já está em 2º lugar nas pesquisas eleitorais. O senhor acredita que está nessa posição pelo seu nome ou se trata de um reflexo da força do candidato Pedro Taques (PDT)?

Salles –
 Eu entendo que tudo isso influi. Eu tenho uma história na política. Já fui prefeito em Rondonópolis, fui governador, candidato ao Senado na eleição de 2006, candidato a deputado federal, sempre tive uma participação política ativa e isso ajuda. Quando você sai como candidato, as pessoas se lembram do que você foi e fez, por causa da sua exposição pública. Outros candidatos não tiveram essa exposição pública, não ocuparam os cargos que eu ocupei e não tem a sorte de estar em uma chapa que tem um candidato a governador que está em primeiro lugar. A força da candidatura do Pedro Taques contribui. Em minha opinião, está muito claro que o processo decisório das pessoas começa no Executivo. Elas sabem que tem eleições para presidente e governador. Senadores são figuras um pouco mais distantes da população. Então, as pessoas, primeiro, escolhem seus candidatos nas majoritárias do Executivo e só então vão escolher para quem votar para os cargos de senador, deputado federal e deputado estadual, não necessariamente nessa ordem. 

MidiaNews – Qual a análise que o senhor faz dessa postura da sua coligação de apoiar a cinco presidenciáveis? Isso não pode neutralizar os candidatos e deixar o eleitor confuso sobre quem está ligado a quem? 

Salles –
 Eu defendo que tem que haver uma reforma política, porque esse modelo político em que estamos atuando já se esgotou. Não dá para imaginar um sistema com tantos partidos políticos, como nós temos. Eu defendo o fortalecimento dos partidos e esse modelo que nós temos não leva a isso. Mas, por outro lado, não vejo prejuízo em termos de definição do voto. A gente subestima a capacidade do eleitor de definir seu voto. Eu sou do PSDB. Quando eu chego, eu peço voto para mim, para o meu candidato a presidente, para o meu candidato ao Governo Estadual, para os meus candidatos aos deputados federais e estaduais. Tem muitos eleitores que passam por mim e falam: “eu voto em você, mas meu candidato a presidência é outro”. Esse não é o melhor modelo político, mas eu vejo discernimento da população de saber dividir isso. Isso não atrapalha na hora de angariar voto.

MidiaNews – O senhor acredita que os tempos são outros, que o leitor está mais crítico?

Salles –
 Sem dúvida alguma, tem uma revolução acontecendo na capacidade crítica do eleitor. Isso é perceptível. Não existe a diferença que existe entre o eleitor de Cuiabá com o eleitor da cidade mais longínqua no interior, graças à internet. Eu acho que essa modernização deixa o nosso sistema de partidos políticos obsoletos, o que evidencia a necessidade da reforma política. Apesar de que há alguns lugares do interior, e não são cidades pequenas, que não possuem internet. Ali na região da Araguaia, mesmo em locais isolados, as pessoas são críticas, bem informadas e com capacidade crítica melhor do que era no passado. 

MidiaNews – Quando o senhor defende reforma política, o senhor se refere a quê?

Salles – 
Não há democracia no país se ela não existir dentro dos partidos. O poder segue concentrado nas mãos de dirigentes partidários e isso deve ser revisto. Eu defendo que os partidos políticos possam coligar nas candidaturas majoritárias, mas nos cargos proporcionais deve haver limitação nas coligações. Defendo, até por uma questão de coerência dentro do programa do meu partido, o voto distrital. Não dá para alguém lá do extremo Sul sair para acertar voto lá no extremo Norte. Isso encarece as campanhas, encarece as disputas e descaracteriza o processo político. A questão do financiamento público, também. Nós temos que reduzir drasticamente os custos de campanha. Eu tenho muito claro que o fato de existir quem gasta milhões para ser deputado estadual, deputado federal ou prefeito, limita a participação das pessoas como um todo. Imagino que muitas mulheres não participam do processo eleitoral por conta dessas questões, porque precisam gastar muito. Está tudo muito inflacionado. Para mim, a campanha condiciona o mandato. Por isso nós estamos procurando fazer uma campanha com custos reduzidos, procurando criar mecanismos para que mais pessoas participem do processo de financiamento da campanha. Uma opção que existe é o financiamento público da campanha. Para algumas pessoas, isso parece um palavrão, mas falta um pouco de esclarecimento. Quem acaba pagando a conta é o público mesmo. São algumas dessas reformas que eu pretendo defender.

MidiaNews – Falando em gastos de campanha, quanto o senhor pretende gastar? O senhor já está viabilizando doações, já tem recebido apoio financeiro?

Salles – 
Colocamos uma projeção de até R$ 10 milhões, mas vou gastar aquilo que a gente conseguir arrecadar. Nós estamos fazendo uma campanha, até esse momento, exclusivamente casada com a candidatura a governador. Foi até uma estratégia nossa para viabilizar a minha eleição. Então, a mesma produtora que faz o programa do governador, produz o meu programa. Usamos o mesmo material de campanha – santinhos, adesivos –, feitas na mesma gráfica. Usamos o mesmo avião, as mesmas pesquisas. Tudo isso para reduzir custos, porque eu não tive tempo de arrecadar. Se eu for me preocupar em correr atrás de arrecadação agora, não vou fazer campanha, porque todo mundo já vinha se estruturando. Tanto é que nem sei quanto tinha arrecadado até agora, porque não passei na coordenação. Estava estruturando minha candidatura para deputado federal, que também pretendia seguir com baixos custos de campanha, e tive que deixar tudo isso para trás. Agora estou fazendo minha campanha ao mesmo tempo em que a estou estruturando.

MidiaNews – O senhor falou da questão das propostas e do papel do senador, que não seria muito bem entendido pelo eleitor. Em sua avaliação, há candidatos ao Senado fazendo propostas que não condizem com seu papel no Legislativo e que confundem o eleitor. Ou seja, estão prometendo coisas que não poderão cumprir?

Salles –
 Nós vimos isso em propagandas de partidos políticos já, gente dizendo que “fez isso” ou “fez aquilo”, sendo que ele era do Legislativo. Quem faz travessia urbana não é o senador ou o deputado, é o Executivo. Eu posso ajudar com recursos, viabilizando verbas para que essas obras sejam feitas. Nessa campanha, já vimos críticas a programas feitos nesse sentido.

MidiaNews – Candidato, a impressão que ficou para a população é de que o senhor entrou na disputa a contragosto, porque o bloco se desorganizou e foi convocado. O senhor chegou a dizer, inclusive, que tinha compromisso com a Prefeitura de Rondonópolis. O senhor, realmente, sonhou com essa vaga no Senado ou está mais cumprir o papel de “soldado” da coligação?

Salles –
 Eu não sou nenhum inexperiente em política. Quando fui chamado, uma das questões que levei em conta foi a contribuição que poderia dar a esse projeto. Mas também tive clara a viabilidade, as possibilidades de me eleger. Sabia que não seria fácil, até pela maneira como faço política. Quando saí candidato há quatro anos, sem gastar milhões e sem me comprometer com interesses outros que não concordava, sabia do risco e acabei não me elegendo exatamente porque assumi esses riscos. E não pretendia fazer uma campanha a deputado federal agora diferente disso. Ia fazer minha campanha muito focada em Rondonópolis e na região Sul do Estado, trabalhar muito no setor do Agronegócio, que é onde eu tenho mais capacidade eleitoral. Quando fui chamado a ser candidato a senador, além de dar essa contribuição de mostrar que estou nesse projeto porque acredito que Pedro Taques é a melhor opção para fazer as mudanças que Mato Grosso precisa, por ser um governo mais sério, eu também tinha clareza que a possibilidade de me eleger senador da República era real. É só verificar o histórico das eleições dos últimos governadores. Normalmente, o governador que se elege, aumenta também a possibilidade de eleger o seu senador, principalmente se fizer uma campanha única, como estamos fazendo, juntos, pedindo às pessoas para que votem nos dois. E é isso que estou fazendo. Não estou fazendo uma campanha solteira. Combinamos de estar sempre juntos e vamos administrar até onde podemos ir para que isso não se torne algo exagerado. Mas, em minha opinião, eu ganho com isso, e vamos seguir até onde der dessa forma.

MidiaNews – Além de Pedro Taques, com quem o senhor vai contar no palanque? Vai ter apoio nacional?

Salles –
 Eu sou candidato a senador do Aécio Neves (PSDB). Isso está muito claro. Seria incoerente, da minha parte, querer ganhar os votos e atrelar a minha imagem à da Dilma [Roussef] ou da Marina [Silva]. Não é esse o meu perfil. Onde eu sinto que posso pedir votos para o Aécio Neves, eu vinculo minha imagem a ele. E acho que ganho com isso.

MidiaNews – Mas, como sua coligação apoia outros presidenciáveis, isso impede o senhor de subir ao palanque da Dilma (PT) e da Marina Silva (PSB), caso elas venham fazer campanha em Mato Grosso?

Salles –
 Não cheguei a analisar essa possibilidade, mas não vejo problema, em princípio. Em democracia temos que saber viver com essas diferenças e saber respeitar.

MidiaNews – Diante da coerência que o senhor defendeu, não seria estranha – ou incoerente – a sua presença no palanque de outro candidato?

Salles –
 Penso que seria incoerente eu subir e pedir voto a um candidato que tem uma proposta diferente daquilo que eu acredito. Isso eu não poderia fazer. Mas subir lá e pedir voto para a minha candidatura ao Senado, para o nosso candidato a governador e dar as boas vindas ao candidato à presidência, não vejo problema algum. E também não vou dispensar apoio.

MidiaNews – O patrimônio do senhor, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), aumentou 118% desde 2010 até as eleições deste ano, mas o senhor deu entrevistas em que nega esse fato. Como o senhor explica essa evolução patrimonial?

Salles – Depende do critério usado. Na declaração deste ano, não me pediram para encaminhar meu imposto de renda. Pediram para eu fazer uma relação de quais os bens que eu possuo e qual o valor de mercado que eles têm. Se você consultar meu imposto de renda, o valor que está declarado lá é de aquisição. A casa em que eu moro em Rondonópolis é a mesma que eu tinha quando participei das eleições de 2010, mas eu fiz uma reforma e ela está mais valorizada no mercado. Os bens materiais são os mesmos, eles apenas ganharam valor no mercado. Outra coisa, eu possuo ações em uma empresa e ela, anualmente, passa por reavaliações. Ela não prospera como eu gostaria, mas ela também não perde o valor. Mas naquela eleição eu tirei uma cópia do meu imposto de renda e anexei, enquanto nessa eu fiz uma declaração de próprio punho, conforme a orientação da contabilidade. Mas não tenho problema nenhum com isso. Inclusive defendo a quebra do sigilo bancário, fiscal e patrimonial dos agentes públicos. Porque, enquanto eu tenho uma atividade privada, eu tenho direito a sigilo. Mas quando eu faço a opção de entrar na vida pública, as pessoas têm o direito de fiscalizar e acompanhar a minha evolução patrimonial. Eu defendo isso. A única renda que o parlamentar tem que receber do Poder Público é o salário que ele recebe. Qualquer outro rendimento, em minha opinião, é roubo e não pode ser aceito.

Avaliação

MidiaNews – O senhor é do setor do agronegócio. O senhor não acha que o Blairo Maggi (PR) e o Jaime Campos (DEM) fizeram muito pouco pelo segmento?

Salles –
 Eu entendo que há alguns senadores que defendem essa questão do agronegócio em si e conversam com o setor, defendendo as pautas que o setor encaminha. O que eu acho que falta é uma política de longo prazo para o setor do agronegócio, por parte do Governo Federal. Os Estados Unidos definem políticas agrícolas com metas para médio e longo prazo. No Brasil, não, a política agrícola é feita em cima da hora. Todo ano o governo faz um estardalhaço para dizer quanto vai liberar de crédito, disso ou daquilo, sendo que isso devia ser uma rotina. O produtor rural deveria ter segurança para saber quanto vai investir, deveria contar com uma política agrícola mais estável na qual onde ele pudesse se planejar e crescer ainda mais.

MidiaNews – Qual a avaliação que o senhor faz do Congresso Nacional hoje? Os nossos representantes desempenham um papel que orgulha os mato-grossenses, lá em Brasília?

Salles –
 Nós temos deputados federais que com certeza nos orgulham, principalmente na oposição. Também tenho orgulho do desempenho do senador Pedro Taques lá em Brasília. Vejo com bastante simpatia, orgulho e coerência a postura que o senador Jaime Campos manteve, enquanto outros ficaram trocando de lado para se manter na base do governo. Ele permaneceu ocupando espaços no Senado e representando muito bem a Mato Grosso. Tenho orgulho também do papel do deputado federal Nilson Leitão, que está lá criticando o que não é correto, como foi o caso das críticas ao fato do governo estar criando porto em Cuiabá ao invés de investir na infraestrutura das hidrovias e ferrovias no Brasil. Por outro lado, temos alguns parlamentares que não cumprem com seu papel e tem até o seu lançamento de candidatura prejudicado, porque é julgado pela população. Tem alguns que nos envergonham e outros que nos são indiferentes.

MidiaNews – A gestão do prefeito Percival Muniz (PPS) e do senhor, como vice, em Rondonópolis, tem sido mal avaliada. O que o senhor fez como vice na cidade e como avalia essas críticas?

Salles –
 Eu tenho muito claro qual é o papel do vice, que é ocupar o governo na ausência do titular. O vice tem que procurar dar a sua contribuição, mas tendo clareza que, para o bem ou para o mal, a decisão cabe ao titular do cargo. Eu fui vice-prefeito de Carlos Bezerra (PMDB) em Rondonópolis e procurei me manter informado sobre tudo o que acontecia na Prefeitura e, quando tinha alguma sugestão a dar, o procurava e dava a minha sugestão. Tanto que, quando ele se afastou, graças a essa minha postura, ele não ficou indicando ninguém.

MidiaNews – Mas, dessa forma, o vice se trataria apenas de um cargo “figurativo” para o senhor?

Salles –
 Não, eu acho que se trata de um cargo muito importante, mas que cabe ao titular do cargo delegar ou não algumas funções. Cada titular é de um jeito. Quando o Bezerra saiu, assumi a Prefeitura e montei a equipe da forma como devia, tomei as decisões que achei que cabia e nunca sofri interferência dele. Quando fui vice-governador do Dante de Oliveira (PSDB), ele me pediu para presidir o Conselho de Modernização e reforma do Estado, e eu fiz isso. Fazíamos reuniões e discutíamos propostas que eu levava ao governador. Além disso, eu procurava rodar o Estado, até para me manter bem informado, porque o dia a dia da administração acaba absorvendo o governador. O vice-governador ficava mais “solto” e eu pude visitar aos 141 municípios, para conversar com os prefeitos, via onde estavam os problemas e trazia quase um relatório de cada cidade, dando a minha opinião a cada gestor responsável. 

MidiaNews – Pelo o que o senhor diz, é um papel que depende de cada titular. Lá em Rondonópolis, isso funciona como?

Salles –
 Primeiro, o prefeito [Percival Muniz] pediu para que eu assumisse uma secretaria. Eu não aceitei porque eu já tinha meu cargo. Mas procurei dar a minha contribuição, indo nos órgãos da prefeitura e vendo aquilo que eu entendia que não estava ocorrendo como deveria. E procurei, também, coordenar a área a qual eu sou mais ligado, que é a modernização da gestão da Prefeitura. Mas isso acaba sendo prejudicado em função das decisões. Sempre fiz tudo sabendo muito os limites disso. Eu não tomo decisões. Sou mais um consultor do prefeito, alguém que ele sabe que vai conversar com ele sem a pretensão de ganhar nenhum cargo. E isso eu procurei fazer.

 

 

 

LISLAINE DOS ANJOS
DA REDAÇÃO

 

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