26/05/2016 - Kanela do Araguaia (MT) têm aldeia ameaçada de expulsão e liderança faz apelo às autoridades

São cerca de 70 anos de expulsões, fugas e perambulações. Nesta quarta-feira, 24, a história poderá se repetir para os Kanela do Araguaia. Mesmo ocupando uma área da União, a Gleba São Pedro, município de Luciara (MT), à direita da margem do rio Tapirapé, a liderança da aldeia Nova Pakaru, Pedro Kanela, denuncia que uma pretensa dona das terras ameaçou retirá-los à força caso não saiam até esta quarta, dia marcado pelo Programa Terra Legal, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, para realizar análises na Gleba.

“Nesse momento eu afirmo que nossa comunidade está decidida a enfrentar todas as ameaças, mas eu faço também um apelo para as autoridades que evitem que nosso povo mais uma vez tenha famílias vivendo feito mendigas nas cidades ou membros assassinados como foi no passado”, diz Pedro Kanela.

O ultimato ocorre menos de um ano depois de uma reintegração de posse executada contra a mesma aldeia, em 7 de julho de 2015. O despejo, no entanto, não era contra os Kanela, mas a Polícia Militar não perdeu a viagem e colocou os indígenas em caminhões de transportar gado e “nos jogou no município de Canabrava. No último dia 9 de maio retomamos a Gleba novamente”, explica Pedro Kanela. O procedimento é salutar para revelar como se dá o esbulho de terras indígenas no Brasil.

Essa reintegração de posse, na verdade, envolvia o litígio de dois proprietários que apresentaram à Justiça escrituras de terras da Gleba. Como um saiu vitorioso no processo, pediu que o outro fosse retirado da área. Quando a PM lá chegou estavam os Kanela. “O Oficial de Justiça ficou confuso. Não era a gente que estava no papel para retirar”, conta a liderança Kanela. Ambos justificaram aos indígenas a compra da área pelas mãos da mesma pretensa dona da terra, que agora ameaça os Kanela.

“Há 30 anos a família Luz deixou de ocupar as terras da Gleba. Hoje essa mulher que se diz dona, neta de Lúcio da Luz, reivindica a posse e vende áreas da Gleba para terceiros. A Gleba está registrada na SPU (Secretaria de Patrimônio da União)”, explica Pedro Kanela. Entre novembro de 2015 e fevereiro deste ano, a Fundação Nacional do Índio (Funai) esteve na Gleba para qualificar a demanda de demarcação do povo Kanela do Araguaia.

Na aldeia o clima se tornou tenso desde as últimas ameaças. Sobretudo entre os anciãos, que passaram a vida toda correndo de um canto para outro. “O que a gente pede é que a qualificação seja logo publicada e o grupo de Trabalho da Funai comece a identificar nosso território. Porque o programa Terra Legal vai precisar de uma sinalização da Funai de que a área tem interesse indígena. Estamos buscando paz nessas terras de onde fomos expulsos seguidas vezes desde 1954”, afirma Pedro Kanela.

Terra de esperança              

Pukanu significa terra da esperança, onde tudo se renova. Há pouco mais de dez anos os Kanela do Araguaia passaram a reivindicá-la. De lá os mais velhos foram expulsos em 1954. Passaram a sobreviver como boias frias nas fazendas de gado da região. Com a chegada das novas gerações, os anciãos decidiram que era hora de voltar para o lugar da antiga aldeia esbulhada. Em 2010, a comunidade vivia na Gleba Xavante I.

Fugindo de ataques de fazendeiros na Ilha do Bananal, no Tocantins, e de conflitos com os Karajá, os Maxakali aportaram na Gleba Xavante I. A área foi cedida para a Funai que a demarcou para os Maxakali. Os Kanela do Araguaia não criaram empecilhos: sabiam que a área era de antiga perambulação dos Maxakali, de onde também foram expulsos, e então decidiram seguir para a área tradicional do grupo na Gleba São Pedro, onde instalaram a retomada da aldeia Nova Pakanu. Um ano antes, em 2009, os Kanela protocolaram um documento na Funai apresentando a demanda.

“Nossos antigos vieram fugidos do Maranhão, no início do século 20. Depois chegou mais Kanela vindos dos massacres lá na Terra Indígena Porquinhos (povo Kanela Apãnjekra), do Escalvado. Em 1954 começou a chegar gente dizendo que era dono, com escritura e nos expulsaram. Então estamos em uma área que tem nossos antepassados enterrados, que é nossa. Vamos ficar aqui, essa é a decisão e pedimos que as autoridades garantam nossa paz. Estamos correndo risco aqui, a região é de muita pistolagem”, alerta Pedro Kanela.

 

 

 

Assessoria de Comunicação Cimi

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