27/01/2011 - 08h:59 A história se repete: “Meus filhos caminham 6 km para pegar o ônibus escolar”

A vida no campo para quem deseja mais educação é de sacrifícios redobrados. Aqueles que deveriam ter uma melhor assistência por parte do Poder Público por não disporem de algumas facilidades que existem na chamada “cidade grande” a cada vez mais se confirma como cidadãos de segunda categoria. Perto do fim das férias, o filho do trabalhador rural já se prepara pelo que vem pela frente: caminhadas longas, horas dentro de um ônibus, na maioria das vezes com pouca segurança, e, muito cansaço.

A história é bem antiga, mas, ainda assim, parece quase nunca sensibilizar as autoridades. Seria estranho para um modelo em que o voto do eleitor tem importância fundamental. Ainda mais em pequenas comunidades, onde as definições políticas quase sempre são bastante acirradas. Porém, o fato de estar se tratando com “gente humilde” o abuso e o descaso parece se agigantar cada vez mais.

 24 Horas News,  percorreu um trecho de 100 km feito por dois ônibus escolares que levam cerca de 80 alunos com idade acima de seis anos para as escolas da cidade. “A verdadeira expedição” – como classificou a equipe liderada pelo jornalista Leandro Trindade -  começou pela saída para o Xingu, na região conhecida como “Barulho”, passou pela “Terra Rocha”, comunidade de “Santa Marta” e terminou no “Córrego da Onça” quando pegou de volta  o asfalto nas proximidades do “Canta Galo”, onde fica a escola que atende os moradores destes povoados.

Cada trecho percorrido nesses 100 quilômetros se percebe que há uma característica peculiar. No início pelas comunidades do “Barulho” e “Terra Rocha” o maior desafio foram os atoleiros. Em alguns pontos moradores fizeram desvios, pois pela estrada é impossível passar por uma seqüência de oito grandes buracos profundos e cheios de água das chuvas. Não existe um simples sistema para escoamento de água. A vida para o homem do campo é bem mais complicada tamanho a falta de cuidado do poder público.

Era visível e perceptível que a estrada municipal estava patrolada, mas sem cascalho. Desta maneira quando chove, comum nessa época do ano, vira um lamaçal e o carro não encontra onde firmar os pneus e acaba atolado. Os moradores confirmam. “Toda semana tem uns quatro ou cinco carros atolados na estrada. Nós socorremos com o trator. É a única coisa que podemos fazer enquanto a estrada tiver nessa situação” -  disse José de Jesus, morador da região a mais de 20  anos.


 


Perto do  povoado de Santa Marta os problemas com o barro diminuem, não porque a estrada esta reparada, mas porque esta chovendo pouco na localidade. A partir dai o que realmente preocupa são as pontes -  se é que se pode chamar algumas delas de “pontes”. Na verdade, muitas são apenas  madeiras sobre os córregos. Risco para quem transporta, risco maior para quem é transportado.

José Anísio, pai de cinco filhos, todos em idade escolar, conta que “os meninos”  caminham aproximadamente 3 quilômetros para pegarem a condução que os leva para o colégio. E engana-se quem imagina que sua casa fica distante da estrada principal da comunidade rural:  ela é costeira, não fica mais de 50 metros da estrada.
“Durante todo o ano passado meus filhos caminharam diariamente mais de três quilômetros  para pegar o ônibus, seis se contarmos ida e volta, mas tem filhos de vizinhos aqui, que com seis ou sete anos caminham quase 10 quilômetros para chegar ao ponto de embarque, pois o transporte não consegue passar por algumas pontes e atoleiros” - destacou o pai, que também se disse preocupado com a situação que seus filhos enfrentarão neste ano.

“No final do ano passado recebemos a promessa de que em 2011 nossos filhos embarcariam na porta de casa, mas vendo como estão as pontes já perto de começar as aulas, acho muito difícil disso se cumprir” – constata, desolado.

Na região do “Córrego da Onça”, local onde grande parte dos vereadores de Confresa tem propriedades rurais, a situação da estrada melhora, o cascalho aparece e os atoleiros somem, mesmo assim alguns buracos assustam, mas são comuns, pois são oriundos das forças das chuvas.

Leandro Trindade dá sua impressão: “O que realmente nos causou insegurança e até mesmo medo foi passar por uma ponte com formato de “V” que balançava com nosso peso. Enfim, cinco horas depois de começarmos a viagem, de percorrer cerca de 100 quilômetros, conversar com mais de dez moradores, estávamos novamente na cidade, cansados, sujos e preocupados. E só enfrentamos essa realidade um dia, imagine agora o que passam estas crianças que fazem este trajeto de segunda a sexta feira para estudar”.

 

Redação 24 Horas News