27/04/2012 - Piloto de MT que atuou com os Villas- Bôas recorda o que viveu no Xingu

Piloto auxiliou sertanistas em expedição que fez contato com índios isolados. Décadas depois, mato-grossense relembra as dificuldades vividas na mata.

 

 

Ele acompanhou de perto a saga dos irmãos Villas-Bôas durante a expedição Roncador-Xingu, que culminou com a criação do Parque Nacional do Xingu em 1961, em Mato Grosso. O piloto mato-grossense Lisardo Fernandes deu assistência direta aos índios e aos expedicionários que realizavam a “marcha para o oeste”, promovida pelo governo de Getúlio Vargas, no início dos anos 40. À reportagem, Fernandes relembrou a aventura dos três irmãos rumo ao interior do Brasil. A expedição voltou à tona com o recém-lançado filme Xingu, do diretor Cao Hamburguer.


A expedição tinha por objetivo promover a interiorização do Brasil, a partir do desbravamento de terras ainda desconhecidas na época. A demarcação das terras teve início com a abertura de estradas e com a construção de campos de pouso de emergência para as aeronaves, que eram indispensáveis à manutenção da expedição.

Tudo o que parecia ser um conflito violento entre os índios que habitavam a região se tornou um contato amistoso, que levou ao conhecimento das etnias e de suas necessidades, como a proteção às terras, à saúde e à cultura dos índios.

A região às margens do rio Xingu abriga atualmente cerca de 16 etnias, no entorno do municípios de Nova Xavantina, cidade localizada a 651 km de Cuiabá. Contratado pela Funai de Mato Grosso, somente Lisardo era autorizado a sobrevoar as regiões de reserva indígena, protegidas pelo governo federal.

Durante a década de 70, com apenas 25 anos de idade, Lisardo fazia voos diários para a região norte de Mato Grosso, com o objetivo de transportar alimentos e medicamentos às aldeias, mas sua atuação teve um papel fundamental da manutenção da expedição e na sobrevivência dos xinguanos durante o período de epidemia de sarampo que acometeu grande parte da população indígena naquela época.

“O avião era gênero de primeira necessidade e era o único contato com a civilização. Aquele tempo a aviação tinha seus riscos, porque não tínhamos o GPS e a navegação era feita via cronômetro", disse.

O piloto aposentado contou ainda os desafios vividos pelos expedicionários, que mantinham contato por meio de um clareira, para que os alimentos fossem atirados do avião.

Durante o período da expedição, Lisardo conheceu os irmãos Leonardo, Orlando e Claúdio Villas-Bôas, quando eles tentavam contato com os índios da etnia panará. "Eles traziam consigo vários índios xinguanos que auxiliavam na comunicação" revelou.

Da convivência com os irmãos Villas-Bôas ele pôde confirmar vários episódios que foram retratados no filme Xingu e resaltou a dedicação dos irmãos, que tinham como lema a “proteção total aos índios”.

Registro histórico

Um imagem feita pelo fotógrafo Pedro Martinelli mostra o avião de Lisardo rodeado pelos índios. O registro fotográfico ocorreu logo após um pouso na reserva indígena em que os índios, curiosos com o meio de transporte, acreditavam que a aeronave se tratava de uma estrela cadente. Diante da curiosidade, Lisardo realizou um sobrevoo com os indígenas sobre as aldeias, o que causou espanto e deslumbramento entre os nativos.

"Eles começaram a subir no teto e na asa do avião. Nesse dia fui fazer o sobrevoo para mostrar onde era a aldeia deles. Eles ficaram assustados e não entendiam como levavam um dia inteiro para chegar nas aldeias", recordou.

Em Cuiabá, a esposa de Lisardo, Verenice Fernandes e duas filhas ficavam à espera do marido durante as viagens até o norte de Mato Grosso. “Ele saia para fazer o voo e na volta se chovia, tinha que permanecer no local até que o tempo melhorasse. A gente tinha muita fé de que nada ia acontecer, que tudo daria certo e que ele ia voltar com vida”, relembrou.

Para Lisardo só restaram vastas lembranças, que hoje podem ser recordadas. Anos depois, o piloto aposentado se diz orgulhoso por ter contribuído com um projeto que se tornou o marco de proteção aos direitos indígenas. “Para mim era uma satisfação poder contar a história e pensar : Eu vi aquela história, eu estava lá”, afirmou.
 
Fonte: G1 MT

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