28/01/2012 - Cacique revela rotina de medo e insegurança na reserva Urubu Branco

 

“Vivemos com medo da violência e na espera da justiça”, foi assim que o vice Cacique Agnaldo, da etnia Tapirapé, resumiu o sentimento dos 900 índios que vivem na reserva Urubu Branco, a aproximadamente 30 km da sede do município de Confresa.
 
A região norte da área de 177 mil hectares, demarcada por decreto no ano de 1992, é o palco de uma intensa disputa de terras entre índios e cerca de 200 famílias de posseiros, que já protagonizaram diversas cenas de violência ao longo da disputa judicial, que passa de 10 anos.
 
Nesta semana, os possíveis invasores denunciaram que 48 barracos haviam sido queimados por agentes da Funai, Fundação Nacional do Índio, na tentativa de intimidar as famílias e pressionarem a desocupação das terras, procurado, o órgão federal ainda não respondeu a acusação.
 
O Cacique contestou o fato e disse que as fotos mostradas pelos “homens brancos” a uma emissora de tv eram antigas, porque perceberam que vão perder a disputa judicial e querer gerar tumulto.
 
Ele disse ainda, que a cerca de 10 dias, alguns posseiros tentaram invadir a sede da Funai na reserva, mas foram impedidos pela guarnição da Polícia Militar que fazia a escolta dos agentes.
 
“Vivemos em total insegurança, evitamos sair à noite, caçar na floresta e até mesmo realizar nossas festas, porque a qualquer momento podemos sofrer uma emboscada, semana passada um índio foi ameaçado de morte quando voltava a sua aldeia a noite, a sorte dele é que outras pessoas passavam na estrada e evitaram esse crime”, disse o vice Cacique.
 
Formado em Letras pela Unemat de Barra do Bugres, o indígena ressalta que a tribo não vai responder com violência as ameaças que vem sofrendo, pelo contrário, diz que o tempo de usar o arco e a flecha ficou no passado, hoje eles lutam através da Justiça, engana-se quem pensa que eles não têm orientação, na reserva 10% dos moradores tem curso superior, enquanto a média nacional é de 4%, segundo o último senso do IBGE.
 
“Na infância presenciamos nossos pais e avós lutarem em defesa da terra, na cidade de Santa Terezinha, armados e usando de violência, hoje não queremos mais isso, confiamos na Justiça e na lei”, declarou.
 
Agnaldo denuncia que os posseiros já desmataram mais de 30 mil hectares da reserva, numa região rica em Pau Brasil, e que os prejuízos causados por este desmatamento ilegal é incalculável. 
 
Ano passado a Polícia Federal chegou a prender mais de 10 pessoas retirando madeira ilegalmente da reserva Urubu Branco, um dos invasores chegou a ser feito refém pelos índios até a chegada das autoridades, para que ele fosse preso.
 
Os posseiros alegam possuir um documento de medida cautelar, que protegeria as propriedades até uma decisão definitiva sobre a demarcação da reserva Urubu Branco. Mas a Funai questiona a origem do mesmo.
 
Em 1992 o Ministério da Justiça editou uma portaria reconhecendo 177 mil hectares de terras nos municípios de Confresa, Porto Alegre do Norte e Santa Terezinha como Área Indígena do Urubu Branco, etnia  Tapirapés.
 
Em 1996 surgiu um novo decreto diminuindo a área para 157 mil hectares e no ano de 2001, o decreto foi retificado e a área passou para 167 mil hectares, mas as coordenadas na medição acabaram sendo de 184 mil hectares, atingindo os produtores rurais da fazenda Porto Velho, que alegam estar fora da área demarcada e pedem que a demarcação seja refeita.
 
Eles negam qualquer tipo de violência contra os índios e os acusam de matarem seus animais, destruírem suas casas e incitarem a violência, “não vamos atacar ninguém, mas vou defender minha propriedade”, disse um dos posseiros.
 
Cerca de 20 policiais federais chegaram a Confresa na quarta-feira, dia 25 de janeiro, para evitar qualquer confronto entre posseiros e indígenas na reserva.
 
 
Fonte:  Leandro Trindade/ O Repórter do Araguaia
 

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