28/08/2014 - Morador de Vila Rica enfrenta diversos problemas durante tratamento de câncer e diz não ter apoio da prefeitura

Para pacientes com câncer que fazem tratamento pelo Sistema Único de Saúde em Mato Grosso, além das poucas opções, pois são realizados apenas no Hospital do Câncer e na Santa Casa de Misericórdia, eles ainda têm que enfrentar problemas constantes com os equipamentos e até a interrupção das sessões de quimioterapia sem aviso prévio. A falta de informação também é um problema comum e os pacientes demoram dias e até meses para resolver um problema, porque nenhum dos órgãos responsáveis explica corretamente a situação.

A jornada em busca do tratamento para o câncer de cólon, do funcionário público Jaci Wagner, 61, já dura quase quatro meses. Ao descobrir o câncer em 2012, ele foi transferido para um hospital em Tocantins para fazer uma cirurgia de emergência.  Depois disso, iniciou as sessões de quimioterapia que tiveram resultados positivos e o início da regressão do tumor.

Porém, em abril deste ano, ele começou a não conseguir mais marcar suas sessões que devem ser feitas a cada 14 dias. Depois de dois meses e poucas informações, ele descobriu que seu tratamento havia sido suspenso e que ele não poderia fazer mais sessões. Com o auxílio da Defensoria Pública, entrou com uma ação para que o tratamento seja pago, mas a primeira audiência foi adiada para 28 de setembro e ele ainda ficará pelo menos mais um mês sem as sessões necessárias para curá-lo. Enquanto isso, ele paga as passagens do próprio bolso, pois não tem ajuda da Prefeitura de Vila Rica (1.259 km a Nordeste da Capital) e dorme em uma casa de apoio de uma igreja evangélica no bairro Araés.

“Estou brigando para poder sobreviver. Ninguém explica direito o que tenho que fazer e como sou leigo nesses termos técnicos é difícil entender de quem é a responsabilidade. Vários outros pacientes do Hospital do Câncer estão com esse mesmo problema e ninguém sabe como voltar ao tratamento. Procurei a Secretaria de Saúde de Vila Rica, a prefeitura de Cuiabá e o Estado e não fizeram nada. Vão esperar que a gente morra para fazer alguma coisa?”, reclama Wagner.

Outro problema constante para os pacientes com câncer no Estado é a estrutura deficiente para radioterapia, que prejudica principalmente os novos pacientes. O aparelho que realiza essa terapia no Hospital de Câncer está quebrado novamente, e a fila de espera só aumenta. Para a coordenadora de palestras do MTmamma, Cleuza Dias Leite, esse é um dos principais problemas para os pacientes com câncer em Mato Grosso. Ela argumenta que esse problema é constante, mesmo com os aparelhos modernos instalados no Hospital do Câncer. “Quem já está em tratamento consegue dar continuidade na Santa Casa, mas a dificuldade é maior para quem inicia a radioterapia. Os aparelhos são modernos e novos, mas não sei se tem a manutenção adequada, porque ele já ficou várias vezes quebrado”.

Quando o motorista Wilvan Batista da Silva, 57, veio de Querência (945 km a Nordeste) achou que os problemas com o câncer no pescoço estivessem resolvidos, pois iria começar o tratamento. Mesmo com a urgência pedida pelo oncologista, pois o câncer está crescendo e criou um inchaço no lado esquerdo do pescoço e rosto, ele espera há mais de um mês pelo início do tratamento. “Até no hospital cada pessoa fala uma coisa, mas as funcionárias que trabalham na radioterapia me disseram que em 15 dias o aparelho já estaria funcionando. Tem muita gente na mesma situação que eu. Espero poder me tratar para sobreviver”.

Outro lado

A assessoria de imprensa da Secretaria de Estado de Saúde informou que a regulação do serviço de oncologia é feita por Cuiabá, que encaminha os pacientes segundo os acordos feitos com os municípios. Nesses casos não há fila de espera e se há recomendação médica o tratamento tem que ser feito.

A Central de Regulação de Vila Rica informou que Jaci Wagner procurou o órgão apenas no início do tratamento e que eles não tinham conhecimento de que esse paciente estava sem tratamento. Informa que entrou em contato com o Hospital de Câncer de Mato Grosso e foi informada que o tratamento obedeceu ao número de doses autorizadas pelo Ministério da Saúde para esse tipo de câncer e para serem liberadas mais doses o paciente deve recorrer ao Poder Judiciário, pois essas doses extras não estão cobertas atualmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

A assessoria de imprensa do Hospital de Câncer de Mato Grosso, por nota, afirmou que o aparelho usado para tratamento de radioterapia no Hospital, do tipo Acelerador Linear, encontrase em manutenção e, por isso, fora de funcionamento. “Estamos aguardando a chegada de uma peça, importada de outro país, para que o equipamento seja reparado. Como há vários trâmites envolvidos, este processo pode demorar algumas semanas, e a empresa responsável pelos serviços não estipulou um prazo”.

Afirma ainda que o Acelerador Linear passa por manutenções preventivas periódicas a cada três meses, e nos casos em que ocorre alguma situação imprevista, infelizmente ficam dependentes dos prazos da empresa responsável pela manutenção. A assessoria da Secretaria Municipal de Saúde de Cuiabá informou que Jaci já realizou 12 meses de quimioterapia e a sua solicitação de continuação do tratamento foi negada com base no Manual de Bases Técnicas de Oncologia do Ministério da Saúde, no qual a quimioterapia tem duração de três a 12 meses, exceto nos casos de cânceres de mama, endométrio ou próstata.

 

Gazeta

Comentários

Nenhum comentário encontrado.

Novo comentário