29/04/2014 - Papa une católicos na canonização simultânea de João XXIII e João Paulo II

Papa que lançou o Concílio Vaticano II e o Papa que ajudou a derrubar o comunismo proclamados santos numa cerimónia inédita. Um gesto do actual pontífice para tentar reaproximar conservadores e progressistas.

 

Roma e Vaticano vestem-se neste domingo com as suas cores mais vibrantes para a canonização de João XXIII e João Paulo II, um acontecimento inédito em dois mil anos de história, repleto de significados e interpretações. Dois papas que deixaram marcas indeléveis e moldaram o que a Igreja Católica é hoje, mas que foram também personalidades muito distintas, representando sensibilidades opostas – ao proclamá-los santos em simultâneo, Francisco envia uma mensagem de unidade, essencial para as reformas que tem na agenda, numa iniciativa que não escapa a polémicas.

 

A Santa Sé não gosta que as decisões papais sejam lidas à luz da estratégia, mas os observadores não têm dúvidas: “a canonização de um Papa é um eminente acto de política eclesiástica”, diz Massimo Faggioli, historiador da Igreja, explicando ao jornal canadiano The Star que a prática, caída em desuso nos últimos séculos, parece estar de regresso, ao ponto de se criar a ideia de que se não foi iniciado o processo para a sua beatificação (a primeira etapa) “os fiéis poderão pensar que talvez ele não tenha sido um bom sucessor de Pedro”.

 

Uma ideia reforçada depois dos gritos de “Santo Subito!” (Santo já!) ouvidos na Praça de São Pedro no funeral, em 2005, de João Paulo II, o carismático “atleta de Deus” que foi inspirador e protagonista na queda do comunismo, guardião da ortodoxia doutrinal, e o primeiro Papa verdadeiramente global. O seu sucessor, Bento XVI, dispensou os cinco anos de espera entre o momento da morte e o início do processo, abrindo caminho àquela que neste domingo se confirma como a canonização mais rápida de sempre – um recorde que faz jus a Karol Wojtyla, que, nos 27 anos do seu pontificado, proclamou mais santos do que todos os antecessores juntos.

 

A esta dimensão, Francisco acrescentou uma outra quando, em Julho passado, ao dar o aval final ao processo de João Paulo II, decidiu canonizar também João XXIII, usando prerrogativas papais que lhe permitem dispensar a confirmação de um segundo milagre – o Papa italiano tinha sido beatificado por João Paulo II em 2000. Francisco não esconde a sua afinidade, no trato e na acção pastoral, com aquele a que os fiéis continuam a chamar, 50 anos depois da sua morte, “o Papa bom”, eleito como ele aos 77 anos e que, sem ninguém o esperar, se transformou no Papa do aggiornamento e que colocou as questões da pobreza, da paz e dos direitos humanos no centro do discurso da Igreja.

 

Reconciliar tendências

Os dois papas “são muito populares entre diferentes grupos. Canonizá-los ao mesmo tempo é um acto político através do qual Francisco, à semelhança do seu antecessor, Bento XVI, quer sublinhar a continuidade na história recente da Igreja”, disse à rádio pública holandesa o padre Marc Lindeijer, historiador na sede dos jesuítas, em Roma. John Allen, vaticanista e editor do jornalBoston Globe, é ainda mais directo: “João XXIII é um ícone para os progressistas, lembrado como o Papa que lançou o reformador Concelho Vaticano II (...). João Paulo II é o herói dos conservadores, o Papa que derrubou o comunismo e denunciou a ‘cultura da morte’ por trás dos que defendem a liberalização do aborto (…). Se tivesse canonizado apenas um, isso seria interpretado como uma vitória para um dos lados.”

 

Há também quem veja na simultânea elevação aos altares a forma encontrada pelo Papa para evitar o culto de personalidade em torno de João Paulo II – mesmo que a popularidade daquele que foi uma das figuras do século XX tenha sido ofuscada pelo entusiasmo que ele próprio despertou – e de, ao mesmo tempo que tenta reconciliar sensibilidades distintas, reafirmar o caminho de abertura iniciado no Concílio Vaticano II. “Ele está a tentar unir a Igreja num terreno comum que pensa que todos partilham”, explica Faggioli. Francisco, que pôs já em marcha a reforma da Cúria, presidirá em Outubro ao sínodo dos bispos onde se  vai discutir a resposta da Igreja às alterações na estrutura das famílias e, como em 1962, será essencial a aproximação entre conservadores e progressistas.

 

Polémica e celebração

Roma preparou-se para receber um milhão de peregrinos, 43 chefes de Estado e de Governo, o que obriga a um impressionante dispositivo logístico. Pela cidade multiplicaram-se homenagens aos dois antigos pontífices e as cerimónias no Vaticano – que se esperam menos pomposas do que no passado, à imagem da contenção ordenada por Francisco – serão transmitidas para todo o mundo. Confirmada está a presença de Bento XVI, o “quarto Papa” desta cerimónia inédita.

 

E, mesmo que os italianos estejam a redescobrir com entusiasmo o seu penúltimo Papa e os vaticanistas tenham voltado a olhar para o impacto da “janela aberta” pelo Concílio, este é um acontecimento planetário por causa de João Paulo II. Da sua Polónia natal chegaram a Roma milhares de peregrinos, as lojas e as ruas voltaram a encher-se com o rosto de Wojtyla e olha-se pela terceira vez (depois da morte e da beatificação, em 2011) para o seu legado. Para o seu trajecto ímpar, de Cracóvia aos altares dos cinco continentes, o seu carisma, a imensa influência doutrinal e a lenta degradação física aos olhos do mundo. Mas também aquilo que a AFP descrevia como “as zonas-sombra” do seu pontificado, a começar pelo fechar de olhos às denúncias de pedofilia.

 

 

 

 

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