29/09/2015 - Produzindo e comendo no vale do Araguaia – Parte 2

Farinha de mandioca, maracujá, cheiro-verde, doce de leite, pimenta. De tudo um pouco se encontra numa feira livre na região do Araguaia. Tem ovos de todas as cores: vermelho, amarelo, verde, azul. Se você nunca viu, não se espante, são os legítimos ovos de galinha caipira, aqueles que têm a casca grossa e a gema bem laranja (e muito mais sabor). Os peixes também são pescados direto dos caudalosos rios da região pelos pescadores profissionais que levam sua produção à feira. Quem é acostumado a comer peixe de rio não o troca por um peixe de tanque (afinal, é muito mais gostoso).

Talvez aí esteja um bom motivo para comprar nas feiras do Araguaia: o sabor. Os produtos são fresquinhos, a maioria produzida de forma artesanal e uma boa parte sem agrotóxicos. Sem falar no preço, que costuma ser mais em conta do que nos supermercados locais. A aparência não é padronizada, cada tomate é de um tamanho e de uma cor. A berinjela pode ser bem menor e mais torta do que aquelas que chegam aos supermercados direto do Ceasa de Goiânia. Nem todos acreditam na sua qualidade, mas quem vive no Cerrado sabe que é no retorcido que se esconde a beleza deste lugar.

Enquanto nas feiras das grandes cidades o feirante revende a produção do campo, nas feiras da região os feirantes são os próprios produtores que se desdobram na tarefa de produzir e vender. Mesmo aqueles que especializaram sua produção, como para hortaliças ou abacaxis, não deixam de levar à feira o excedente da produção, seja o limão do pé que carregou nos fundos do quintal, ou uma compota feita com os cajus da estação. Por isso mesmo, muitos produtos vendidos nas feiras livres do Araguaia vão mudando ao longo do ano. Se em janeiro as bancas estão repletas de murici, em março se enchem de abóboras, já em maio é o tempo do milho, enquanto em dezembro a feira cheira à pequi.

Essa riqueza toda, porém, não se vê à primeira vista. Algumas pessoas desconfiam quando olham poucas barracas com poucos produtos expostos. Nesta segunda reportagem da série “Produzindo e comendo no vale do Araguaia”, visitamos feiras livres de diferentes municípios da região nordeste de Mato Grosso (veja no mapa abaixo) e conferimos que as feiras livres estão com tudo! Quase todos os municípios do vale do Araguaia mato-grossense têm feira livre, cada uma do seu jeito. As feiras no Araguaia são o principal espaço onde os camponeses comercializam sua produção diretamente, mesmo faltando apoio e o difícil acesso da zona rural. É na feira que encontramos os camponeses que abastecem com alimentos produzidos localmente, as mesas da nossa região. Vamos conhecê-los!



Em São Félix do Araguaia, feirantes se organizam para melhorar suas condições.

A feira de São Félix é o lugar certo para comprar farinha de puba. Essa farinha da mandioca brava fermentada é a especialidade dos feirantes que vêm do Assentamento Dom Pedro, localizado no mesmo município, mas distante 120 quilômetros da cidade por estrada de terra. Além da farinha, os assentados também trazem mandioca, abóbora, galinha e frutas típicas, como bacaba, buriti e babaçu. Muitos produtos são beneficiados em forma de compota, tempero, conserva e queijos, já que é mais difícil que produtos frescos e perecíveis cheguem em boas condições depois de tanto chão. As hortaliças ficam por conta das hortas urbanas da cidade.
 

Feira em São Félix do Araguaia. Crédito: Lilian Brandt
Feira em São Félix do Araguaia. Crédito: Lilian Brandt.

 

A feira em São Félix do Araguaia acontece todo domingo de manhã com mais de 20 bancas num amplo espaço fechado. Mas para os feirantes do Assentamento Dom Pedro, a feira começa bem antes. No sábado pela manhã, os feirantes já estão com os produtos para levar à cidade pelo caminhão da prefeitura. Até ano passado, os assentados também iam para São Félix em cima do caminhão, junto com os produtos numa jornada que pode durar mais de três horas. Em 2014, a Associação Grupo de Feirantes Fruta da Terra adquiriu um ônibus para transportar os feirantes com segurança, apoiado pelo Programa de Pequenos Projetos Ecossociais do Cerrado (PPP-Ecos). Quando chegam em São Félix, a maioria se instala no próprio barracão da feira e fica até segunda-feira, quando muitos assentados aproveitam para resolver questões na cidade. Só então, os feirantes retornam para suas casas no assentamento.

Segundo a presidente da Associação, Aparecida Antônia de Castro Ribeiro, já são mais de 50 associados feirantes. Pelo mesmo projeto apoiado pelo PPP-Ecos, a Associação de Feirantes comprou uma balança, uma seladora e um freezer para ajudar no beneficiamento e na apresentação dos produtos vendidos na feira.

Nem todos os municípios têm organização de feirantes e nem todas as associações têm conseguido apoiar na infraestrutura como a Frutos da Terra. Além disso, são raros os assentamentos que contam com assistência técnica e menos ainda com uma assistência adequada à forma de produzir camponesa e, neste caso específico, ao produtor feirante. Aparecida lembra que, apesar da melhora com o projeto, as condições são precárias e a prefeitura não ajuda muito. “É o meio de ter uma renda. É sofrido, mas e o único meio de trazer as coisas da roça e vender” completa Aparecida.



A feira de Nova Xavantina: livre mas fiscalizada
 

Feira de Nova Xavantina. Crédito: Maíra Ribeiro
Feira de Nova Xavantina. Crédito: Maíra Ribeiro.

 

Apesar de ser no domingo, a feira de Nova Xavantina começa antes do alvorecer. Quem chega depois das nove horas não encontra mais alguns produtos. Mas isso não parece ser problema para muitos moradores que vão para a feira para conversar, comer pastel e tomar caldo de cana. A feira é antes de tudo um ponto de encontro, não só entre moradores, mas entre o campo e a cidade.

Esta feira existe desde a década de 1980 por iniciativa dos posseiros da zona rural do município. Hoje em dia, ela acontece num amplo espaço coberto construído e mantido pela prefeitura. Entre os feirantes, estão produtores assentados, sitiantes da zona periurbana, pequenos e médios proprietários rurais, agricultores urbanos, pescadores e comerciantes.

A feira de Nova Xavantina é livre em todos os sentidos. Não se paga taxa para expor, não é necessário fazer cadastro, não há restrição do que se pode vender. Por isso, encontra-se de tudo um pouco na feira, de abacaxi e porco caipira até lingerie e brinquedos. Porém, a fiscalização da vigilância sanitária tem crescido nos últimos anos, e segundo os próprios feirantes, a feira tem diminuído por conta disso.

Benedito Bueno Fernandes, o Ditinho, ex-secretário municipal de agricultura de Nova Xavantina (1) conta que o maior problema para os camponeses do município é a comercialização de produtos. Segundo ele, a feira é o único espaço de comercialização direta da agricultura familiar no município. “Se quiser vender produtos para a merenda escolar, muitas vezes a documentação e a burocracia travam o pequeno produtor. Ele produz e não consegue vender. Aí o pessoal da vigilância sanitária e da Promotoria vai na feira e já prenderam até as carnes dos feirantes lá, então não pode vender. Aí o atravessador vem e compra baratinho, leva para outro município, e depois vende para nós caro aqui”, reclama Ditinho.

Essa realidade é compartilhada por vários municípios da região. Assim, as normas sanitárias não atuam apenas como formas de assegurar a qualidade dos produtos, mas também como um direcionamento da produção familiar para dentro das cadeias agroindustriais, ao impedir a venda direta da sua produção.

Enquanto são fechadas as bancas de produtos frescos, como carnes e leite cru, aumentam na feira as bancas de revenda de produtos industrializados. Nos últimos anos, pode-se ver o aumento das barracas de roupas, lingeries, brinquedos, perfumes e bijuterias na feira de Nova Xavantina. Ironicamente, muitas vezes os produtos revendidos, que substituem o espaço dos produtos censurados pela vigilância sanitária, também não estão de acordo com as normas vigentes, sem nota fiscal ou tributação. Seja de uma forma ou de outra, o que permanece é a informalidade, característica da versatilidade do trabalhador e da feira enquanto seu espaço de trabalho.



A feira que resiste em Canabrava do Norte
 

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A feirante Raimunda e seu marido Placides em seu lote em Canabrava do Norte. Crédito: CPT Araguaia.

 

O município de Canabrava do Norte foi emancipado em 1991 e contava no último Censo do IBGE de 2010 com menos de 5 mil habitantes. Na pequena cidade, a feira surgiu a cerca de dez anos através do Grupo de Mulheres de Canabrava do Norte. Hoje em dia, porém, só duas associadas desse grupo participam da feira. Uma delas é Raimunda Alves Lima, do Assentamento Manah, que também vende produtos de suas colegas do grupo de mulheres.

“A feira é homem e mulher feirante que faz. Mas pela feira ser surgida pelo grupo de mulheres, os homens ficam até com vergonha de ir sozinho, sem mulher. Às vezes, entra um feirante que não é da feira, vem só naquele dia, aí ele vem com a mulher dele”, se diverte Raimunda.

Assim como a maioria dos feirantes, Raimunda leva de tudo um pouco que tem na roça e no quintal e garante a qualidade da produção. “O que nós levamos do grupo de mulheres para a feira é sem veneno porque a gente participou daquele curso da Comissão Pastoral da Terra que ensinou a fazer os inseticidas naturais, com negramina, água da mandioca-brava, urina de vaca, o nim”.

A feira de Canabrava é todo sábado e, segundo Raimunda, a feira não só acontece como ela resiste. “Faz mais de dez anos que existe e ela nunca acabou, às vezes ficam duas bancas, mas não acaba”.



As feiras de Porto Alegre do Norte
 

Feira da Terra em Porto Alegre do Norte. Crédito: CPT Araguaia
Feira da Terra em Porto Alegre do Norte. Crédito: CPT Araguaia.

 

Distante 38 quilômetros de Canabrava do Norte, chegamos em Porto Alegre do Norte. A cidade agora conta com três feiras semanais. Quem vê de longe as dez barraquinhas numa esquina da BR-158 não imagina a diversidade de produtos que tem na feira de quinta de manhã. Peixe, queijo e leite fresco, caldo-de-cana, farinha de mandioca e puba, abóbora, mandioca. Encontra-se ainda hortaliças e verduras difíceis de serem encontradas até nos mercados, como pepino, pimentão, tomate e berinjela. Além desta feira, existem mais duas, no domingo de manhã e na sexta-feira à noite, a chamada Feira da Terra.

A feirante Luíza Cardoso de Souza veio do Assentamento Fartura, em Confresa: “Tenho umas duas vaquinhas para poder beber leite, mexo com as galinhas, faço o plantio de mandioca, tiro o polvilho, faço a puba, para ver se vai pingando uma coisa e outra. Vendo mais lá em Confresa porque aqui fica muito longe. Aí, quando tenho que arrumar alguma coisa em Porto Alegre do Norte, a gente já aproveita e vem aqui na feira”.

Luíza conta que participa da feira de Porto Alegre do Norte há mais de 30 anos. “Eu sou dessa feira do tempo do Cascão, o primeiro prefeito aqui do Porto Alegre. A feira aqui era boa, começava a chegar gente na boca da noite e chegava gente a noite inteirinha até o dia amanhecer. Você podia levar tudo que vendia” relembra a feirante.

Cláudia Araújo, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) acredita que um dos fatores para o aumento das feiras durante a semana foi o asfaltamento de algumas estradas. Além disso, as pessoas estão começando a se preocupar com a alimentação e o consumo local e sem agrotóxicos. “O fato das verduras nos supermercados vir de fora só uma vez por semana acabou sendo uma boa oportunidade para os agricultores. Os feirantes são assentados ou chacareiros que moram próximo às cidade, se tivesse mais logística e boas estradas, as feiras iriam crescer ainda mais” aponta Cláudia. Na maioria das feiras do vale do Araguaia, grande parte dos feirantes vive próximo às cidades e fazem essa ponte entre campo e cidade.

A feirante Maria José concorda com Cláudia: “Apoio de prefeitura, a gente não tem. A estrada não é boa, às vezes você precisa de trator para aração, isso tudo é por conta da gente mesmo “. Maria José mora no distrito de Nova Floresta, a 55 quilômetros da sede do município e produz todo tipo de hortaliças. Ela vende na feira de Porto Alegre do Norte enquanto os filhos vendem nas feiras de Confresa. “Só vendo nas feiras. Compensa mais feira do que mercado porque mercado é aquela tradição, é o preço que está em Goiânia que eles vão pagar pra você. A feira é mais viável porque paga à vista”.



Confresa comprova: onde tem agricultura familiar camponesa tem feira!

Feira em Confresa. Crédito: CPT Araguaia
Feira em Confresa. Crédito: CPT Araguaia.

 

Seguindo 30 quilômetros pela BR-158, chegamos em Confresa, um dos municípios com mais assentamentos e agricultores familiares do vale do Araguaia. Segundo dados do INCRA, 83% do território municipal é ocupado pelos 13 assentamentos da reforma agrária, que abrigam quase cinco mil famílias assentadas. Assim, não é de se espantar que atualmente existem quatro feiras semanais em Confresa, um município com 38 mil habitantes.

A principal feira de Confresa acontece aos domingos pela manhã nas ruas centrais da cidade. Essa feira chega a ter cem feirantes, vindos não só dos assentamentos do município mas de toda a redondeza. Além de Canabrava e Porto Alegre do Norte, vêm feirantes de Luciara e Vila Rica. Há cerca de três anos, começaram as feiras noturna nos bairros, que acontecem ao longo da semana. Já há um ano, foi criada a Associação dos Feirantes das Feiras Livres de Confresa (AFFELCON) que apoia na organização das feiras e dos feirantes.

Segundo o presidente, Roberto Carlos da Silva, a Associação já conta com mais de cem associados. Ele e sua esposa são feirantes em Confresa desde que chegaram no município no início dos anos 1990. Eles vendem queijos e laticínios que produzem e que revendem. Durante a entrevista, somos interrompidos diversas vezes por pessoas que vem cumprimentar, saber se as vendas estão boa, como está a família e é claro, qual é o preço do requeijão. Pergunto, afinal, se a feira dá um bom retorno? “Só com o dinheiro da feira não dá, mas é um quebra galho, um complemento da agricultura familiar. Quase todo mundo tem outras rendas. No caso de Deus-o-livre a feira acabar, o povo tem como sobreviver”. Até nesse ponto, os camponeses tem sua sabedoria de diversificar não só na produção mas também na comercialização para não gerar dependência.



Feira livre, espaço de resistência, expressão e segurança alimentar
 

Produção camponesa na feira de São Félix do Araguaia. Crédito: Lilian Brandt
Produção camponesa na feira de São Félix do Araguaia. Crédito: Lilian Brandt.

 

Se quiser conhecer a produção local de alimentos para o abastecimento interno num município do vale do Araguaia, vá para a feira. Ali você encontrará a venda direta dessa produção pelos próprios camponeses, sem intermediários e sem subordinação a supermercados ou complexos agroindustriais. Talvez ninguém perceba, mas nesta pequena atitude, há uma grande estratégia de autonomia dos camponeses do vale do Araguaia.

A feira é portanto um espaço de resistência, e como tal, resiste a inúmeros ataques, ameaças e descasos. Na maior parte, não há apoio das prefeituras, não há assistência técnica, e quando existe, ela é direcionada para a padronização da produção. Além disso, a Vigilância Sanitária fiscaliza, mas não há meios para alcançar as normas sanitárias. Por exemplo, a maioria dos municípios do vale do Araguaia não possui o Serviço de Inspeção Municipal (SIM) que autoriza a comercialização do produto no município. Nesses municípios, mesmo que queira, o camponês não consegue regularizar seu produto.

Em consequência, quando se fiscaliza uma norma que não se pode cumprir, o que acontece é justamente a criminalização da produção artesanal — produção esta que é praticada e consumida no Brasil há séculos, como o leite cru ou o queijo fresco. Mais uma vez, o que se procura é a padronização e normatização da agricultura familiar camponesa, que tem por base a diversidade de formas de produzir.

Mas a feira enquanto espaço de resistência da agricultura camponesa só existe porque há consumidores. E se há feira é porque ela é necessária para suprir de alimentos frescos e de qualidade a mesa dos moradores das cidades da região, apesar de muitos não reconhecerem o papel social deste espaço.

Mais do que isso, a feira é um espaço de expressão do campesinato, como afirma Cláudia Araújo, da CPT. “Este espaço é fundamental para a reprodução dos camponeses, pois é onde o campesinato se expressa, dialoga, se relaciona, interfere. Não existe apenas uma relação de mercado, mas um espaço de vivências, de troca de experiências, lazer para garotada, lugar de contar causos, mostrar o que a terra produz e que o núcleo urbano perceba e respeite o papel que o campesinato desempenha na sociedade.”


 (1) A prefeitura de Nova Xavantina extinguiu em setembro de 2015 a Secretaria Municipal de Agricultura como parte dos cortes de gastos municipais.

Créditos: A entrevista com Aparecida Ribeiro foi feita por Lilian Brandt em São Felix do Araguaia. Todas as demais entrevistas foram feitas por Maíra Ribeiro. A imagem em destaque foi feita por Maíra Ribeiro, e as demais fotos são creditadas na própria legenda.

Maíra Ribeiro é bióloga, indigenista e comunicadora popular no blog da Articulação Xingu Araguaia. Parte dos dados e informações desta reportagem fazem parte da sua monografia “A gente não quer só comida! Discutindo a produção e o consumo de alimentos em uma cidade no vale do Araguaia mato-grossense” de Especialização em Residência Agrária em Organização Socioeconômica e Política de Desenvolvimento Territorial em Assentamentos de Reforma Agrária, pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).


 

 

Maíra Ribeiro/AXA

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